Pague para entrar, reze para sair…

Todo mundo está incomodado com a recente crise financeira. Se você não está, deveria. Porque a coisa está realmente feia. Mesmo não tendo dinheiro na bolsa direta ou indiretamente (fundos de investimentos), em algum momento você vai sentí-la. Os reflexos começam a chegar, apesar das irresponsáveis mensagens de otimismo de nosso presidente. Sempre muito a par do que acontece ao seu redor, Lula diz que os tsunamis mundiais não farão nem marola por aqui. Taí alguém que sabe o que diz. Se o circuit breaker da Bovespa foi acionado meia dúzia de vezes nessa semana, deve ser por alguma outra razão.

Meu amigo Pierre, do Acerto de Contas, escreveu um texto bastante interessante sobre algumas das causas da atual crise. Pela clareza das idéias e a simplicidade nas explicações, sugiro uma leitura atenta:

6a00e554b11a2e883301156f5ad35f970b-320wi“Desde que teve início esta tão anunciada crise, os bancos centrais e o Governo americano estão batendo cabeça, tentando conter a sangria de recursos e o pânico dos investidores.
“Desde que teve início esta tão anunciada crise, os bancos centrais e o Governo americano estão batendo cabeça, tentando conter a sangria de recursos e o pânico dos investidores.

Ontem o Banco Central do Brasil começou a vender dólares à vista, na tentativa de segurar um pouco a volatilidade da moeda, e tem surtido efeito. Apesar da queda do dólar, não vai adiantar absolutamente nada.

Pior do que isso. O Bacen está queimando dólar no mercado à vista, e se transformou quase que em um forte especulador, que ganha na alta da moeda, vendendo.

Em situação pior estão os governos da Europa e dos EUA, e os seus bancos privados.

Não vai adiantar absolutamente nada ajudar os bancos falidos, porque o sistema está absolutamente arruinado, sem possibilidades de reversão do quadro.

Tudo isso por um simples motivo: o tamanho do mercado financeiro na estrutura econômica mundial.

O mercado financeiro é uma função-meio da economia. É sua tarefa prover recursos e financiamentos ao setor produtivo. Não é possível uma atividade-meio ser maior que a atividade-fim. Não há sistema que comporte. Pegarei alguns exemplos para reforçar minha tese.

O primeiro seria Londres. A capital da Inglaterra tem aproximadamente 8 milhões de habitantes.

Pois bem, Londres possui hoje 1 milhão de executivos de negócios financeiros. Quase todos ganhando salários muito maiores do que o restante da economia.

Como é possível comportar tanta gente, apenas para a tarefa de prover intermediação financeira. É como se para cada 8 habitantes tivesse alguém gerenciando finanças. E provavelmente obtendo mais da metade da renda do restante.

Como o sistema não era capaz de se remunerar com o tamanho anterior, foi necessário buscar outras formas de gerar receita, e o financiamento imobiliário está sendo tratado como causa, mas na verdade é apenas o efeito da necessidade de sustentar o funcionamento dos bancos.

São pessoas que durante o dia todo ficam, em sua maioria, operando contratos de swaps e outros derivativos.

Outro exemplo. O sistema bancário brasileiro intermedia operações financeiras entre si. A maioria delas através de operações conhecidas como FDIC´s. É importante para o sistema funcionar.

O custo destas operações hoje nos bancos é altíssimo, já que é necessário pagar salários e bônus aos analistas e gerentes responsáveis. Só o Citibank teria gasto R$ 20 milhões nestas operações no ano passado.

Multiplique isso para o restante dos bancos. Como pode uma economia funcionar deste jeito? São gastos gerados no meio da cadeia econômica, que apesar da importância, pouco acrescentam em termos de produtividade à economia real.

O Governo americano dar dinheiro aos bancos não vai resolver absolutamente nada. É preciso um choque de capitalismo no mercado financeiro, deixando alguns bancos quebrarem. Cheguei à conclusão de que é a melhor saída.

É como a situação de um cidadão que ganha R$ 5 mil de salário mensal, e gasta R$ 8 mil. No fim do ano estará com uma grande dívida.

Os seus familiares e amigos podem até ajudá-lo a pagar a dívida, mas se ele não mudar sua estrutura de custos, no próximo ano será a mesma coisa.

É necessário um forte ajuste. E a hora é agora. Os Governos deveriam se preocupar apenas em conter o pânico, garantindo os depósitos, como a Irlanda tem feito. Será necessário que bancos quebrem e que outros sejam comprados.

O que não dá é ajudar bancos que possuem executivos que ganharam US$ 300 milhões em bônus nos últimos 8 anos.

O lucro é privado, mas o prejuízo é público.”

Achei a expressão “choque de capitalismo no mercado financeiro” muito esclarecedora, apesar da sua aparente contradição interna.

2 pensamentos em “Pague para entrar, reze para sair…”

  1. Bom? Sim! Mto bom! Mas acho meio (com todo respeito) birra de criança essa de não querer “ajudar bancos”. É não ajudar e ir quebrando um a um… o tal do efeito dominó. Daí a gente não ajuda esse pessoal que ganhou “US$ 300 milhões em bônus nos últimos 8 anos”. Vamos dar risada deles? Não pois nossa mísera economia pessoal quebra junto. Vc quer pagar o custo social pra ver se é assim? O pessoal que levanta essa alternativa está moralmente obrigado a dar uma solução alternativa testada e historicamente comprovada que funcione.
    Vc deve achar que gosto de bancar banco, né? Eu não! Não sou doido nem rasgo dinheiro! Mas é pa isso que eu poago imposto, pra que o governo entre e socorra a sociedade em tempos de tormenta!
    Os bancos têm que ser fiscalizados e punidos qdo cometem suas barbeiragens! Deixar quebrar é IRRESPONSABILIDADE!
    O tal “O lucro é privado, mas o prejuízo é público” é jogar confete pra torcida. Não vale!
    Abraço
    ps: em tempo, vale lembrar que a coisa qdo é um pouco mais séria acaba punindo os responsáveis. Banqueiro fez mutreta? Que pague por isso! O que não vale é a sociedade ter que pagar com quebra quebra de banco por causa de ideologia barata ou suposta vingança dos fracos. Isso sim vai sair pela culatra!

  2. Balu,
    concordo com você que deixar tudo quebrar é irresponsabilidade. Soa como o Coringa que gosta é de “ver o circo pegar fogo”.
    Mas creio que a visão do Pierre é que o mercado está muito inflado e aí as pessoas fazem qualquer coisa para mantê-lo assim.
    Comparo essa superpopulação de profissionais (e instituições) do mercado financeiro à dos advogados. Por exemplo: as universidades cospem milhares de advogados todos os anos. Não há trabalho para todos. Qual o resultado? Causas estapafúrdias, processos absurdos, judiciário emperrado. Os EUA têm um advogado para cada quatrocentos habitantes. Eles acabam “inventando” o que fazer. (“Se não houvesse advogados, nós não precisaríamos deles.”)
    Veja o caso da agiotagem legalizada, digo, crédito ao consumidor. Nos últimos anos essas empresas proliferaram no Brasil. Fazem anúncios mostrando filhinhos tristes porque suas festinhas de aniversário são sem-graça. Mas apontam a salvação: pegar um empréstimo a 8% ao mês para entulhar a casa de Pokemóns. A “estrela” da campanha? Fernanda Torres…
    A bola de neve subiu a montanha. E agora está descendo de volta…

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