Meio-salário

Imagine que você tem uma padaria. Um belo dia, um deputado que tem muitos amigos chamados João – cujos votos o elegeram – resolve baixar uma lei dizendo que todas as pessoas que se chamam João podem comprar pão pela metade do preço. Ninguém perguntou o que você achava e nem como faria para continuar pagando o mesmo valor pela farinha, pelo fermento nem pelo sal.

6a00e554b11a2e8833010535e3a598970b-250wi – Mas por que o João pode comprar pão com desconto? perguntará você.

– Ora, porque todo João precisa comer! responde o deputado.

– Mas todo mundo precisa, inclusive eu que me chamo Rodolfo.

– Ah, mas o João não tem dinheiro para comer.

– Espera aí! Alguns não tem, mas muitos têm, não é justo.

Só que não demora muito e os joões resolvem que não vão passar o resto da vida comendo pão. E o deputado acha muito justo, até porque está chegando mais uma eleição. Então decide, novamente arbitrária e unilateralmente, que os biscoitos também deverão ser vendidos pela metade do preço para todo mundo que se chame João. E a manteiga também. E o requeijão. Normal e light. E também o queijo, a mortadela, o presunto cozido, o de parma… Ah, então libera também o café com leite, o refrigerante, a cerveja. Afinal, é tudo alimento.

Peraí! O problema não é fome? Fome se mata com requeijão light e presunto de parma? Fome se mata com cerveja?

Nessa hora outra coisa começa a te incomodar: a quantidade de João que tem no seu bairro… De uma hora para outra, todo mundo parece se chamar João. Até aquela moça que trabalha na lavanderia (“Ué, meu nome é Maria João”). E a pessoa te mostra uma carteira de identidade toda amassada.

6a00e554b11a2e8833010535e3a793970b-300wi Na semana seguinte o tal deputado diz que você tem que aceitar a carteira do colégio, a do clube e qualquer outra identificação que comprove que a pessoa se chama João. A única que você recusa terminantemente é um atestado de óbito.

Outra coisa que te deixa meio chocado é que essa política seja defendida com unhas e dentes em algo tão supérfluo quanto comida. Por que não concentram toda essa energia em coisas mais essenciais à sobrevivência das pessoas, como Cultura? Essa sim deveria ser beneficiada, nos seus componentes mais essenciais: filmes clássicos como Jogos Mortais 5; espetáculos musicais de especial interesse cultural, como o show do Belo; e outras manifestações capazes de engrandecer nossa formação, como um jogo de futebol entre Friburguense e Bangu, lá em Moça Bonita.

Quando metade do seu bairro já se chama João e você está a ponto de quebrar, resolve que o único jeito de se manter vivo é dobrando o preço do pão. Assim, o João vai pagar o preço justo pelo pão. Certo, mas aí quem não se chama João vai pagar o dobro, né? Sim, vai. A menos que dê um jeito de se chamar João. E roube, assim, de que não se chama…

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PLUS: Olha que interessante: tá rolando no Senado um projeto para limitar a concessão de meia-entrada apenas aos dias da semana. Aí vem um advogado escrevendo no seu blog que isso é um absurdo, porque ele já foi estudante, no escritório dele tem muitos estudantes etc. Então tá, por que você não libera seus funcionários para irem ao cinema na segunda-feira, se isso é tão importante? Ou o que acharia de uma lei que te obrigasse a liberar seus funcionários na segunda-feira para ir ao cinema?

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PLUS A MAIS: Este texto foi publicado também no Acerto de Contas e rendeu uma série de comentários interessantes – e outros nem tanto. Acompanhe aqui.

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PLUS A MAIS EXTRA: O Balu retomou o tema, dentro do contexto onde ele trabalha, já que discute-se a lei que dá desconto aos corredores acima de 60 anos. Acompanhe!

2 pensamentos em “Meio-salário”

  1. Caramba.
    Este deu pano pra manga.
    É, infelizmente a velha mania de levar vantagem em tudo acaba prejudicando a muita gente. Sou estudante, tenho carteirinha, mas acho quase não a uso. Raramente vou ao cinema. Tô preferindo dvd. Gostaria de ir mais ao teatro. SESC tem peças ótimas, e shows também, a um preço bem justo. Já com as carteirinhas, os preços vão pra casa do chapéu. Ano passado paguei R$250,00 pra ver um show. Meia-entrada. Parece piada, né?! Mas é o que se paga pela várzea que está hoje em dia. A qualquer momento vc pode ir na Pizza Hut e fazer a sua também e, como disse o Rodolfo, enfiar a mão em 10 contos da bilheteria.
    Creio que poderia se ter uma redução dos preços de tais eventos, seja cinema – que já foi barato um dia – ou qualquer outro tipo, e claro, assim banindo-se as carteirinhas.
    Ainda vamos falar muito sobre isso! Como sempre, um belo texto.
    Abs

  2. Bom só sei que o problema é muito mais em baixo. Pense bem que tem o direito de avaliar se o que uma pessoa tem é muito ou suficiente. Acho que quando toda discussão chega a esse ponto as coisas não se endireitam.
    O correto seria o utópico, um sistema que avalia-se um por um, sem corrupção. É as opções estão ficando esgotadas.
    Tenho que confessar que diversas vezes não pode ir ou evitei ir por causa da falta da carteirinha, que tenho direito. Depois que a adquirir, minhas visitas aos ”eventos” aumentaram.
    Fico aqui pensando em um partido ou uma solução para tomar.

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