O engano é seu

Um breve comentário do Aydano Motta em seu blog n’O Globo me incentivou a sair um pouco dos temas pseudo-acadêmicos que tanto têm me ocupado recentemente. Ele questiona o porquê de as pessoas ficarem tão irritadas com ligações erradas recebidas pelo celular. Seriam, segundo suas palavras, idiossincrasias da contemporaneidade. (Bonito, né?)

6a00e554b11a2e8833010535ef70f5970b-250wiSou bastante suspeito para falar disso, porque eu não faço distinção entre telefones celular e fixo: odeio os dois. Mas aí estamos falando dos meus próprios. Com relação aos alheios, obviamente os móveis são vice-líderes no meu ranking pessoal de fúria. Em primeiro lugar estão seus donos.

A relação que a pessoa mantém com seu aparelho diz muito a respeito dela mesma. Para entender, proponho um retorno às remotas origens da comunicação telefônica.

Houve um tempo, não tão distante assim, em que linha telefônica era um ativo importante na composição patrimonial de uma família ou empresa e era contabilizada, inclusive, na declaração do Imposto de Renda (algo em torno de uns US$ 5.000,00 hoje). Antes da privatização do sistema Telebrás (se alguém aqui mencionar qualquer coisa sobre corrupção nesse processo terá seu IP banido do blog para sempre) era preciso inscrever-se no Plano de Expansão da companhia telefônica local (TELERJ ou CETEL, no caso do Rio de Janeiro) e esperar um par de anos.

Ter telefone em casa simbolizava, portanto, status, poder. Só que você falava ao telefone em casa, ninguém via. Nenhum símbolo de status tem valor se a única pessoa que sabe dele é você (pois é, o seu pijama da Diesel é um mico).

No final da década de 1990, com a privatização, a linha deixou de ter valor de propriedade e qualquer um poderia ter seu próprio número. Bastava escolher a operadora e seu aparelho estava instalado e falando em 24 horas. A exclusividade que isso representava foi para o beleléu e, com ela, seu status.

6a00e554b11a2e8833010535f5d4b3970c-800wi Quando o telefone desprendeu-se da parede e foi para a rua, o movimento foi um pouco semelhante ao anterior: poucas linhas para atender uma enorme demanda reprimida. Os preços eram altíssimos e intermináveis filas se formavam para adquiri-los. Os celulares ressuscitaram, assim, o símbolo de status da falação à distância.

Essa é a minha primeira hipótese para a pessoa (ainda) achar que o celular é um símbolo de status. A outra é um pouco mais sutil: a pessoa que atende celular em público se acha alguém importante. Quanto mais vezes seu celular tocar, mais ela se acha requisitada, imprescindível, poderosa.

É comum a pessoa atender o celular e fazer aquela expressão de fingida impaciência. Algo semelhante a “Puxa, não me deixam em paz”, comparável a “Nossa, eles precisam tanto de mim”, equivalente a “Eu sou realmente necessária!”. O toque do celular parece amenizar a solidão característica de nossos tempos. Alguém precisa falar contigo!

E assim, quanto mais tocar o seu telefone, mas importante você é! Mais pessoas gostam de você! Mas as pessoas desconhecem os limites disso e trocam os pés pelas orelhas. Dos paleolíticos Motorola PT-550 (como na foto acima) à última geração de iPhones, o usuário evoluiu muito menos do que a tecnologia embarcada em seu aparelho.

6a00e554b11a2e8833010535efca10970b-250wi Por esse desejo de parecer requisitada e importante, a pessoa abre mão da sua privacidade. Pela fome de admiração, perde-se o descanso, o lazer, o prazer. O usuário ainda não aprendeu a dizer-lhe não, a desligar-lhe, alforriar-se. Porque se você não pode desligar o seu telefone, precisa ficar à disposição ou ao alcance de alguém (chefe, pais, filhos, esposa), você não é importante*. Você é escravo. E ser escravo não é símbolo de status. É o rabo balançando o cachorro…

Bom, se a essa altura você acha que eu fugi do tema do Aydano – que é em relação às ligações erradas que a gente recebe – eu explico: não há nenhuma chance de o telefone tocar se estiver desligado. Quando você opta por deixá-lo ligado o tempo todo, inclusive enquanto dorme, assume esse risco. E se ele não toca, não tem como ninguém te ligar por engano.

Talvez o engano irrite mais quando no celular do que no fixo, porque normalmente quando o celular toca você está no meio de uma porção de gente (você, irritadinho da ligação errada, também fica bravo quando está sozinho e te ligam por engano?). E essa nova desetiqueta do celular diz que você deve se irritar quando alguém te ligar errado. Mas é também a sua decepção porque não é alguém precisando de você…

Além disso, o celular toca muito mais do que o fixo, logo, estatisticamente é mais provável receber uma ligação errada no móvel. Se a hora é imprópria ou não, quem está ligando não sabe e, por isso, não pode ser culpada. Mesmo quando é engano. Culpado é quem deixa o telefone ligado na hora imprópria.

