Convenções

Hoje é dia 31 de dezembro. Um verdadeiro caos aqui no Rio de Janeiro, especialmente em Copacabana, onde estou.

6a00e554b11a2e8833010536a83855970c-800wi Vinha do Leblon para cá num taxi cujo motorista avisou: “A corrida até Copacabana é um pouco mais cara. Tenho que cobrar um extra.” Quando perguntei o porquê, ele disse que “estão cobrando até R$ 60,00 para ir até lá, porque só os taxis podem entrar.” Sabendo que a corrida normal custa em torno de R$ 15,00 disse que isso não ía acontecer: pagaria o que estivesse marcando o taxímetro. Meio contrariado ele me deixou no meu destino final.

Indignado com isso, conversei a respeito, lembrando que em São Paulo os taxis nem tiveram permissão de usar a bandeira 2 em dezembro, liberada aqui no Rio de Janeiro. Como disse num post anterior, os dentistas não cobram mais caro no último mês do ano nem o ônibus tem tarifa diferenciada.

“Mas isso é uma convenção”, responderam-me. Ahhhhh… isso explica muita coisa!

O Brasil é o país das convenções – e o Rio de Janeiro, a capital federal.

6a00e554b11a2e8833010536a838f3970c-320wi O que é, para nós, uma convenção? É algo que todos sabemos que está errado, mas que é muito difícil mudar. Ou custa algum esforço, talvez abrir mão de um pequeno conforto, arcar com uma despesa inicial ou empenhar, talvez, um sacrifício pessoal.

Fazer xixi na rua é uma convenção (nos acostumamos com o cheiro, porque também temos nossas necessidades fisiológicas, não é mesmo?). Jogar papel no chão é uma convenção, mesmo o Rio de Janeiro sendo uma das cidades com maior número de lixeiras na rua por metro quadrado (a foto ao lado é do chão do ônibus que andei aqui). Subornar o guarda é uma convenção (só uma cervejinha, afinal eu só estacionei aqui um instantinho). Ser achacado por taxistas é uma convenção (coitados, é Natal!). Deixar de votar para viajar no dia da eleição é uma convenção (olha o sol que está fazendo!). Reclamar que os outros não resolvem os nossos problemas é uma convenção (fulano é corrupto!).

Quando cheguei no Rio, em plena noite de Natal, não havia taxis no aeroporto do Galeão. Um aeroporto internacional. Os poucos que chegavam levavam passageiros da TAM para um hotel, pois devido a uma monumental cagada da companhia eles não conseguiram embarcar nos seus vôos e, por isso, precisariam pernoitar no Rio. Os que sobravam eram disputados a tapa pelos demais passageiros.

6a00e554b11a2e8833010536a83bb2970c-300wi Um funcionário da cooperativa de taxis – sim, dos taxis que chegavam e saíam – dizia que não podia fazer nada, nem organizar uma fila para os esperançosos. Quem poderia, então?

Uma amiga de São Paulo trouxe uma turista búlgara para passar uns dias aqui. Na chegada, a reserva do hotel não foi confirmada pois alegaram que o número do cartão estava incorreto. Ninguém as avisou e elas foram transferidas para outro hotel. Por R$ 250,00 a diária, passaram quatro dias cheirando o mofo das cortinas e tapetes e tomando banho de chinelos porque não tinham coragem de pisar no chuveiro descalças.

No passeio turístico que fizeram – indicado pelo hotel como um dos melhores do Rio – a guia não falava inglês e minha amiga precisou traduzir boa parte do percurso. Exceto a parte onde a guia disse que o Cristo Redentor havia sido construído em 1830 pois aí minha amiga, mesmo paulista, sabia que estava errado. Uma visita ao Maracanã – por fora! – antes que a van quebrasse foi a senha para elas pegarem um taxi e voltarem para o hotel na metade do passeio.

6a00e554b11a2e88330105369ff7be970b-800wi Recentemente o Ancelmo Góes se disse entristecido com o fato de o Le Meridién passar o segundo Réveillon seguido fechado, sem sua tradicional cascata de fogos e com seus 550 apartamentos vazios. Isso é, sem dúvida, uma lástima. Mas do jeito que o Rio de Janeiro recebe os turistas, em breve isso deixará de ser um fato isolado.

Nossos hotéis são absolutamente vergonhosos. Tirando uma meia-dúzia de Copacabana Palaces, Sheratons ou Windsors da vida – onde uma diária básica deve girar em torno dos R$ 500,00 – o resto é caso de saúde pública.

Um enorme potencial de geração de renda esvai-se com guias semi-analfabetos, taxistas seguidores de Gérson, punguistas praianos e toda sorte de maus-malandros (existem os bons?) descritos trinta anos atrás por Da Matta.

Um amigo que mora em Recife, viajante contumaz, conheceu na Europa oito estrangeiros que haviam vindo ao Rio no ano passado. Todos, sem exceção, foram assaltados. Algo que acontecia freqüentemente em Recife anos atrás. Não acontece mais porque Recife não é mais sombra da cidade turística de outrora. O turismo por lá acabou, relata.

6a00e554b11a2e8833010536a84d57970c-800wi O Réveillon transformou-se, recentemente, na grande festa popular do Rio de Janeiro. Há muito que o Carnaval perdeu esse posto, com a glamourização decorrente de sua espetacularização. Gente vinda de todo lugar quer estar entre os dois milhões que deverão assistir à queima de fogos em Copacabana. Não importa o tipo de sacrifício necessário.

Desde a manhã de hoje os carros são amontoados nas calçadas pelos flanelinhas, em locais sabidamente (por eles) proibidos. Os reboques da Prefeitura não param. Provavelmente acionados pelos próprios flanelinhas, para poderem vender novamente a mesma vaga. O ponto de ônibus aqui ao lado transformou-se em churrasqueira por volta do meio-dia. Uma centena de ônibus ocupam a orla da Lagoa.

Mas tudo bem. Isso é tudo convenção. Nós, cariocas, estamos acostumados com isso. Mudar vai dar um trabalhão! Talvez até custe algum dinheiro.

Ser país do terceiro mundo para sempre também é uma convenção.

____________________

NOTA: antes que venham os críticos de sempre dizendo que, depois que fui morar em São Paulo, só fico falando mal do Rio, gostaria que me apontassem o que não está correto no texto. Onde eu exagerei? O que não é verdade? Retratar-me-ei com prazer!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *