Os santos justiceiros

Continuando a série de filmes esquisitos dos quais gosto, iniciada no domingo passado, trago hoje Os santos justiceiros (The Boondock Saints, 1999), um filme difícil de encontrar, mas muito fácil de se gostar.

6a00e554b11a2e88330105362b5884970c-250wi O escritor e diretor Troy Duffy conta a saga dos jovens irmãos McManus (Sean Patrick Flanery e Norman Reedus), dois descendentes de irlandeses que levam uma vida pacata – apesar de nada convencional – numa vizinhança barra pesada de Boston. Até que um dia eles se metem numa confusão no bar em que freqüentam e entram numa espiral de crimes e vingança.

Num embate com a máfia russa, Murphy e Connor levam a melhor e eliminam alguns bandidos pelo caminho. Numa vizinhança abalada com a criminalidade, as pessoas começam a chamá-los de anjos. Auxiliados pelo engraçadíssimo David “Funny man” Della Rocco (que é o nome real do ator e também co-produtor do filme) eles decidem iniciar uma cruzada contra os bandidos da cidade.

Trata-se de uma história onde pessoas comuns deparam-se inesperadamente com uma situação que foge ao seu controle e, assim, são obrigadas a lutar por sua própria sobrevivência. Apesar de soar como mais um chavão hollywodiano, as semelhanças param por aí.

A fama e reputação do trio chamam a atenção do investigador Paul Smecker (o messias Willem Dafoe), o astuto policial com incrível perícia para reconstituir crimes, enquanto tenta esconder sua homossexualidade. No curso de seu trabalho, ele passa a admirar os irmãos, assim como o rastro de morte que deixam pelo caminho, invejando a liberdade de ação dos vingadores acima do bem e do mal.

6a00e554b11a2e883301053622ecca970b-300wi O filme tem ainda as improváveis participações de Ron Jeremy e Jeanna Fine, dois ícones do underground pornô dos anos 1980, além de Carlo Rota (no papel de David Yakavetta), o chefe mafioso carcamano, mais conhecido por sua participação na terceira e quarta temporadas de 24 horas.

As cenas de ação são carregadas de uma estética à la John Woo (ou Sam Peckimpah?), misturando extrema violência em slow motion, narradas quase sempe em flash back. O tempero final fica por conta de diálogos engraçados e a maior coleção de palavrões que vi num único filme (alguém se deu ao trabalho de fazer uma coletânea de quase dois minutos de fucks nesse vídeo do Youtube). Portanto, se seus ouvidinhos são sensíveis, mantenha distância.

A temática religiosa permeia o filme, quando os irmãos assumem seu papel no que acreditam ser uma missão divina de purificação da raça humana. A famosa prece que rezam toda vez que eliminam um bandido faz com que encarnem ainda mais suas abençoadas identidades:

And shepherds we shall be. For Thee, my Lord, for Thee. Power hath descended forth from Thy hand, that our feet shall swiftly carry out Thy command. So we shall flow a river forth to Thee, and teeming with souls shall it ever be. In nomine Patri, et Fili, et Spiritus Sancti, Amen.”

6a00e554b11a2e88330105362b5b91970c-300wi Para complicar a trama, Yakavetta tira da prisão um impiedoso assassino que atende pelo singelo pseudônimo de “The butcher”, o carniceiro Il Dulce (Billy Connolly) que, após um apocalíptico embate, decide mudar o rumo de sua missão.

Na cena final, onde os protagonistas dão o seu derradeiro recado durante a fortíssima cena do julgamento. Um poderoso discurso* inspirado nos preceitos católicos dos Dez Mandamentos lança o recado final do filme, questionando se homens de bem devem fazer justiça pelas próprias mãos.

Isso nos traz de volta ao sermão do padre no início do filme onde, citando o dramático (e real) assassinato de Kitty Genovese ele questiona o motivo pelo qual convivemos com tanta violência: “We must all fear evil men, but there is another kind of evil which we must fear most. And that is the indifference of good men.”

Nas cenas finais, há uma interessante simulação de entrevistas com pessoas nas ruas, imitando uma cobertura jornalística a respeito dos vigilantes, onde a população divide-se entre o apoio à sangrenta iniciativa e o repúdio à carnificina promovida pelos “heróis”.

Ainda que despretensioso, o filme desperta questões morais para os quais o mundo moderno ainda não encontrou respostas. Talvez por isso a equipe de Os santos justiceiros tenha resolvido tentar novamente e já produz, em ritmo acelerado, a continuação da saga dos irmãos McManus. Aguardemos, então, Os Santos Justiceiros II!

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ATUALIZAÇÃO 05/03/2010: Já assisti Os Santos Justiceiros II. Um lixo! Não percam vosso precioso tempo…

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* Il Dulce: Never shall innocent blood be shed, yet the blood of the wicked shall flow like a river. The Three shall spread their blackened wings and be the vengeful striking hammer of God.

6a00e554b11a2e88330105362303ab970b-300wi Connor: Now you will receive us.
Murphy: We do not ask for your poor, or your hungry.
Connor: We do not want your tired and sick. 
Murphy: It is your corrupt we claim.
Connor: It is your evil that will be sought by us.
Murphy: With every breath we shall hunt them down.
Connor: Each day, we will spill their blood till it rains down from the skies.
Murphy: Do not kill, do not rape, do not steal, these are principles which every man of every faith can embrace.
Connor: These are not polite suggestions, these are codes of behavior and those of you that ignore them will pay the dearest cost.
Murphy: There are varying degrees of evil, we urge you lesser forms of filth not to push the bounds and cross over, into true corruption, into our domain.
Connor: For if you do, one day you will look behind you and you will see we three. And on that day, you will reap it.
Murphy: And we will send you to whatever god you wish.
Connor Murphy, Il Dulce: And shepherds we shall be, for Thee, my Lord, for Thee. Power hath descended forth from Thy hand, that our feet may swiftly carry out Thy command. So we shall flow a river forth to Thee, and teeming with souls shall it ever be.
Il Dulce: In nomine Patri.
Connor: Et Fili.
Murphy: Spiritus Sancti.

2 pensamentos em “Os santos justiceiros”

  1. Orra, parabens pelo texto..
    vi o texto há mt tempo atrás na tv, umas duas vezes, achei mt bom mas não fui muito atrás… hoje o assiste inteiro novamente, e com mais atenção. gostei muito, muito mesmo.
    Seu texto ta muito bom, li alguns na internet, mas esse é o mais completo, sua atualização me deixou meio decepcionado apesar de não ser o primeiro a me falar que a continuação é decepcionante.
    E outra coisa, eu não senti que o “The butcher” apenas mudou sua missão, mas sim que ele é o pai dos irmãos….pois ele sabe a reza da família, não sei se vc não coloco ai por que não quis..
    o email ta ai..qualquer coisa !
    é isso, vlw
    abraço

  2. The Upside of Irrationality – Motivação e Vingança

    No texto anterior, vimos a Motivação sob a ótica da Economia Comportamental. Conforme explica Dan Ariely em The Upside of Irrationality, nem todos os incentivos funcionam bem para todo mundo, contrariando os preceitos básicos da Economia Tradicional, e…

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