Aos cariocas

Passada a ressaca do segundo turno da eleição para prefeito do Rio de Janeiro, é hora de algumas reflexões. Por morar em São Paulo não acompanhei de perto nenhuma das campanhas mas, grosso modo, o que vi foi Fernando Gabeira desbancando o Marcelo Crivella e chegar ao topo das pesquisas após a apuração do primeiro turno, para depois ser derrotado por Eduardo Paes na prorrogação.

Não desanime, Tigrão!
Não desanime, Tigrão!

No blog da Cora Rónai há um texto onde ela exprime seu desapontamento com esse resultado citando o uso da máquina do Estado a favor de Paes, a fortuna gasta na campanha, o mistério dos folhetos apócrifos e um “mal intencionado” feriado antecipado para segunda-feira – o que teria prejudicado o candidato do PV.

Pausa. Feriado?

Em posts anteriores eu falei sobre o voto obrigatório e a falta de engajamento do povo em algumas questões que trazem impacto direto em suas vidas. A forma como encaram eleições é uma delas. Naquele texto eu colocava em dúvida o comprometimento dos eleitores do Fernando Gabeira no pleito municipal. Triste profecia.

Dos 4.579.365 eleitores do Rio de Janeiro, 927.250 não foram às urnas. Todo mundo viajou? Se tiver viajado, tanto pior! Imaginar que o Gabeira perdeu a eleição para um feriado é algo muito triste. É ter a certeza de que os valores do povo carioca não resistem a uma pausa maior entre a sexta e a segunda – ou terça-feira, nesse caso.

6a00e554b11a2e8833010535c06c17970b-300wi Por 55.225 votos o candidato do PMDB saiu-se vitorioso. O Flamengo coloca mais gente que isso no Maracanã. Gente que paga para entrar lá e sai depois que o jogo acaba – não precisa ficar quatro anos.

No mesmo blog há um link para uma comunidade no Orkut chamada “Movimento Pró-Democracia“, que está organizando um protesto em favor de “eleições limpas e democráticas, com lisura e sem manipulações”. Dizem que são apartidários e pedem que compareçam sem identificações de partidos ou times de futebol (???), mas podem levar bandeiras do Rio de Janeiro e narizes de palhaços. Só de ter que pedir para as pessoas não irem com camisas de times de futebol já mostra o tipo de público esperado…

Francamente… Vai ser mais uma festinha, um movimento alegrinho, um passeiozinho na Cinelândia. Um tumulto irresponsável no trânsito já caótico da cidade. E vai ficar por isso mesmo. Totalmente inócuo, sem propósito. Parece o torcedor de futebol reclamando de um impedimento depois de seu time ter perdido seis pênaltis.

Saibam perder com dignidade. Usem essa frustração para repensar seus valores e prioridades. Dirijam essa mágoa para cobrar dos amigos e parentes que foram aproveitar o feriado na praia ou no campo em vez de votar. Canalizem essa energia para ter uma oposição forte e ativa. Mas jamais admitam que perderam para um feriado.

5 pensamentos em “Aos cariocas”

  1. Não sei quantos cariocas lerão esse post. Eu li. E concordo com a quase totalidade do que vem escrito.
    Mas discordo quanto a atribuir essa atitude ao carioca. Também a ele, mas isso faz parte desse estado de ignorância política no qual a grande maioria dos brasileiros ainda vive e do descomprometimento com o futuro do nosso país como se não coubesse a cada um de nós essa responsabilidade.
    Eu lamento sim, mas é pela oportunidade perdida. Quando será que teremos novamente um político com a envergadura moral e ética do Gabeira, capaz de despertar em tantos cariocas de uma só vez a vontade de ir pras ruas, de fazer política bem feita, de se emocionar com discursos sinceros?

  2. Pô, mãe não pode discordar, rá rá rá rá! É verdade, essas críticas sobre a atitude em questão – ou a falta dela – cabem ao brasileiro em geral, não é privilégio dos cariocas. Bem como o caráter festivo que toma conta de boa parte das manifestações posteriores (ou seria melhor “póstumas”?).
    Mas, de fato, talvez nenhuma outra cidade tenha perdido uma oportunidade como essa.

  3. Penso que a oportunidade não foi perdida. As sementes lançadas pelo Gabeira, poderão dar frutos, principalmente se forem cultivadas nas mentes de nossos filhos e dos jovens. Não há nada que nos impeça de adotar os valores apregoados pelo Gabeira, mesmo que sob outra liderança. Mas é difícil a mudança de cultura, ou a cultura de mudança, mesmo sob a liderança de um Gabeira. Um detonador eficaz de mudanças costuma ser o que afeta as partes mais sensíveis do corpo humano, por exemplo, o BOLSO. Por que houve tamanho engajamento popular na recente eleição americana ? Provalmente pelos efeitos dolorosos da CRISE, que afetou e muito, a vida e o bolso dos americanos. Dizem que, por causa dela, qualquer um ganharia do McCain, símbolo dos “culpados”, do capitalismo selvagem, dos neoliberais, etc. Mas a pergunta que fica é : o OBAMA vai resolver o problema ? ou cada americano vai ter que rever seu modelo de vida, de valores e de comportamento ? Será possível alguma mudança significativa sem revisão do histórico modelo de CONSUMO adotado por gerações de americanos? Penso que aí está a gênese do problema. A propósito, qual é o problema ? Seria a corrupção ? Mas a corrupção faz parte do tecido social há séculos. Talvez O PROBLEMA seja que ninguem pensa em mudar, mas quer que os outros mudem. Qual a garantia de que eu estou certo, e você errado ? Aí entra a MORAL e a ÉTICA, e essa discussão vai longe …

  4. Oi Alvan! Obrigado pelo seu comentário! Estou vendo que a agência de Relações Públicas contratada tem sido efetiva, rá rá rá!
    Concordo contigo sobre o detonador de mudanças ser algo extremamente necessário para o sucesso de determinadas iniciativas, correntes, tendências. O incrível é achar que o abafador dessa mudança tenha sido um feriado. É pensar que o comodismo do carioca tenha sido mais decisivo do que sua insatisfação, sua vontade de mudar.
    Já nos EUA – que, confesso, acompanhei pouco – pode ter havido uma caça às bruxas. Escolheram um culpado pela crise e votaram no que representava a ruptura. A culpa? Para mim não há dúvida de que é o consumo, que reduziu o nível de poupança do americano de algo em torno de 20% a -1% do PIB. E um consumo que acelera o crescimento do mundo todo, resultando em mais consumo ainda. Mas seria um ciclo virtuoso ou vicioso?
    Sobre corrupção, recomento a leitura dos posts:
    – Atocha a tocha, com um claro exemplo de corrupção que têm nome e endereço;
    – A marca da maldade & Seu ladrãozinho barato, que discutem o que leva uma pessoa a ser má e praticar crimes.
    Fora isso, volte sempre!
    Grande abraço,
    Rodolfo.

  5. A imprensa adormecida

    Uma triste constatação estampou o blog do Ricardo Noblat na última quarta-feira: A oposição piscou. Sarney deve ficar. A frase trouxe-me uma sensação de que havia alguma coisa mais errada no texto, além da deprimente conclusão do jornalista sobre o……

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