6a00e554b11a2e8833010535f627b9970c-250wi Mas isso é tudo? Claro que não! Nada se compara à forma como as pessoas falam ao telefone em público. Falam alto, em qualquer lugar, independentemente da situação. Pode ser no restaurante, no cinema, no banco ou no cemitério. Não importa o assunto ou quem esteja ouvindo.

O celular parece ampliar os limites individuais de quem está falando para tão longe quanto sua voz alcançar. O mundo transforma-se na sua grande cabine telefônica particular.

Até agora as cabines telefônicas serviam para zelar pela privacidade de quem estava falando. Precisamos delas, agora, para garantir a tranqüilidade de quem não está.

Putz, faltou falar do terrível Nextel e seu insuportável grilo! Será que isso rende outro post? Você tem histórias terriveis de abusos sofridos pelo uso alheio de celulares que gostaria de compartilhar? Quer destilar sua fúria contra celulólatras? Quer denunciar alguém? Acha que o Fluminense vai cair de novo? Cartas para a redação…

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* Estão isentos dessa classificação os verdadeiros casos de vida ou morte.

5 pensamentos em “O engano é seu”

  1. Olá Rodolfo, gostei do seu approach ácido-realista-psicanalítico. Nem tão bruto é, pra te falar a verdade. A etiqueta e o limite são necessários em tempos de mobilidade.
    Segue uma manifestação clara de como o espaço público deve ser usado quando o assunto é educação… Na Dinamarca tiveram que colocar barreiras à tão aclamada mobilidade 😉
    Veja aqui no Future Perfect. (http://www.janchipchase.com/blog/archives/2007/08/post_78.html)
    Abs e obrigada pelo comentário no Bricolagem High Tech.

  2. Caro Rodolfo, fiquei muito feliz por ter encontrado esse post e poder assim repartilhar como você mesmo disse:
    “Você tem histórias terriveis de abusos sofridos pelo uso alheio de celulares que gostaria de compartilhar? Quer destilar sua fúria contra celulólatras? Quer denunciar alguém? Acha que o Fluminense vai cair de novo? Cartas para a redação…”
    Vou deixar o Fluminense de lado, visto que hoje já sabemos quem caiu!
    Quero destilar minha fúria, meu ódio pelos celulólatras (vamos a minha sessão de análise):
    Eu como bom proletário costumava (uns 4 anos atrás) pegar o ônibus das 05:00 (da manhã) e um fato muito curioso ocorria. Era como um contrato velado, um código de conduta na qual quem não estava dormindo (que era a maioria) não fazia barulho para não interromper os demais “companheiros de coletivo”. Nesse tempo, que hoje recordo quase em tom noir ainda existiam os vibracalls e as pessoas falavam em tom baixo o suficiente para serem ouvidas sem incomodar.
    Eis que um corpo estranho passou a infectar o organismo que outrora funcionara tão bem. Um indivíduo (vou tentar conter as palavras) apareceu com um Nextel, até aí tudo bem porque sei que Nextel funciona como celular, mas não, o fulano tinha que falar no viva voz e ainda por cima gritando! Diversas eram as olhadas que o infeliz recebia mas acho que isso só o incentivava.
    Eu não imaginava que aquilo mais tarde evoluiria, tal qual um câncer.
    Hoje, continuo utilizando ônibus mas quase não mais se vê o problema do Nextel, temos hoje algo ainda pior, celulares com alto falante para tocar MP3.
    Você é obrigado a escutar a música que algum maldito quer, na hora que ele quer e geralmente fica tão alto que eu, adepto dos MP3 players, não consigo escutar minhas próprias músicas no fone de ouvido.
    Esses malditos, com sua visão deturpada da realidade, e porque não uma vontade bizarra de auto-promoção, de exibir esse “status” não tem limites. Não quero nem imaginar onde isso vai parar!
    Desabafo comprido mas que nem de longe consegue exprimir todo o meu ódio para com essas pessoas. E para que não exista engano, citei as pessoas no ônibus somente como um exemplo mais claro do que ocorre comigo, sei que existem pessoas mal educadas e com educação em todos os níveis da sociedade.
    Falta educação! Meu pai desde pequeno me ensinou que meu direito ia até onde começava o do outro, infelizmente “nem todo mundo tem um pai”!

  3. É, meu caro, não há limites para a falta de limites. Tem um post por aí com definições de termos pós-internéticos. Podemos pegar a do Nextel emprestado do iPod (que também vale para mp3 players em geral), que diz que a pessoa usando o iPod se sente tão especial e original quanto as outras 92 milhões de pessoas que têm o mesmo brinquedo.
    Q-A-P, Papa Mike?
    Abraço,
    Rodolfo.

  4. Apertem os cintos

    Confesso que ainda não tinha pensado no que fazer com o blog durante minhas férias – aliás, apenas uma pequena pausa para as festas de fim de ano – mas eis que logo na primeira perna da minha viagem já…

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