O estranho caso da aranha

Encontrei uma divertida história sobre o quanto podemos aprender com fatos corriqueiros e aparentemente banais.

6a00e554b11a2e8833010535e22cd4970b-250wi Um leitor do Freakonomics conta que, certo dia, ao realizar sua rotina matinal de tomar banho, se enxugar, pentear os cabelos etc., encontrou uma aranha na toalha. Mesmo tendo tomado mais de dez mil banhos na vida (o que, em se tratando de um americano, eu duvido que seja verdade) e tendo aquela sido a primeira e única vez em que se deparou com um aracnídeo, a partir desse episódio ele passou a checar a toalha diariamente.

Como é possível que uma única observação em dez mil (finge que eu acreditei, para facilitar a conta) possa ser significativa? Como então você muda sua rotina porque algo altamente improvável lhe aconteceu e você acha que pode se repetir? E se aquele fosse o primeiro banho da vida dele e ele encontrasse a aranha, faria mais sentido? Como uma única observação pode ter tamanha relevância?

Stephen Dubner dá outra contribuição muito interessante lembrando o caso dos pais que, na década de 1980, resolveram gravar as solitárias conversas de sua filha de dois anos em seu berço, assim que eles a deixavam sozinha no quarto para dormir. Ao ouvir a fita, os pais ficaram estarrecidos não só com o vocabulário da menina, mas com o nível de complexidade das frases que construía enquanto falava com seus amiguinhos imaginários.

6a00e554b11a2e8833010535f09140970c-250wi O fato intrigou também um psicólogo amigo da família e o caso tomou uma proporção tão grande, a ponto de sugerir a reformulação de algumas teorias sobre a educação infantil – especialmente no que dizia respeito a uma possível infantilização das crianças pelos adultos. Esse evento deu origem ao estudo Narratives from the crib, citado por Malcolm Gladwell em The tipping point*.

Uma observação entre milhões. Desgraçadamente essa “observação”, ou Baby Emily como era chamada, começou a fazer contas de análise de regressão com dez anos de idade e hoje atende pelo nome de Emily Oster, professora de economia da Universidade de Chicago. Algo como um extra-terrestre avaliar a capacidade intelectual da humanidade entrevistando a Marilyn vos Savant, ou medir sua velocidade cronometrando o Usain Bolt.

Isso é o que se pode chamar de viés da observação única – chutei esse nome que parece bem pomposo! –  ou do “n = 1”, como dizem os estatísticos. Mas nada mais é do que julgar o todo pelo particular. Aqueles famosos atalhos mentais a que nosso pensamento recorre ao lidar com uma situação pela segunda vez, ou ao avaliá-la pela primeira.

Será que isso vale para repensar nossos preconceitos? Nossas avaliações a priori? Nossos sentimentos iniciais, nossas intuições? Não que elas não devam ser feitas ou consideradas, muito pelo contrário, mas porque algumas delas podem estar enviesadas por algum evento extraordinário!

6a00e554b11a2e8833010535ea9531970b-250wi Imaginem que te apresentem uma bela haitiana. Você deduz que no Haiti deve ter gente bonita para depois descobrir que aquela era a Miss Haiti. Ou o seu vizinho neozelandês pesa 14 arrobas e você acha que na Oceania só tem gordo… Aquele pode ser o homem mais gordo de lá e está em São Paulo para uma cirurgia bariátrica…

São observações ou muito raras ou tão extremas que podem comprometer o entendimento do contexto. Suponha que coloquem cinco mil pessoas no Maracanazinho e calculem o peso médio da multidão. Provavelmente dará algo em torno de 60 kg. Se colocarmos lá dentro o homem mais gordo do mundo – outro neozelandês? – e tirarmos nova média, não vai mudar muita coisa, vai?

Agora, se verificarmos a renda per capita dessas mesmas pessoas, deverá ficar próximo de R$ 13.000,00 que é a média do Estado do Rio de Janeiro. Mas se ali estiver o homem mais rico do mundo, vai distorcer completamente!

Que tipos de eventos podem variar de forma tão selvagem que são capazes de mascarar a realidade? Quais podem ser as conseqüências de decisões tomadas com base nessas observações? Em síntese: precisamos avaliar não a freqüência com que estamos certos, mas de que forma podemos ser prejudicados pelos nossos erros cumulativos. E devemos, ainda, classificar nossas crenças não de acordo com a possibilidade de estarem corretas, mas com o possível dano que eventuais desvios podem nos causar.

NOTAS DE RODAPÉ:

O título desse post é uma homenagem/agradecimento a meu amigo Ronaldo, revisor bissexto desse blog e leitor assíduo de Sherlock Holmes.

O “neozelandês” da foto é, na verdade, o havaiano Israel “Iz” Kamakawiwo’ole, cantor falecido em 1997 e autor de uma belíssima versão de Somewhere over the rainbow/What a wonderful world.

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* Lançado no Brasil pela Editora Sextante com o título de “O ponto da virada: como pequenas coisas podem fazer uma grande
diferença
“.

8 pensamentos em “O estranho caso da aranha”

  1. Mto bom! Parabéns! Eu ia fazer um artigo mais ficando no fato do inconsciente nos fazer tomar medidas pessoais n dia-a-dia baseado nisso. Aí vc veio com uma linha mais estatística bem interessante!
    Abraço

  2. Freakonomics mudou minha vida! 🙂
    Mentira… mas mudou sim muitas coisas que eu pensava diferente.
    Passei a ser a favor do aborto, não pelos numeros mostrados no livro, mas porque percebi que pessoas que não querem ser mães e pais, não devem ser. É melhor evitar uma vida desgraçada matando um feto do que esse feto matar algumas pessoas em um futuro.

  3. Lembrei-me muito desse texto ontem! Aconteceu um pequeno incidente, muito semelhante ao que você contou! Ao ligar o chuveiro para tomar banho, tinha uma borboletinha escondida embaixo da torneira. Na hora que girei ela voou em cima de mim e eu me assutei…
    E agora que todos os dias olho primeiro embaixo da torneira para depois ligá-la? Como aranhas e borboletas podem de repente ter tanta importância em nossas vidas??? Há como evitar???
    Beijos.

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