Onde dói?

Volta e meia me aventuro aqui a falar de temas um tanto rebuscados demais, sem a necessária autoridade para tal. Todos nós fazemos isso, eventualmente, mas quando você escreve e torna seu texto público, o alcance disso foge um pouco ao seu controle. Você é um pouco mais responsável pelo que diz. Especialmente quando é algo polêmico ou que pode mexer com sentimentos alheios. É o caso do que vem a seguir e, portanto, considere-se avisado.

6a00e554b11a2e8833010535906f3e970b-320wiDesde que trabalhei na Indústria Farmacêutica, especificamente com a linha de Neurociências, tenho um especial interesse pelos estudos que envolvem processos cognitivos, pelos obscuros caminhos do pensamento, pela forma como nossa mente lida com os acontecimentos do dia-a-dia – mesmo não sendo médico nem psicólogo. Passeando pelo site da Scientific American – e mais precisamente pela Scientific American Mind Magazine – deparei-me com um interessante artigo entitulado Understanding Grief: When Time Doesn’t Heal All Wounds (Entendendo a tristeza: quando o tempo não cura todas as feridas).

Nesse instigante texto, Nicole Branan aborda a relação entre o tempo e a dor da perda de um ente querido. A discussão gira em torno da dificuldade que algumas pessoas experimentam em conseguir superar suas tragédias pessoais – principalmente quando o assunto é a morte. Breanan cita, em seu artigo, uma recente pesquisa que identificou uma parte do cérebro responsável pelo luto, pela saudade, pela falta incorrigível que sentimos de pessoas próximas que se foram.

6a00e554b11a2e8833010535907136970b-200wiEm Craving love? Enduring grief activates brain´s reward center a pesquisadora Mary-Frances O’Connor e sua equipe da UCLA estudaram 23 mulheres que perderam mãe ou irmã por câncer de mama nos últimos cinco anos, sendo que 11 delas haviam sido diagnosticadas com “Tristeza Grave” (minha péssima tradução para complicated grief). O procedimento consistiu em exibir-lhes imagens e palavras que lhes fizessem recordar a pessoa falecida, enquanto suas atividades cerebrais eram mapeadas através de ressonância magnética funcional (fMRI).

As emoções evocadas no estudo ativaram as áreas do cérebro responsáveis pela dor social da perda em todas as voluntárias. Mas naquelas sofrendo de Tristeza Grave (TG) foram observados, também, estímulos nas regiões dos sistemas de recompensas (nucleus accumbens) – aquelas que nos dão satisfação quando experimentamos sensações agradáveis. Ocorre que, desgraçadamente, essa parte do cérebro também nos faz sentir falta desse tipo de estímulo levando-nos, ocasionalmente, a uma angústia semelhante a do vício.

O’Connor especula, ainda, que nas pessoas com TG, essa ativação interfere na adaptação da pessoa à nova situação, pois ao mesmo tempo em que essas lembranças trazem sensações positivas com relação a um ente querido, o cérebro ainda precisa se adequar à idéia de que essas “pistas” já não refletem mais uma experiência agradável e estão desconectadas da realidade. Isso ocorreria pois as áreas responsáveis pelas recompensas continuam sendo ativadas, por neurotransmissores e peptídeos como dopamina e oxitocina.

6a00e554b11a2e883301053590703a970b-320wiDuas hipóteses são consideradas, atualmente, para avaliar a melancolia relacionada à perda: a do desligamento (detachment), onde acredita-se que a tristeza funcione como um agente de aceitação da realidade da morte e, por conseqüência, auxilie na recuperação da pessoa; e a da reunião (reunion), que entende que a tristeza assume a forma de protesto/negação com relação à separação e reforça os laços de reunião com a pessoa falecida, em vez de facilitar o seu desligamento. A autora mostra que ambas as abordagens podem estar corretas e ocorrerem em distintos grupos.

Antes de querer ser um instrumento de masoquismo fúnebre, o estudo sugere que um prolongado período de sofrimento pós-perda pode ter causas biológicas mais profundas e requerem, assim, um tratamento diferenciado. Intervenções dopaminérgicas (focadas nos sistemas de recompensas) podem ser, portanto, mais eficazes do que as serotonérgicas (cujo objetivo é amenizar a depressão).

Todos nós já perdemos alguém. Dependendo da proximidade, vivenciamos – e continuamos a vivenciar – os sentimentos aqui citados em algum grau. Temos, do mesmo modo, diferentes atitudes em relação a tais emoções. Conhecer que tipo de mecanismo serve de gatilho para o nosso pesar não alivia qualquer tipo de dor. Mas entender como transformamos – ainda que inconscientemente – momentos que deveriam ser guardadas como belas recordações e lembranças reconfortantes em angústia e sofrimento pode representar, talvez, um bom começo. E, quem sabe assim, conseguiremos passar de viciados em saudade para colecionadores de memórias.

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