Coisas para fazer em Denver quando você está morto

“Domingo. Dia de mais um filme esquisito do Rodolfo, do qual eu nunca ouvi falar…” Convenhamos, uma ótima maneira de terminar o fim-de-semana, não?

6a00e554b11a2e88330105363cbe8e970b-300wi Realmente “Coisas para fazer em Denver quando você está morto” (Things to do in Denver when you’re dead, 1995) já começa estranho no título.

Tenho, aliás, um inexplicável apreço por filmes com títulos compridos e incomuns como “Meia-noite no jardim do bem e do mal“, “Meu ódio será sua herança” e “Brilho eterno de uma mente sem lembranças“.

A trama inclui um chefão mafioso preso a uma cadeira de rodas, bandidos malvados com alcunhas pra lá de criativas, um leão-de-chácara que mantém a forma socando cadáveres e um gângster que queria ser padre.

Mas se você me perguntar o que eu acho mais bacana no filme, são as cenas de romance…

O sinistríssimo chefe da máfia local é pai de um bobalhão pedófilo que é preso apalpando menininhas no playground de uma escola.

Ele decide contratar, então, seu antigo capanga para executar um plano simples que trará de volta a paz ao seu lar.

Para que o filme possa seguir adiante, o plano dá todo errado e, agora, seus executores estão com a cabeça a prêmio.

6a00e554b11a2e8833010536464bac970c-250wi Dando nomes aos bois, o vilão da história é ninguém menos que Christopher Walken*, respeitosamente chamado por seus comparsas de The man with the plan.

Considerado um dos mais versáteis atores de sua geração, Christopher – nascido Ronald – oferece-nos uma assustadora encarnação da maldade, embrutecida ainda mais pela perda da amada esposa e sua vida para sempre atrelada a uma cadeira de rodas.

Walken parece ter-se especializado em tipos desajustados, desde sua premiação com o Oscar de melhor ator coadjuvante por “O franco atirador“, em 1978. Sua figura esguia, de olhar frio e ameaças veladas compõe um vilão de arrepiar.

O ex-bandido convidado a ajudar (na verdade ele é praticamente obrigado) é Jimmy “The Saint” Tosnia, vivido pelo cubano Andy Garcia, no melhor papel de sua carreira.

Jimmy e seu suspeitíssimo sócio Cuffy mantém um desastroso negócio de Aconselhamentos post-mortem (Afterlife Advice). Um empreendimento um tanto quanto bizarro no qual uma pessoa com algum tipo de doença terminal grava depoimentos em vídeo sobre temas pré-estabelecidos, seguindo um roteiro definido antecipadamente. Seus herdeiros podem, assim, buscar seu aconselhamento mesmo depois de ele ter partido.

Tentando levar a vida honestamente, Jimmy é trazido de volta ao submundo por The man with the plan para uma última ação.

Então ele recruta seu antigo quarteto treme-treme, verdadeiros malfeitores trapalhões, numa inigualável coleção de nomes de bandidos mais que sugestivos: “PiecesPolymeros (Christopher Lloyd), cujos dedos caiam devido a uma desconhecida moléstia; Easy Wind (Bill Nunn), “my brother from another mother“; “FrannyFranchise (William Forsythe); e “CriticalBill (Treat Williams), um psicopata desequilibrado, mau feito um pica-pau que renega seu libertário hippie de Hair.

6a00e554b11a2e88330105363fb65a970b-250wi Quando o plano simples que eles precisavam executar transforma-se numa monumental cagada, eles são jurados de morte (ao som de “You’re nobody ‘till simebody loves you” de Dean Martin – irônico, não?) e precisam correr por suas vidas, justificando o enigmático título “Coisas para fazer em Denver quando você está morto”. Claro, o filme se passa em Denver, Colorado.

A sentença capital atende pelo intraduzível nome de buckwheats, uma gíria marginal para a qual não encontrei pista alguma – mas que certamente deve doer um bocado antes de o seu coração parar.

No meio do caminho Jimmy conhece (e se apaixona por) Dagney, a belíssima Gabrielle Anwar (a dançarina de tango de Perfume de mulher). Todos os encontros entre os dois merecem atenção especial.

Se você é um marciano recém-chegado e não sabe como se aproximar de uma mulher, muito menos como fazer com que ela decore o seu nome (ou use sua escova de dentes, como eles dizem no filme), memorize esses diálogos e vá testar na rua.

Fecham o excelente elenco a sempre destrambelhada Fairuza Balk, como a prostituta apaixonada por Jimmy, cujo sonho é ter um filho dele; Steve Buscemi, como o ex-impiedoso assassino de aluguel Mr. Pink e atual impiedoso assassino de aluguel Mr. Shhhh; e Don Cheadle, desperdiçado numa pontinha miserável que nem vale a pena lembrar o personagem. Ah, não deixem de reparar na cena do happy hour quem está tocando!

Enfim, Denver é um programa e tanto! Veja a “entrevista” entre The man with the plan e Jimmy “The saint” Tosnia e tente não assisti-lo por inteiro depois.

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* Curiosidades sobre Walken: ele foi considerado para fazer o papel de Hans Solo na trilogia de Guerra nas Estrelas – papel que acabou ficando com o Indiana Jones. Antes de ser ator, queria ser dançarino (por isso em todos os seus filmes ele faz uma dancinha, e foi o par de Judy Garland na festa de aniversário de 16 anos de sua filha, Liza Minnelli. E ele tem medinho de correr de carro.

Mas a biografia de Walken também tem um lado dramático: ele estava junto com Robert Wagner (metade do Casal 20) quando sua esposa Natalie Wood morreu afogada durante um passeio de barco, aos 43 anos.

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