Um modelo de economista

6a00e554b11a2e8833010535ed0ee8970b-120wi A partir de hoje esse blog contará com mais um ilustre colaborador. Tim Harford, colunista do Financial Times e autor de The Undercover Economist e The logic of life: the rational economics of an irrational world (Random House, 2008) apresentará algumas de suas idéias aqui. Como ele ainda não sabe disso e nem eu tenho certeza se ele vai aceitar, vou adiantando um pouco os textos e depois vejo se ele concorda com suas próprias opiniões. Ele se junta a outras feras que estão sempre colaborando comigo, como Nicholas Nassim Taleb, Henry Mintzberg, Robert Cialdini e Dan Ariely.

Com esse último, aliás, o inglês Harford travou um interessante duelo sobre o caráter das decisões que tomamos em nossas vidas: seriam racionais ou irracionais? Sendo ambos economistas, devo admitir que trata-se de uma discussão extremamente rica a vale ao menos uma passada de olhos.

Confesso que ainda não acabei de ler o The logic of life, mas o livro é tão rico em temas fascinantes que precisarei ir escrevendo aos poucos.

O leitor mais atento lembrará que peguei no pé dos economistas exatamente em virtude de seus modelos abstratos demais. Continuo achando isso, mas para algumas situações entendo que é preciso simplificar o complexo e recorrer a atalhos cognitivos desde que, óbvio, isso não comprometa a reconstrução da realidade. Além disso, dependendo do nível da discussão ou do impacto das decisões,  o grau de fidelidade desse modelo pode variar sensivelmente.

6a00e554b11a2e8833010536017268970c-250wi Harford tem um capítulo bastante interessante onde avalia a dinâmica dos casamentos, sob a ótica da oferta e da demanda. Os grandes centros urbanos apresentam uma disparidade entre a quantidade de mulheres e de homens, ficando elas em maioria quase sempre*. E quais seriam as conseqüências desse desequilíbrio?

Para entender melhor, vamos visitar o Supermercado dos Casamentos: um local onde se reúnem vinte homens solteiros e vinte mulheres idem, que se juntam em pares, passam no caixa e levam US$ 100,00, à título de bônus de matrimônio, representando a “quantidade de felicidade” que o casal terá para gastar ao longo de sua vida. Algo como aquela alegria pós-bodas e que deverá ser dividido pelo par como eles bem entenderem. Considerando que os homens e mulheres são iguais entre si (OK, uma ligeira imperfeição do modelo), não há grande dificuldade em casar e sair feliz com seu dinheiro.

Mas imagine que um desses vinte homens não aparece num belo dia. Seja porque ele virou gay, ordenou-se padre, foi preso ou morreu, mas não foi ao Supermercado e, em seu lugar, apareceu o elemento da escassez. Falta apenas um, dirá a leitora, um módico inconveninente. Mas em algumas situações, um ligeiro desequilíbrio resulta em péssimas notícias para quem sai prejudicado(a). Porque nesse caso, escassez significa poder.

6a00e554b11a2e8833010536017a09970c-250wi Pois bem, haverá no check-out dezenove casais e uma titia. Mas essa titia decide que em vez de ir para casa sozinha e sem sua parte dos US$ 100,00 ela prefere aceitar algo menos do que a metade, digamos US$ 40,00, mas garantir um par. O emparelhamento transforma-se num leilão onde, ao final, alguns homens irão para casa com US$ 99,99 e a respectiva com US$ 0,01 – que ainda assim terá feito um bom negócio do ponto-de-vista econômico. Ainda não acabou pois, seguindo a “lei do preço único”, para bens iguais, preços iguais. Logo cada uma das dezenove mulheres deverá receber US$ 0,01, uma não leva nada e os homens ficam com o restante.

É incrível perceber o enorme poder que a escassez de um único recurso deu a um dos lados e o grande desbalanço que isso gerou num ambiente. Como apenas uma mulher sobrando transformou-se em mais opções para os homens, aumentando seu poder de barganha (já comentei aqui que o excesso de mulheres na cidade do Rio de Janeiro é de 721 mil e, em São Paulo, 938 mil). É interessante notar, também, que esse desequilíbrio prejudica não apenas as mulheres que não se casam, mas também aquelas que efetivamente se casam pois, muitas vezes, são levadas a aceitar condições inferiores.

Outro fator de desequilíbrio (ao menos nos EUA) é a quantidade de homens nas prisões: são 2.000.000 de homens contra 100.000 mulheres numa distribuição para lá de desigual não só em sexo, mas também em idade, cor e geografia. Grande parte dos homens são jovens negros – o que aumenta o problema das mulheres negras, admitindo que os casais se formam, na maioria das vezes, entre iguais.

6a00e554b11a2e8833010535fa0e8f970b-250wi Em 32 Estados americanos mais de 10% dos jovens negros estão presos. Em 10, um em cada seis cumpre pena. No Novo México, 30% estão encarceirados. E, para os que permanecem do lado de cá das grades, casar não parece uma opção tentadora. A enorme disponibilidade de mulheres soa como um harém. Estudos mostram que cada 1% de aumento na população carcerária reduz em 3% as chances de uma mulher se casar.

Como conseqüência, para tentar melhorar sua atratividade ao mesmo tempo em que garante uma fonte de renda, as mulheres voltam-se para o mercado de trabalho mais cedo e investem em formação acadêmica (hoje 57% dos estudantes universitários são mulheres).

Mesmo com um grau de escolaridade mais elevado (mais mulheres se formam e com notas melhores que os homens), as mulheres não equilibram a disparidade: mesmo com um nível intelectual superior ela acaba se casando com um homem menos instruído.

Isso acaba se transformando num ciclo vicioso, porque o homem percebe que não precisa se casar para conseguir o que ele quer – o que cria um desbalanço ainda maior nessas contas.

Bom, já fui longe demais com essa história de Supermercado dos Casamentos. É uma viagem bastante interessante para percebermos o que podemos buscar com analogias bem amarradas.

Meu intuito era mostrar que alguns modelos extremamente reducionistas e que simplificam uma situação ao máximo, poodem ter enorme validade para entender alguns fenômenos. (Isso encerra o mea culpa com relação às críticas aos economistas ortodoxos demais.)

A lição que deve ficar disso tudo é com relação à limitação dos próprios modelos. Eles são ótimos para entendermos a dinâmica de alguma situação, os atores que dela fazem parte, o timing dos eventos, seus processos e fluxos. Mas quando entramos em detalhes mais específicos, a tendência é que o modelo perca sua objetividade, sua precisão.

Senão podemos cair na armadilha apontada por um famoso libanês: “(…) modelos são como medicamentos potencialmente eficazes, mas que trazem junto raros – porém graves – efeitos colaterais”.

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* Onde há uma concentração de homens ricos, haverá uma concentração de mulheres solteiras – e isso ocorre nas cidades grandes.

3 pensamentos em “Um modelo de economista”

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