Taleb novamente

O post que escrevi recentemente sobre Nicholas Nassim Taleb ainda nem esfriou e ele já aparece aqui novamente. Na ocasião era uma entrevista na BBC onde ele opinava sobre a atual crise financeira. Para quem pegou o bonde andando ou não teve paciência de abrir o link acima, ele popularizou o termo black swan, muito na moda em tempos de crises imprevisíveis que nos assolam.

6a00e554b11a2e8833010535c292f4970b-300wi Agora é David Brooks (um importante articulista do New York Times) quem recorre a Taleb para ilustrar o quão firme a economia estava apoiada num instável castelo de cartas. Em seus escritos mais recentes Taleb alertava que algumas instituições financeiras estavam sobre barris de pólvora, sensíveis ao menor soluço e que a globalização era responsável, por sua vez, pela criação de uma fragilidade coletiva e interdependente. Apontava, ainda, que apesar de os grandes congolomerados financeiros sugerirem um mercado sólido, a realidade era outra: o risco de um colapso sistêmico – no qual quando um quebra, todos quebram.

O argumento central de Brooks baseia-se na forma como nosso cérebro opera a tomada de decisões. Diversos psicólogos já pesquisaram os viéses responsáveis por nossos erros cognitivos, como os clássicos estudos de Tversky e Kahneman e, mais recentemente, Dan Ariely.

Dos quatro passos básicos de uma tomada de decisão (verificação da situação; identificação das opções; avaliação das alternativas; e ação), boa parte da atenção concentra-se na terceira fase, onde consideramos riscos e benefícios de cada possível ramificação de nossa árvore de decisão. Pense em como estão estruturados os cursos sobre processo decisório e quantas ferramentas estão disponíveis para essa tarefa (argh!!).

Para Brooks, no entanto, nossa maior deficiência está em identificar corretamente a situação, em fazer as perguntas pertinentes e olhar pelos ângulos apropriados. Parafraseando Taleb ele mostra como nosso cérebro rejeita informações que contradizem nossas expectativas e, ao mesmo tempo, distorce-as para que se adaptem a nossas idéias pré-formadas.

Outros viéses de nosso raciocínio incluem supervalorizar os eventos mais recentes na previsão dos futuros (“A bolsa está bombando, vamos botar todo o dinheiro nela!”); a tentação de resumir vários eventos isolados numa única relação de causa e efeito; e, finalmente, esquecer que algumas coisas acontecem realmente por pura sorte e não porque somos o Warren Buffett.

Essas deficiências na percepção daqueles que controlam os mercados impediu-os de ver que esse tipo de risco não pode ser calculado, muito menos controlado. Quando Taleb diz, na entrevista, que nem 50 nem 500 PhDs seriam capazes de construir modelos de previsão de risco – já que o que as reais ameaças estão a vários desvios-padrão de distância – seu objetivo é trazer-nos de volta à dura realidade de que vivemos num mundo que não conhecemos completamente. E que essa cara lição não seja rapidamente apagada por uma nova onda de euforia irracional.

4 pensamentos em “Taleb novamente”

  1. Este seu artigo – Taleb novamente – é extremamente oportuno. Quem sabe o Barak Obama não seja o início de uma era de “change”, realmente, como diz ele em sua campanha!! Quem sabe se os EUA não serão os primeiros a ajudar a reconstruir um castelo mais duradouro, sob a liderança de um Barak Obama??!! Será que eles terão essa coragem??
    Um abraço
    Yara Peres
    http://www.blogdayara.com.br

  2. Salve Rodolfo!
    Belíssimo texto! Toda vez que alguém fala em crise me lembro daquele dito cujo autor desconheço: “Na crise enquanto muitos choram, alguns vendem lenços.”
    Penso que os vendedores de lenços talvez sejam os únicos que compreendem que não há como prever tudo e que mesmo sem conhecer todas as variáveis ser pelo menos uma parte da solução.
    Acho que o maior problema desta crise foi a “crise de otimismo” que a precedeu. Quando tudo está muito certo, muito lindo, muito perfeito, é bom desconfiar, porque algo definitivamente está errado.
    Já que você falou no Buffett, seria ele um vendedor de lenços?
    Abraços,
    rafael

  3. Rudolfo,
    Excelente análise! Descobri este seu post através do comentário que deixou no meu.
    O mundo em que vivemos não se conforma ao modelos simplistas com que o tentamos compreender. Talvez seja a hora de assumir o pouco que podemos saber ou controlar.
    Um abraço de Portugal,
    Rui Grilo

  4. Jonathan Alter: “Logic can convince but only emotion can motivate.”
    É engraçado ver os americanos sentindo o seu presidente distante, não é?
    Parece sentimento latino,,,

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