Desafios gravitacionais

Seguindo mais um interessante post do blog do Balu, cheguei a um curioso artigo publicado recentemente no British Medical Journal, uma das mais respeitadas revistas de divulgação científica do mundo. Antes do artigo, porém, um breve preâmbulo sobre o seu contexto:

MedicinaO conceito de medicina baseada em evidência diz que só se devem utilizar métodos cientificamente comprovados no tratamento de doenças. À primeira vista parece um tanto quanto razoável, uma vez que por trás de um comprimido parece haver sempre uma enorme carga de ciência. Mas é aí que a coisa começa a se complicar.

Há vários níveis de estudos que podem ser feitos para que a eficácia de um medicamento seja, de fato, comprovada. Para a aprovação de um tratamento, de um medicamento, as exigências são bem altas com o objetivo de torná-lo o mais à prova de erros (e fraudes) possível.

Alguns pré-requisitos são básicos como um grupo-controle (o mesmo número de pessoas que toma o medicamento em teste toma uma pílula igual porém sem efeito – ou, placebo – para comparação dos resultados); duplo-cego (quando nem o médico nem o paciente sabem quem está tomando o medicamento e quem está tomando o placebo – para evitar o conhecido “efeito placebo”, que é a melhora do quadro clínico do paciente, mesmo ele tomando um comprimido inerte); randomizado (onde quem-vai-tomar-o-quê é decidido aleatoriamente).

O número de pacientes que participa do estudo também influi na sua credibilidade uma vez que, quanto maior a amostra, mais representativa ela é da população e, portanto, mais fiéis serão os resultados.

wise_monkeysQuestões éticas também devem ser observadas. A inclusão de crianças em estudos é sempre polêmica – ainda que determinadas doenças sejam eminentemente infantis. Outras condições crônicas apresentam alguns dilemas: não se pode suspender a medicação usual para dar placebo a um hipertenso ou diabético num estudo, pois sua condição pode se agravar.

A comunidade médica busca, assim, comprovações fortemente embasadas para suas práticas, de forma a melhor avaliar riscos e benefícios na escolha de uma conduta terapêutica. E consegue, indiretamente, proteção para suas decisões – já que sustentam-se em guidelines correntes.

A discussão do artigo mencionado acima gira em torno do excessivo apego a resultados de estudos. Claro que a medicina deve ser baseada em evidências científicas, mas não só isso. Muito do que se faz hoje – e com resultados – é fruto de observações mas que, por algum motivo, não podem ser comprovadas da forma como os mais puristas gostariam. E assim fecham-se as portas para alguns métodos e procedimentos há muito consagrados pela medicina tradicional.

Gordon Smith (professor da Universidade de Cambridge) e Jill Pell (Universidade de Glasgow) questionaram as evidências científicas de que o uso de pára-quedas previne morte ou traumas graves no “combate a desafios gravitacionais” – nada mais do que uma queda livre.

Para tanto eles realizaram uma meta-análise (revisão de todos os estudos já publicados sobre o assunto, combinando seus resultados através de procedimentos estatísticos) em busca de artigos que explorassem o tema (o pára-quedas é “bom” para queda livre?)obedecendo aos critérios:

paratrooper_2:: grupo controle (parte das pessoas pulavam com pára-quedas, parte pulava sem);

:: duplo-cego (nem os pesquisadores nem os voluntários sabiam que mochilas continham os pára-quedas); e

:: randomizado (os voluntários que receberiam mochilas com e sem pára-quedas seriam escolhidos aleatoriamente).

Buscando as principais fontes de artigos médicos disponíveis, Smith e Pell encontraram mais ou menos, algo em torno de aproximadamente nenhum exemplo que obedecesse aos critérios acima. Óbvio, não? Ora, por que, então, as pessoas continuam usando pára-quedas? Afinal, esclarecem, nem todo mundo que usa pára-quedas sobrevive e nem todo mundo que pula ou cai de alturas altas morre.

O tom um tanto jocoso e galhofesco do artigo, bem como o absurdo de seu tema, servem a um objetivo bastante claro na medicina, qual seja, a necessidade de referências altamente científicas que justifiquem uma opinião própria.

Claro que os avanços tecnológicos do século XXI formaram bases para uma medicina não tão baseada no achismo e na experimentação. Até porque os advogados do século XXI seguiram o mesmo caminho. Mas isso não significa que práticas consagradas pelo uso, pela tradição e, principalmente, pelo bom-senso devam ser completamente abandonadas

 

medicina_tradicionalTraçando um paralelo para outras áreas do conhecimento, talvez precisemos dar um pouco mais de atenção ao bom-senso em detrimento da ciência pura.

Um pouco mais de atenção à intuição e outros sentidos do que a fórmulas e cientificismos exagerados. Ou, pelo bem da ciência, da humanidade, você estaria disposto a participar do primeiro estudo controlado, duplo-cego e randomizado testando a real eficácia dos pára-quedas?

No meio desse post encontrei um outro artigo falando sobre o mesmo tema, o mesmo paper. Quase desisti de terminá-lo, pois está muito bem escrito e seu autor é um médico. Mas eu não poderia fazer isso com vocês, queridos leitores… De qualquer forma, sugiro uma olhada!

4 pensamentos em “Desafios gravitacionais”

  1. Opa! Parabéns pelo post e mto obrigado pela citação!
    Engraçado como são as coisas… confesso que escrevi o post falando mto mais pensando sobre o questionamento de alguns economistas que trabalham com comportamento humano. É o tipo de tema que atualmente mais me fascina.
    Tenho um problema sério de sair pesquisando e lendo horrores sobre temas que gosto e depois é um sacrifício fazer post tentando não transformá-lo em textos enormes.
    Com o pára-quedas foi algo parecido. Sou Bacharel em Esporte e depois ainda fiz faculdade de Nutrição então sei bem esse lance de provar por evidências e não pela lógica ou observação.
    Óbvio que dá pra derrubar facilmente o questionamento do pára-quedas já que pela ética médica e científica vc deve interromper um estudo qdo observa mortes relacionadas ao tratamento ou expõe a cobaia a tal risco.
    Ao mesmo tempo o autor exagera um pouco porque na verdade qdo não há evidencias não estamos falando que algo não sirva, estamos apenas falando que NÃO HÁ PROVAS de que algo não sirva. Então quem defende o não-comprovado tem que aceitar que suas alegações não encontram respaldo algum.
    É mais ou menos por aí.
    Abraço
    Balu

  2. Vou dar minha opinião. Existe a ciência e o que não é ciência. A ciência é a “porta estreita”, é o caminho mais difícil de uma hipótese passar incólume. E, mesmo, assim ela pode passar hoje, enquanto um novo experimento não vem refutá-la, amanhã, ela pode ser superada. A ciência é “chata” e rigorosa e este é o seu papel. Tudo o que não for ciência, pode ter seu valor, pode ser aceito, mas que não deseje ser ciência! Eu sou farmacologista, entendo como a ciência chega a uma nova droga, mas sei também que se os médicos (os prescritores) não utilizarem a ciência para prescrevê-la (medicina baseada em evidências), abre-se a possibilidade do cidadão leigo ser vítima da “criatividade” e dos “interesses” de quem for indicar-lhe o tratamento. Acho interessante que as pessoas possam utilizar outras formas de tratamento que não são respaladadas pela ciência, mas estas formas devem devem se auto-denominar “alternativas” e seguirem seu próprio caminho. Você já leu o “conjeturas e refutações” do karl Popper? Acho que iria gostar. abraços.

  3. By the way. Também temos o ensaio triplo cego, quando nem o pesquisador, nem o médico, nem o paciente sabem qual é o placebo. E afinal, não choveu, hein? abs. Walkyria.

  4. Experimentos em Psicologia – John Cade e a solução solúvel

    A leitora que me perdoe, mas nesse texto que fecha a série de Experimentos em Psicologia tomarei algumas liberdades na definição do tema. Em primeiro lugar porque a área da Psicologia será estendida à Psiquiatria. Em segundo lugar, porque trata-se……

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