Outliers – epílogo

Depois dos três textos (1, 2, e 3) sobre o novo livro do Malcolm Gladwell (Outliers: The Story of Success*), ainda fiquei com a sensação de que faltava um fechamento, uma conclusão. Mais do que isso, os posts foram muito descritivos, parecidos com uma compilação das idéias do autor. Estou devendo minhas opiniões a respeito de tudo isso. Afinal, é para isso que você vem aqui, não é?

6a00e554b11a2e88330105365bdf94970b-800wi Chegando à última página do livro, tem-se a sensação de que ele poderia ter umas cem páginas a menos. Mas isso parece ser uma característica do Gladwell. Ele constrói um tema – quase sempre polêmico, invariavelmente fantástico – e apresenta-o nos dois primeiros capítulos. Normalmente é algo fora do comum que captura sua atenção instantaneamente. Argumentos sólidos e provas irrefutáveis são apresentadas numa seqüência arrebatadora. The tipping point é assim quando a teoria das janelas quebradas é introduzida, assim como Blink e a estátua falsificada.

Mas aí fica uma sensação de que ele precisa terminar o livro com o mínimo de páginas contratadas por seu editor. E o que segue são histórias compridas demais para apresentar mais um par de evidências.

A parte que faltou falar sobre os outliers diz respeito às suas raízes culturais. Gladwell destrincha o histórico de desastres aéreos para mostrar que, dependendo do país de origem da tripulação, os passageiros vestem camisas de onze varas. Seu argumento apóia-se no fato de que determinadas culturas alimentam um respeito excessivo por cadeias de comando e que, por isso, o comandante do avião jamais seria questionado por seus subordinados, mesmo que estivesse fazendo a cagada da década.

6a00e554b11a2e8833010536640255970c-320wi A relevância disso, no contexto de um fora-de-série, diz respeito à medida em que uma cultura favorece a exposição de novas idéias, quando do questionamento das antigas. Ou de que forma a autoridade aniquila a inovação – não por censurá-la, mas por inibi-la, intimidá-la.

A notícia ruim aqui – especialmente para nós – é que há uma mórbida coincidência entre o ranking dos países onde se dá maior importância à hierarquia e os que formam os pilotos que mais se envolvem em acidentes. Desgraçadamente o Brasil aparece nas primeiras posições em ambas. Nosso passado servil, como lacaios de uma colônia hospedeira construiu o frágil caráter de um povo subserviente. Um povo que baixa a cabeça ante uma autoridade e executa ordens cegamente.

6a00e554b11a2e8833010536640ba7970c-320wi Outro traço cultural interessante diz respeito ao idioma. O chinês, por exemplo (e seus milhares de dialetos) tem uma peculiar estrutura para representar os números – o que facilita muito sua compreensão, memorização e operacionalização (cálculos). O que explicaria, em parte, a facilidade que os orientais têm para a matemática e suas aplicações.

contexto cultural influi, ainda, em outros traços do caráter da pessoa. A principal atividade econômica da região, bem como sua posição e relevância na divisão do trabalho determinarão algumas características profissionais básicas, como por exemplo a disposição, disciplina e tenacidade para o trabalho (“If a man works hard, the land will not be lazy”); sua relação particular entre esforço e recompensa; e sua aptidão para atividades criativas e desafiadoras ou repetitivas funções braçais.

Ele argumenta, ainda, que uma maior profusão de oportunidades para todos produziria mais gênios em série. Trata-se de uma afirmação da qual sou forçado a discordar. Três ligas amadoras de hockey certamente daria oportunidades para vários jovens, sem descartar os que nasceram, acidentalmente, fora da data de corte. Haveria, assim, mais jogadores de alto nível, não resta dúvida. Mas aí o nível mudaria. Com tantos jogadores excelentes, a barra subiria e o entry level seria bem mais puxado.

6a00e554b11a2e8833010536784c6c970c-320wi O mundo não teria espaço para o dobro ou o triplo de super-astros do basquete, hockey ou computação. Também não haveria quinze Microsofts ou vinte Apples. Porque somente umas poucas podem se destacar, independentemente do quão exigente sejam os padrões. Se todos se destacam, não há destaque. O mundo é que seria outro, com parâmetros muito diferentes dos atuais. Só que essa seria a nossa realidade. Estaríamos habituados a esse novo patamar de exigência, acostumados a performances que hoje nos pareceriam assombrosas – como numa viagem no tempo.

Por fim, conclui Gladwell, é preciso que uma conjunção de fatores quase cósmicos ocorra para que aquela estrela brilhe exatamente na sua vez. É o atleta que nasceu em 1° de janeiro, o geek cujo colégio tinha o único terminal de computador do Estado ou o advogado que não trabalhou nas grandes empresas porque era judeu e ficou no limbo por décadas para depois dominar o merecado de fusões e aquisições. Mas porque eles estavam prontos, puderam aproveitar as oportunidades (como falei no primeiro post da série: the right man, in the right place).

Os grandes fora-de-série parecem enquadrar-se, à primeira vista, numa ponto fora de qualquer curva de médias ou tendências. O que não é verdade. Eles são produtos da história da sua própria comunidade, da oportunidade e de um legado recebido. Estão sustentados por uma rede de vantagens e heranças, algumas merecidas, outras não, umas ganhas com trabalho árduo, outras por pura sorte – mas todas críticas para fazer deles o que realmente são. O fora-de-série, no final das contas, não é um fora-de-série de verdade.

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Superstar lawyers and math whizzes and software enterpreneurs appear at first blush to lie outside ordinary experience. But they don’t. They are products of a history and community, of opportunity and legacy. It is grounded in a web of advantages and inheritances, some deserved, some not, some earned, some just plain lucky – but all critical to making them who they really are. The outlier, in the end, is not an outlier at all.

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* Disponível no Brasil pela Editora Sextante com o Título “Fora-de-série: outliers, descubra porque algumas pessoas têm sucesso e outras não“.

8 pensamentos em “Outliers – epílogo”

  1. Caro Rodoldo,
    Comprei o livro Blink do Gladwell sem nenhuma pretensão e achei o livro muito bom. Fiquei interessado em ler os demais livros do autor e por acaso achei seu blog. Gostei muito! Devo ter passado umas 4 horas lendo os posts e os temas relacionados.
    Em relação às 10000 horas, também fiquei sabendo que 10000 horas é a vida média de uma lâmpada que se preze. Será que é por isso que associamos as boas idéias à imagem desse objeto? hum…
    Enfim….Parabéns pela erudição, já adicionei o blog ao meu Favoritos!

  2. Olá, Erisson, muito obrigado por sua visita, seu comentário e os elogios! Fico satisfeito em saber que você tenha gostado dos temas.
    Sobre a história da lâmpada, talvez seja coincidência o tema das dez mil horas. Deve ser alguma analogia com o fato de uma idéia “trazer luz”. Mesmo porque, depois de dez mil horas a lâmpada apaga, enquanto que o outlier “acende”.
    Abraço, Rodolfo.

  3. Li o livro e busquei algumas das referências citadas por Gladwell para entender inclusive a questão das dez mil horas, que são uma conclusão de K Anders Ericsson em alguns de seus estudos sobre experts etc. Vale a pena dar uma googleada em busca de artigos de tal pesquisador para melhorar a compreensão sobre o que diz o jornalista inglês.

  4. Outliers – Malcolm Gladwell

    Depois de The tipping point e Blink, o inglês de nascimento, canadense de criação e novaiorquino por opção Malcolm Gladwell repete sua receita de sucesso e nos dá outro de seus best-sellers: Outliers: The Story of Success * (Little Brown,…

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