De que cor é o cisne, afinal?

Até pouco tempo, poucos haviam ouvido falar de Nicholas Nassim Taleb, o libanês autor de Fooled by Randomness: The Hidden Role of Chance in Life and in the Markets e The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable. Suas teorias a respeito da perigosa forma como questões relativas a riscos são geridas vinham sendo classificadas como quixotescas, excêntricas, exageradas até. Seus alertas a respeito de um iminente colapso na economia jamais foram levados a sério. Até agora.

6a00e554b11a2e8833010535fb9fd1970b-300wiO fato é que, segundo Taleb, o mercado financeiro ergueu colossais impérios especulativos firmemente apoiados em frágeis castelos de cartas. Em recente entrevista à BBC, ele acusa os banqueiros de vender (caro) a falácia dos investimentos isentos de riscos, embasados em intrincados modelos matemáticos elaborados por meia centena de PhDs.

Seu principal argumento reside no fato de que nem todos os PhDs do mundo seriam capazes de eliminar os riscos envolvidos em nossas vidas, seja em nossas operações financeiras, viagens de avião ou na escolha da escola dos nossos filhos. O que eles fazem – e muito bem – é calcular o tamanho desse risco em relação ao retorno esperado.

O simples fato de haver uma pequeníssima chance de algo acontecer (seja positivo ou negativo), deve sempre ser levado em consideração, mesmo quando muito remota. Isso é o cisne negro, ou seja, um evento (1) muito raro e difícil de ser previsto, mas nem por isso impossível; (2) fácil de ser explicado retrospectivamente; e (3) com alto impacto na vida das pessoas.

Ocorre que exatamente os exemplos mais ilustrativos para os cisnes de Taleb, como os atentados de 11 de setembro e os escândalos contábeis de Enron e WorldCom, servem de pano de fundo para uma teoria diametralmente oposta. Max Bazerman e Michael Watkins acreditam que ambos os eventos encaixam-se no que eles batizaram de Surpresas Previsíveis (Predictable Surprises: The Disasters You Should Have Seen Coming, and How to Prevent Them (Center for Public Leadership)).

Esses autores defendem que todas as condições (e informações) necessárias para esses desastres estavam presentes: a segurança dos aeroportos era semelhante a um queijo suíço, pilotos ligados a grupos terroristas faziam treinamento em solo americano e um lunático já havia tentado jogar um avião na Torre Eiffel anos antes; as normas contábeis comumente aceitas à época dos escândalos eram suficientemente liberais para permitir enormes diferenças de resultados, conforme interpretações particulares.

A sensação de previsibilidade de cada incidente desses aumenta, ainda, quando verificamos quanto dinheiro foi gasto em lobbying para impedir a aprovação das respectivas medidas preventivas, até que os desastres ocorridos não permitissem mais que fossem barradas. Medidas essas que representam custos imediatos, mas resultam em duvidosos benefícios futuros.

Numa dinâmica semelhante, uma instituição financeira americana multiplicou por vinte seu valor de mercado ao lançar hipotecas para motor homes (os famosos trailers) com prazos de pagamento de até trinta anos, na década de 1990. Até que alguém percebeu que não fazia sentido pagar durante trinta anos por um bem que tem vida útil de quinze. Com o calote geral que se seguiu a empresa quebrou. Junto com seu valor de mercado parece ter evaporado, também, a noção de vulnerabilidade de um mercado de longo prazo, que se apóia em ativos cujo valor pode oscilar bruscamente no médio/curto prazo.

O que ambas as teorias – a previsibilidade de Bazerman e a fatalidade de Taleb – parecem ter em comum é a sensação de invulnerabilidade que parece apoderar-se de nós, mesmo em situações de risco. Independentemente da cor do cisne – que ninguém pode afirmar com certeza que são brancos –, quaisquer que sejam os avisos, não importam os prenúncios, nós nos achamos imunes, ficamos cegos ante as ameaças. Isso, além de nos expor ainda mais a riscos desnecessários, entorpece nossos sentidos e atrofia nossa capacidade de resposta.

O conselho final de Taleb – que considero útil em ambos os pontos-de-vista – é que não tomemos riscos demasiados baseados naquilo que não conhecemos. E esse mundo, definitivamente é algo que nós não conhecemos.

Aliás, por que sempre acreditamos que o quase-impossível positivo pode acontecer, mas o negativo nunca pode? O termo teve origem quando da decoberta da Austrália, onde encontraram os primeiros cisnes negros, derrubando a crença de que essa era uma ave branca, porque todas as vistas até então eram dessa cor.

3 pensamentos em “De que cor é o cisne, afinal?”

  1. Olá Rodolfo.
    Creio realmente que temos interesses comuns nos temas que blogamos e gostei muito de seu artigo no blog da Yara.
    Porém, uma coisa me deixou intrigado. Você acredita que é possível prever os possíveis resultados de problemas antes deles acontecerem? A meu ver, esta teoria de Predictable Surprises mais me parece alguém alegando que colocar um ovo em pé é fácil, porém só depois que Colombo o fez.
    Entendo que muitos possíveis estados futuros podem ocorrer, e prevê-los é humanamente impossível. Achar que uma regulação mais eficaz, uma fiscalização de aeroportos ou qualquer outra coisa seria suficiente para parar um terrorista assassino ou um terrorista financeiro é o mesmo que acreditar que uma folha de papel pode parar uma bala à queima roupa.
    Creio que o mundo é muito mais complexo e os resultados das ações não são determináveis a priori em nenhuma situação. Não temos as informações nem a racionalidade suficientes para tanto. Podemos ter lampejos de sorte ou estimativas plausíveis, mas nenhuma garantia.
    O que você acha?
    Abraços,
    Flavio Correa

  2. Olá, Flávio, obrigado por seu comentário!
    A teoria das Predictable Surprises parece, de fato, a simples explicação retrospectiva de algo imprevisível – como o Ovo de Colombo.
    Não há como prever se os aviões serão jogados contra o Wolrd Trade Center, o Empire State Building ou as Sears Towers. Mas a forma displicente como as medidas preventivas eram encaradas – bem como os interesses por trás da manutenção desse status quo – leva-nos a concluir que, no mínimo, isso poderia ser dificultado.
    Quando você negligencia a manutenção do seu carro, uma falha mecânica ou elétrica deixa de ser tão imprevisível. A dúvida com a qual conviverá será se isso um dia lhe deixará empacado na sua garagem, com um motor que não liga, ou se resultará num perigoso capotamento.
    A imprevisibilidade das conseqüências de nossos atos e/ou omissões é que deve ser levada em conta de forma mais responsável, como diz Taleb.
    Como você bem lembrou, não há garantias. Por isso não podemos viver como se elas existissem – e é como o mercado financeiro estava agindo. Até porque os lampejos de sorte assim são definidos em função das estimativas plausíveis.
    Acho que a lição que fica é que não há resposta para o problema da (im)previsibilidade. E isso é algo com que temos que conviver.
    Grande abraço,
    Rodolfo.

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