Tragédias previsíveis

Com as festas religiosas de fim de ano se aproximando – e, daqui mais um pouquinho, as pagãs – uma tragédia como a que aconteceu recentemente num cruzeiro de jovens serve como alerta para eles e, principalemente, para seus pais.

Janis Joplin, †27.
Janis Joplin, †27.

Por que os pais? Porque eles têm o péssimo hábito de não querer ver o que está diante de seus próprios olhos. Negam os maus hábitos de seus filhos e culpam os outros por tudo o de errado que lhes acontecem, ou que eles mesmo fazem.

Não é raro um pai dizer que o filho não usa drogas, mesmo quando ele é preso carregado delas. Ou que sua filha não bebe, ainda que derreta um bafômetro numa blitz da polícia. Ou achar uma óbvia demonstração de curiosidade cultural seu súbito interesse por conhecer Amsterdam. Ou um aguçado espírito naturalista queimar incenso no quarto o dia todo.

Uma amiga psicóloga, que trabalhou com jovens presos na Zona Sul do Rio de Janeiro, contava histórias de um adolescente de classe média alta detido com objetos roubados. Sua mãe insistia que eram presentes dos amigos. Mais de uma vez. Não seria muito azar desse rapaz inocente levar um tiro na cabeça durante um assalto a uma residência? Não seria mesmo?

Ou que tal guardar na memória a cândida imagem da sua linda amiga num cruzeiro pelas paradisíacas praias da região Sudeste? Morta. Asfixiada no próprio vômito. Depois de uma noite inteira de convulsões na sua frente. Dá pra pregar uma foto assim na cortiça?

Jim Morrison, †27.
Jim Morrison, †27.

Que nada, né? Isso nunca vai acontecer com aqueles nossos amigos animados que pulam doze horas seguidas depois de tomar umas balas, certo? Mesmo depois de uma garrafa inteira de Absolut com cinco latas de Red Bull. Para morrer disso tem que ser muito fraco, né? Ou ter um leve distúrbio cardíaco. Uma pequena indisposição alimentar. Um sutil refluxo gastro-esofágico. Ou adormecer de barriga para cima. E pimba! Bate com as dez!. Mas é só jogar do barco e continuar a festa!

Infelizmente a morte da jovem Isabella, uma tragédia para sua família, apenas engrossará as estatísticas da irresponsabilidade e inconsequência dos jovens de hoje. Assim como a ignorância e omissão de seus pais.

Essa semana saiu no jornal o depoimento de uma jovem dizendo que todos no barco se drogavam, apesar da fiscalização. Ela dá, inclusive, ótimas dicas de como passar com substâncias proibidas pela fiscalização: uísque em vidros de enxaguatório bucal, ácido, ecstasy e cocaína junto com a maquiagem. Tudo nas bolsas das mulheres, pois raramente eram revistadas. Será que essa jovem se dá conta que hoje eu poderia ter lido o depoimento da Isabella dizendo ela morreu? Ela percebe que seria perfeitamente normal se fosse o contrário?

Agora querem dizer que a culpa é da tripulação ou dos responsáveis pela revista? Estão achando que a repressão é pouca? Depois de tanta briga para garantir um pouquinho mais de liberdades individuais, o povo ainda não sabe lidar com isso. Ou talvez não mereça. Porque certamente não tem a responsabilidade necessária e suficiente para responder por seus próprios atos. A culpa é sempre do outro. Da falta de leis. Nunca do desrespeito às que já existem.

Jimi Hendrix, †27.
Jimi Hendrix, †27.

Se colocam a culpa de um suicídio (como se chama uma morte em conseqüência da ingestão voluntária de substâncias sabidamente tóxicas em quantidades letais?) na revista deficiente realizada pela organização do evento, é porque é alguém que se julga incapaz de cuidar de si mesmo.

As descrições feitas por quem esteve a bordo não deixam dúvidas disso. Uma tripulante relatou: “Foi um cruzeiro universitário, acabaram com o nosso navio, despejaram malas de outros passageiros no mar, urinaram e fizeram cocô em malas, cabines, camas, corredores. Houve inúmeras brigas.” Quando o navio atracou em Santos: “(…) desovaram os vândalos para fora do navio. Muitos saíram descalços, sem camisa, bêbados, drogados.” Outros disseram que a enfermaria estava sempre lotada, com gente vomitando para todos os lados.

Que linda imagem de uma turma de formandos, recém-saídos da beca, das cuecas e calcinhas! Espero que os pais estejam bem orgulhosos dos seus filhos. Pelo menos dos que passarem dos 27 anos*.

Depois do Revéillon escreverei sobre os rapazes e moças que morrerão bêbados nos acidentes de carro após as festas e dos feridos nas brigas das boates. Falarei dos pais inconsoláveis negando sua própria negligência. Relatarei sua surpresa ao descobrir que pela primeira vez seu pimpolho havia consumido álcool. E mais na frente, contarei dos que morrerão no Carnaval. E assim por diante.

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*Para quem ainda não ligou a idade às pessoas, foi com 27 anos que morreram Janis Joplin, Jim Morrison e Jimi Hendrix – as lendas-mortas retratadas aqui – e, pelo menos um deles, asfixiado no próprio vômito. Todos, porém, tiveram sua derradeira viagem relacionada à ingestão excessiva (existe uma quandidade razoável?) de drogas.

2 pensamentos em “Tragédias previsíveis”

  1. Belissimo texto, Rodolfo.
    Como dizia aquele humorístico de outros tempos:”Tem pai que é cego”… Porém, aqui não há nada de engraçado. Muito menos na burrice destes adolescentes burgueses que se acham os donos do mundo!!! Coitados!
    Abração.
    Um ótimo final de ano pra vc e família!
    Eder

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