Uma vez por ano

6a00e554b11a2e8833010536921158970b-320wi ATENÇÃO: este não é um post de Natal. Aqui não chacoalham sininhos, nem piscam lampadinhas, muito menos cantam anjinhos. O bagulho é louco, frenético e o buraco é bem mais embaixo. Esteja avisado.

Natal tem todo ano. Aniversário também, seu e de um monte de gente. Vestibular, Carnaval e Réveillon. Campeonato Estadual, Brasileiro (inclusive da segunda divisão!) e Libertadores. IPVA, IPTU, Seguro do carro.

Mas por que somente durante algum tipo de celebração dessas é que determinados sentimentos – sejam eles bons ou ruins – afloram em nós?

Hoje passei por um sinal de trânsito aqui em Brasília onde havia toda aquela espetacularização da pobreza, característica de qualquer cidade grande (aliás, vale conferir o ótimo post do Balu sobre “pobrismo“). Mas uma coisa chamou minha atenção: um deficiente físico, que se locomove sobre um skate, havia estendido faixas entre os postes. Com uma caprichada pintura da sua figura, uns dizeres agradeciam o apoio da população durante todo o ano. Surreal.

Há muito tempo não existe mais o tradicional pedinte de rua, sinal, feira, igreja ou qualquer outro aglomerado de compaixões alheias. A mendicância deixou de representar um temporário instrumento de subsistência passando a ser, agora, uma profissão – não como outra qualquer, pois essa apóia-se na exploração da boa vontade de terceiros.

6a00e554b11a2e8833010536920c4d970b-800wiSe o desprivilegiado skatista reúne qualidades marqueteiras, iniciativas criativas e, pelo visto, várias pessoas dispostas a ajudá-lo, por que não transforma isso tudo numa atividade econômica real? Não digo para ele abrir uma empresa, registrar funcionários nem pagar impostos. Apenas que deixe de vender paz de espírito, comercializar misericórdia, traficar compaixão. Algo legítimo e que não precise provocar o sentimento de culpa de passantes desavisados. Algo pelo qual você ache realmente justo trocar pelo seu rico dinheirinho, sem qualquer pressão sentimentalóide.

6a00e554b11a2e8833010536921505970b-320wi Por que o prédio tem o “Livro de Ouro”? Os porteiros não ganham décimo-terceiro salário? Por que o taxista tem direito de usar a bandeira dois em dezembro? A passagem de ônibus é mais cara no final do ano? A sua dentista te cobra mais caro para te atender nesse mês, ou ela passa o ano inteiro guardando dinheiro para o Natal? O pão é mais caro?

Por que atividades não relacionadas diretamente com o comércio têm esse luxo? Aliás, por que as relacionadas têm? Se o décimo-terceiro aquece a e acelera a economia, fazendo o dinheiro girar, por que não tem décimo-terceiro o ano todo?

Por que todo mundo se sente na obrigação de fazer algo pelo próximo só porque estamos perto do Natal? Um dia de bondade compensa um ano inteiro de avareza, pão-durice e indiferença? Qual o sentido desse surto de caridade, que termina tão de repente quanto começa? O que motiva essa efêmera epidemia de amor?

Para quem está estranhando um post desprovido de jingle bell – apesar do aviso lá em cima – eu convido para um outro tipo de reflexão: qual o sentido de ser bonzinho no Natal? Por que mandar emails para gente que você nem se lembra que existe durante o ano todo? (E que você continuaria a ignorar se não estivesse gravado na sua lista de endereços.)

De qualquer modo, feliz Natal…

3 pensamentos em “Uma vez por ano”

  1. Rodolfo, eu já havia lido esse seu texto. Adoro a foto do Papai Noel, aliás. É mais um daqueles seus posts em que você quase me convence de algo com que não concordo, rs! Aliás, não concordo em parte. Eu dou caixinha de Natal…
    Agora, e-mail de Feliz Natal, só para as pessoas que eu realmente gosto, viu?
    (Ah, sugiro que leia esse post ouvindo Garotos Podres, “Papai Noel”, rs)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *