Sua competição individual

Hoje conversei um pouco por MSN com uma amiga que está fazendo doutorado e tem tido uns problemas de relacionamento em sua escola. Ocorre que o curso em que ela está não é o mesmo de sua graduação e, por isso, tem levado umas “carteiradas” de quem é da área. Imagine você, formado em medicina, tirando o seu Ph.D. em psicologia, por exemplo. Enfrentará, certamente, uma série de questionamentos e será olhado com uma dose de desconfiança dos colegas durante um tempo, até que conquiste seu espaço e mereça a confiança de seus pares. Afinal, pato novo não mergulha fundo, certo?

6a00e554b11a2e8833010537041bfd970c-320wi O universo acadêmico é, desgraçadamente, um dos mais competitivos que existe. Uma verdadeira fogueira das vaidades, onde são grandes as chances de você sair chamuscado. E se no Brasil, como dizia José Guilherme Merquior, “a pessoa que sabe duas coisas será sempre criticada pela que sabe três” – ainda que noutra área você saiba trezentas e a outra duzentas –, na universidade brasileira esse conflito multiplica-se.

A questão da competição piora na medida em que outros fatores a tornam ainda mais insuportável. Por exemplo, quando ela vem de alguém hierarquicamente superior, ou quando você não foi preparado para isso – seja por questões de criação ou de background acadêmico ou profissional. Some-se a isso um temperamento um pouco mais explosivo e você vira uma bomba-relógio. É mais ou menos o caso de Fulana.

Durante nossa conversa lembrei-me de um antigo ídolo da minha adolescência, que tinha uma relação admirável com seus adversários e entendia como ninguém a questão da competição: Garry Kasparov. Nascido no Azerbaijão há 45 anos, Kasparov foi um dos maiores jogadores de xadrez de todos os tempos e detém, até hoje, a maior pontuação no ranking da respectiva federação mundial. Campeão mundial durante mais de quinze anos, foi também o mais jovem enxadrista a obter o título máximo.

6a00e554b11a2e8833010536fb2623970b-320wi Após abandonar o tabuleiro, dedicou-se a uma questionável carreira política disputando, inclusive, a presidência da Rússia, sem sucesso. Atualmente dedica-se à sua fundação que promove o esporte como ferramenta de educação, além de manter sua militância e viajar o mundo ministrando palestras.

Algumas de suas lições estão reunidas no ótimo How Life Imitates Chess: Making the Right Moves, from the Board to the Boardroom (Bloomsburry, 2007. Aliás, essa página da Amazon tem uma interessante entrevista com Kasparov.). Desde cedo, sua vida resumiu-se a disputas, competições, adversários. Numa das passagens mais interessantes do livro Kasparov descreve sua relação com Anatoli Karpov, seu arqui-rival durante a maior parte do seu reinado e, segundo ele, um dos grandes responsáveis por seu sucesso. Para ele, a simples existência de um competidor de alto nível, com qualidades comparáveis às suas, era fundamental para manter-se no topo. Alguém que sempre exija sua melhor performance, seu trabalho árduo para a constante superação, torna-se parte da sua vida, motivação para seguir em frente, integrante de sua obra.

Duelos acirrados engrandecem as disputas – do mesmo modo que a supremacia absoluta enfraquece o combate, reduz o entusiasmo, diminui a glória. Que o diga Michael Schumacher, heptacampeão mundial de Fórmula 1, cujo interesse próprio e dos seguidores da modalidade minguavam a cada conquista sua. Não que o alemão não tivesse capacidade de superar Sennas, Prosts ou Villeneuves, mas suas vitórias e recordes não eram valorizados por Barrichellos, Damon Hills ou Eddie Irvines. Numa passagem interessante Kasparov diz: “Estar tão à frente do seu ambiente pode ser tão ruim quanto ficar atrás de seus competidores”.

6a00e554b11a2e88330147e2bad2d2970b-150wi A presença sempre próxima e ameaçadora de sua nêmesis exigia de Kasparov constante superação. Auto-motivação é um comportamento extremamente difícil e requer disciplina absoluta. Mas a sombra de um desafio nos faz ir além de nossos limites. Por isso Garry dedica toda a reverência e respeito a Anatoli e valoriza os resultados que o grande duelo produziu.

Fulana está brigando por um espaço e ainda não se adaptou a essa competição. Não estava preparada para isso e não escolheu um competidor. Foi escolhida. Porque num ambiente estranho, talvez estável, ela representa a diferença, a ameaça. Nas disputas você reconhece um obstáculo, identifica um objetivo, traça um caminho. Há pessoas que precisam personificar um adversário, idealizar um inimigo. Se esse não é o seu comportamento, provavelmente vai deparar-se com quem age assim. E esse inimigo pode ser você.

Que fazer? Em que ambientes é saudável ter um opositor? E quando isso pode ser prejudicial? Até onde sua fixação na superação de uma pessoa em particular vai te distanciar do seu verdadeiro objetivo, sua real finalidade?

Nos exemplos citados a resposta parece óbvia: não dá para ter dois campeões. No esporte, um só ganha quando o outro perde. É um jogo de soma zero, uma relação de vencedor e perdedor. O próprio Kasparov ilustra muito bem isso na entrevista a seguir:

Mas noutras situações a competição deve gerar benefícios, crescimento e aprendizado para ambos os lados, ou deixará de ser saudável. A disputa deverá mesclar-se com a colaboração, intercalar-se com a troca, dar lugar à parceria. Ainda que aparentemente utópica, essa relação está longe de ser impossível. A diversidade que a gera – tão bem descrita por James Surowiecki em The wisdom of the crowds (próximos capítulos) – pode trazer valiosos resultados para ambos os lados. E assim, médicos e psicólogos têm a chance de engrandecer seus resultados, multiplicar seus talentos e contribuir para os propósitos a que se dedicam – sejam eles pessoais ou coletivos.

PÓS-POST: Meu bom amigo Augusto contribuiu com esse vídeo depois de ler o texto. Ávido praticante de triatlo e apaixonado por performance – seja no esporte, no trabalho ou na vida – ele conseguiu indicar-me o caminho para resumir a essência desse post.

You’re my adversary, but you’re not my enemy (Você é meu adversário, mas não é meu inimigo)
For your resistance gives me strength (Pois sua resistência me dá forças)
Your will gives me courage (Sua vontade me dá coragem)
Your spirit ennobles me (Seu espírito me enobrece)
And though I aim to defeat you (E ainda que eu procure derrotá-lo)
Shall I succeed, I will not humiliate you (Em caso de sucesso, não irei te humilhar)
Instead, I will honor you (Em vez disso, eu te honrarei)
For without you, I am a lesser man (Pois sem você, sou um ser humano menor)

 PÓS-POST 2: Ainda que tenha abordado mais a relação das pessoas com seus adversários, o título do post é “Sua competição individual”, aquela onde você compete com você mesmo, com suas próprias adversidades e limitações e tenta atingir o seu melhor. O que às vezes significa completar uma prova extenuante. Talvez nenhum vídeo simbolize isso melhor do que a final feminina da Maratona nos XXIII Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984.

Naquele quentíssimo 4 de agosto, a suíça Gabrielle Andersen-Scheiss mostrou a um atônito Coliseum sua determinação em completar a primeira maratona feminina da história das Olimpíadas – e a última para ela, aos 39 anos de idade. Seu andar cambaleante, acompanhado pelos 70.000 espectadores, era a imagem da agonia que terminou após a linha de chegada, nos braços da equipe médica.

A real drama came over 20 minutes later, when a lonely figure enter the stadium. 39 year-old Gabrielle Andersen-Schiess, an Idaho ski-instructor, representing her native Switzerland, was suffering from severe heat exhaustion. As she staggered around on her way to the heart-stopping 5’44” final lap, she persistently wade away offers of help. A brave attempt to complete these last desperate meters through grasps of appreciation from the astonished crowd. For Andersen-Scheiss, no medal for her brave performance. For her, the honor of competing in and finishing in the first Woman’s Olympic Marathon was enough. In the name of the Olympic Spirit.

4 pensamentos em “Sua competição individual”

  1. Veja essa parte do texto (http://sports.espn.go.com/espn/page2/story?page=macgregor/090203&sportCat=tennis) que o cara escreveu sobre o jogo Federer x Nadal no Aberto da Austrália. Lembrei desse seu post na hora!
    “Spent, both men are in tears for the trophy ceremony. Only they understand why. Each is less without the other, though the other may destroy him. The legacy of one must now become the legacy of the other. Trapped, they define each other. Paris, London and New York still lie ahead of them. And ahead of us.”
    Abrax

  2. Rodolfo:
    Você encaminhou-me o link para este artigo. Demorei a abrir e ler. Sabia que seria algo em que eu precisaria de tempo para ler e meditar. E foi isto que aconteceu.
    O texto está ótimo. O vídeo com Gabrielle é de arrepiar.
    César

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