Brasileiro pode

Com uma frase emblemática do criminoso, chegou ao fim o julgamento do assassino do turista francês morto após a Parada Gay do ano passado: “Tive o azar dele (sic) ser francês, repercutiu na mídia”, disse Genésio Mariuzzi Filho, de 25 anos, condenado a 27 anos e seis meses de prisão.

6a00e554b11a2e8833010535f20025970b-250wi Como havia comentado no post Perdeu, playboy! não importa o tipo nem a gravidade do crime, mas quem o sofre. Homicídios, agressões ou assaltos a estrangeiros ou famosos são apurados, resolvidos e punidos com especial interesse e rigor.

Tanto a mídia quanto a justiça devotam-lhes interesse diferenciado, reservam-lhes atenção redobrada, oferecem-lhes recursos dedicados. Mas se a ofensa é contra o simples mortal, como eu ou você, servirá apenas para engrossar as estatísticas.

Não bastasse sermos as vítimas diárias da violência urbana, sofremos também a discriminação no tratamento aos nossos apelos. O seu assalto não sai na imprensa, assim como não divulgam o assassinato do seu vizinho. Mas o caso do turista repercute nos jornais e a investigação lembra um episódio do CSI. Assim como toda a polícia se mobiliza para achar os assaltantes dos chineses.
Uma amiga minha ficou doze horas com bandidos num sequestro-relâmpago (relâmpago para quem?) e a polícia dizia que não poderia procurá-la antes de 24 horas. Ora, nesse tempo Jack Bauersalva o mundo cinco vezes!
Em meados da década de 1990, o índice de resolução de homicídios no Rio de Janeiro era de 8%. Dez anos depois esse número caiu para 2%* (em Nova Iorque é 80%). Isso é mais do que um incentivo para cometer um crime. Cá entre nós, qualquer bandido – seja assaltante, estelionatário ou assassino – precisa ser muito burro para ser preso por uma polícia dessas!
E agora eles mesmos já sabem que é melhor não mexer com gringo, porque pode sair no jornal e dar problema. Mas se for brasileiro, tudo bem, pode matar…

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* Ainda assim, essa taxa não garante que o assassino irá para a prisão. Mesmo quando o crime é solucionado, existe a chance de o criminoso ser alguém poderoso (ou amigo de alguém poderoso) e ficar impune ou tirar registro de advogado.

1 pensamento em “Brasileiro pode”

  1. Um detalhe que acho mais relevante ainda que ser um tipo de “ungido”, é o fato das pessoas poderem se identificar, ou se revoltar.
    Quantos garotos morrem assassinados, nas favelas, ou morrem de fome na aridez do sertão nordestino? Mas se o garoto estuda, é no mínimo classe média (tem telefone em casa, TV, celular), e é branquinho, ele VAI ser exibido em todas as mídias, como foram o João Helio, o Isabella Nardoni e o Massataka Ota.
    Não sei se a notícia é enviezada com esse contexto. Ah sim, e para crimes mais “comuns”, só se tornam notícia se acometem um estrato ainda mais alto da nossa seleta sociedade. Como foram os assaltos do Milton Neves, do Luciano Huck, etc…

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