Obrigado por me obrigar

Acompanhei hoje um interessante debate entre os leitores do Acerto de Contas sobre o voto obrigatório. Durante minha vida toda acreditei que isso era uma lástima: ter que obrigar a população a ir votar. Pensava, na minha inocência, o porquê dessa revolta, já que o país havia acabado de sair de um longo período de ditadura e tudo o que mais queria era votar. Agora que podia, não queria?

6a00e554b11a2e88330105355864e6970b-250wiTirei o meu título e logo em minha primeira eleição votei para presidente. A primeira coisa que me impressionou foi ver o boca-de-urna descarado na porta da escola onde votava, lá no Rio de Janeiro. Na hora senti um gosto de remédio na boca. Algo me dizia que isso não terminaria bem. Foi em 1989 quando elegeram o Collor. Comecei mal, pensei.

Depois disso, passei do voto facultativo dos jovens entre 16 e 18 anos ao obrigatório – isso depois do patético dever cívico de jurar lealdade ao lindo pendão da esperança. Aí essa obrigatoriedade começou a me incomodar.

Por que diabos sou obrigado a escolher alguma coisa? Não posso escolher não escolher? Afinal, o maior castigo para os que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam. Isso já não é suficiente?

Discordava só por ser obrigatório – como é comum à juventude. Mas um dia ouvi um argumento que mudou completamente minha visão sobre o assunto: se do jeito que as eleições são hoje, com uma considerável parcela de votos negociados por espelhos e miçangas, cabendo o voto mais consciente justamente aos que votam porque forçados, imagine como seria se estes escolhessem ficar de fora, deixando o pleito nas mãos daqueles.

6a00e554b11a2e88330105355871b4970b-250wiSuponha que votar não fosse obrigatório. Você iria? Seus amigos iriam? Seus familiares? Colegas de trabalho? Sinceramente…? Eu talvez não fosse. E se você não vai, para quê vai ficar ouvindo Horário Eleitoral? Para quê vai prestar atenção nos candidatos? Para quê vai acompanhar o dia-a-dia do Congresso? Escândalos, roubos, corrupção… Isso cansa!

Agora pense nos currais eleitorais, nos ignorantes que nem sabem em quem estão votando, nos que votam em quem o pastor, o coronel ou qualquer outro cacique mandar. Lembre dos que votam no candidato bonito. Considere os que votam em quem lidera as pesquisas. E some os que têm Bolsa-Voto. Você acha que eles deixariam de ir?

Na minha humilde opinião, se o voto não fosse obrigatório, o molequinho teria sido eleito com uns 95% dos votos válidos e, sua florzinha, com algo parecido (quem não é do Rio de Janeiro basta ver a lista de governadores que o Estado teve nos últimos cem anos e aí fica fácil de entender).

A obrigatoriedade do voto nos força, também, a prestar um mínimo de atenção a essas coisas – nem que seja a cada quatro anos, apenas. Nos faz remar um pouco contra essa correnteza de dejetos eleitorais que o povo brasileiro é capaz de produzir uma eleição atrás da outra. Porque, afinal de contas, alguém faz essa enorme cagada, não é?

6a00e554b11a2e883301053558616d970b-400wiEsse texto acabou sendo publicado no próprio Acerto de Contas, onde recebeu uma enxurrada de comentários (nada como ter uma enxurrada de leitores, né?). Confira aqui!

5 pensamentos em “Obrigado por me obrigar”

  1. Discordar é saudável… hahaha
    Eu sou totalmente contra o voto obrigatório. Pode parecer brincadeira, mas estou escrevendo exatamente AGORA um post sobre obrigatoriedade e os riscos (sim! riscos!) que corremos qdo votamos.
    Gostei do seu post, NUNCA tinha pensado nesse pto mto interessante da obrigatoriedade ao menos nos forçar a pensar um pouco. Mas ainda acho que voto não obrigatório iria impedir coisas esdrúxulas como Netinha de Paula o 3o vereador mais votado de SP e provavelmente um dos 5 mais do país.
    Abrax

  2. Balu,
    obrigado pelo comentário!
    Vejo essas aberrações eleitorais por dois lados:
    Muito eleitor vota em netinhos, clodovis e enéias de pura pirraça. E aí sou forçado a concordar contigo pois, se o voto não fosse obrigatório, essas pessoas que se acham muito engraçadas (verdadeiros palhaços) mas que prestam um desserviço ao país não fariam isso. Porque uma coisa é debochar da eleição – e do país – já estando em frente à urna; outra é ter que sair de casa espontaneamente para essa pixotada. Duvido que muita gente se desse a esse trabalho.
    Por outro lado, uma série de bons candidatos são eleitos por gente que, apesar de séria e engajada, provavelmente não iria ao pleito se não fosse obrigada. Acho que o Rio de Janeiro é um grande exemplo disso. Se o voto não fosse obrigatório duvido que o Gabeira chegasse ao segundo turno. Infelizmente o povo que se diz liberal e democrático e que apóia candidatos que pregam a mudança é muito pouco engajado. Acho, inclusive, que o Crivella corria o risco de ser eleito no primeiro turno.
    Minha impressão ainda é que sem o voto obrigatório, as eleições ficariam completamente entregues aos grandes leiloeiros de votos.
    Abraço,
    Rodolfo.

  3. O pessoal mais conservador que apóia o voto facultativo geralmente apela ao pessoal da esquerda querendo seu apoio usando esse mesmo discurso que vc disse com o qual concordo plenamente: Tem mta gente consciente que vai obrigada ao voto e o faz da melhor maneira possível.
    Mas se fosse facultativo, a esquerda, sempre mais barulhenta, sairia ganhando. Mesmo ela saindo ganhando, acho ainda que é o mais justo.
    Abraço
    Balu

  4. O bolsa-família e o voto imortal

    Tempos atrás, numa viagem que fiz a Recife, conversava com meu cicerone sobre as peripécias do Luiz Inácio por aquelas bandas. Sua aprovação na região crescia conforme espalhava-se por lá o vírus do Bolsa-Família. O argumento do meu amigo, doutor……

  5. Prezado companheiro, tenho postado em meu Blog vários textos condenando o voto em lista. Sendo o derradeiro sob o título: Voto em Lista? Trair o Brasil? Enquanto Egito prova o amargo fruto da semente da traição.
    Ao qual gostaria de convidar o senhor e os seus leitores a darem uma lida. Pois sinto que há um equívoco quase que generalizado quanto a interpretação dos efeitos deste sistema eleitoral em nosso país.
    José Fonte de Santa Ana.
    josefontedesantaana.blogspot.com

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