Apertem os cintos

6a00e554b11a2e8833010536943fb2970c-320wiConfesso que ainda não tinha pensado no que fazer com o blog durante minhas férias – aliás, apenas uma pequena pausa para as festas de fim de ano – mas eis que logo na primeira perna da minha viagem já presencio acontecimentos bizarros, cenas insólitas. Acho que os aeroportos são os lugares do mundo que reúnem a maior quantidade de tipos esquisitos por metro quadrado, os comportamentos mais incompatíveis com a civilização. E, assim, acho que vocês terão minha presença virtual por mais alguns dias. O que até pode ser bom.

Nas companhias aéreas de hoje cada vez mais você trabalha por eles. Mas continua pagando do mesmo jeito. (Um pouco mais, talvez. Mas ao menos você come as saudáveis barras de cereais, com muitas fibras.) Hoje você escolhe o seu vôo, emite o bilhete e faz o check-in. Com seu telefone, seu computador, sua impressora, seu papel. Se errar alguma coisa, babau! Pague uma multa e comece tudo de novo.

6a00e554b11a2e88330105368d3758970b-800wi Pois bem, com o meu cartão de embarque em mãos – impresso por mim – despachei minha mala e segui para o detector de metais, onde o funcionário da Infraero dá a penúltima escaneada no seu ticket. Entreguei-o junto com minha identidade, como sempre fiz. Ao que ele disse: “O senhor não pode embarcar. Não conferiram sua identidade”. – Sim, eu sei, ela está aqui, pode olhar, respondi. – Não, eu não, retrucou. Você deve voltar ao balcão da companhia, onde eles lhe darão um carimbo.

Um carimbo? Achei que precisaria descer as escadas e retornar ao balcão onde despachei a bagagem, mas ele me tranqüilizou: “Não, é ali do lado”. A raiva de a menina do balcão ter esquecido o meu carimbo passou na hora. Quando Sherlock, o papiloscopista conferiu meu documento e carimbou meu ticket atestando que eu, de fato, era eu, a ficha caiu: só ele sabia que eu era eu! Para garantir que eu continuasse sendo eu, ele teria que colar aquele papel na minha mão – ou em alguma outra parte do meu corpo que eu não quis pensar na hora. Se alguém pegasse aquele meu papel, imediatamente passaria a ser eu! Porque tinha o carimbo! Aquele carimbo mágico da verdade. Qualquer um com aquele carimbo estava dizendo a verdade, inclusive quanto à sua identidade. Portanto, jamais percam um papel desses! As conseqüências podem ser terríveis…

6a00e554b11a2e8833010536944c6e970c-800wi Logo na entrada do saguão de embarque, uma pausa para o café. Uma atendente fanha entendia o que eu queria, mas eu não entendia nada quando ela repetia. Nem quanto custava. Papo de maluco! Li na registradora. Fiquei pensando como colocavam um fanho para atender o público. Aí eu lembrei que era proibido, por exemplo, pedir alguém de boa aparência quando se quer contratar um vendedor, ou alguém para lidar com clientes pessoalmente. Argumenta-se que é discriminação. É feio querer pessoas bonitas para a sua loja. Ora, então você também não pode recusar um gago para ser telefonista. Quanta hipocrisia…

No portão de embarque uma graciosa demonstração de como o brasileiro parece fazer questão de se foder, só para ter do que reclamar depois. Senão, o que explica ficarem em pé numa fila para embarcar, quinze, vinte minutos antes do horário, se os lugares todos estão marcados? O cara quer chegar antes da própria bunda? Não importa a hora em que você entre, seu lugar está reservado. Não sabia?

Você deve estar esperando a hora em que eu vou falar dos intermináveis atrasos, overbooking, falta de respeito com o passageiro, lotação do aeroporto, né? Nada disso. Vinte minutos ANTES do horário eu já estava dentro do avião, sentado na minha poltrona com o cinto afivelado, quase dormindo (normalmente eu durmo antes de o avião levantar vôo). Em plenas férias de fim de ano, um avião decolando no horário é um luxo, correto? Quase. Ninguém contava com aquela chuva. Parou tudo, fechou o aeroporto. Um verdadeiro temporal.

Na minha frente um novo-pobre (de espírito) assistia TV no celular. Claro que era para me provocar! Certamente ele havia lido meu post destilando ódio contra esses aparelhos. Estava se vingando. Por isso colocou sua melhor camisa pólo Lacoste abotoada até o pescoço e fez as unhas. Passou base e tudo. Assistindo TV no celular… É ou não é coisa de pobre? Rede Vida, o culto da tarde. Sônia Abrão.  Eu queria morrer!

6a00e554b11a2e88330105368d4559970b-800wi Durante o dilúvio, já dentro do avião, enquanto ainda esperávamos o aeroporto reabrir e eu resolvia os últimos pepinos do trabalho por MSN, recebi uma mensagem no celular confirmando o meu web check-in. Somente uma hora e meia depois de eu já ter embarcado. Com carimbo e tudo. Senti-me extremamente aliviado. Alguma coisa ali funcionava!

Enquanto isso: “Eu aumento, mas não invento!” Nélson Rubens. Caceta! Invenção dos infernos esse celular com TV…

Pelo auto-falante um sonolento comandante nos informava que a Infraero realizava as últimas vistorias na pista para que, enfim, ela fosse liberada para nossa decolagem. O motivo, dizia indiferente, era um inofensivo raio que caíra na cabeceira. Alguns milhares de volts a metros de distância de nós derretera um pedaço da pista. Mas ainda sobrara um pedação! Algo realmente reconfortante saber que Faraday fez os cálculos corretamente!

Nos monitores de vídeo do avião, após as instruções de decolagem, um anúncio do Ticketmaster oferecia todo tipo de facilidade para você comprar ingressos para o show da Madonna, no Morumbi. Aquele, de ontem. Devia ser uma promoção e tanto!

6a00e554b11a2e88330105368d4916970b-300wi E na hora de ir embora, por que as pessoas já estão todas de pé enquanto o avião ainda está taxiando (“estacionando” na linguagem deles)? Eles torcendo para a porta abrir logo e eu torcendo por um solavanco, uma freada brusca. Não importa quem levante mais rápido ou quem corra mais, a pessoa lá da frente sempre sairá antes! E, convenhamos, um vôo São Paulo/Brasília, numa segunda-feira à tarde, quem vai voltar no mesmo dia? NINGUÉM! Então todo mundo que está ali levou mala e tem que retirar bagagem! Mesmo assim todo mundo quer apostar corrida com sua mala! Todos querem ser o primeiro a chegar na esteira, para acompanhar o desfile. Pegar o melhor lugar. Ah, sim, deve ser porque na esteira não tem lugar marcado.

Bom, na quinta vou para o Rio de Janeiro. Espero não ter muito assunto para escrever – pelo menos sobre a viagem. Prometo que se correr tudo bem eu escrevo alguma coisa mesmo assim. Por favor não torçam contra. Nem sou assim tão engraçado para contar histórias.

5 pensamentos em “Apertem os cintos”

  1. Verdade, né? E ainda tenho mais dois embarques e dois desembarques até voltar para casa. A verdadeira Caravana Rolidêi!
    Estou acompanhando suas viagens através do Google Analytics: um acesso da Romênia, um da Bélgica…
    Abraço,
    Rodolfo.

  2. Valeu Rodolfo,
    Lavou minha alma com relação a este comportamento completamente irracional das pessoas em aeroporto, além das regras esdrúxulas da Infraero e cias. aéreas!
    E isto porque as pessoas que viajam de avião se consideram imensamente superiores aos reles pobres mortais que não tem acesso a este “luxo”…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *