Caro Rocky Balboa,

Carta escrita por Apollo Creed para Rocky Balboa, reconhecendo e elogiando seu grande adversário nos ringues e amigo fora deles.

Sugar Ray Robinson
Sugar Ray Robinson

Através de uma dica do meu grande amigo Sugar Ray Robinson, fã do blog do Balu, fui ler um texto que você escreveu para o seu filho (você não tem idéia de como a Internet é rápida aqui no céu!).

Confesso que fiquei realmente emocionado com suas palavras e, assim, resolvi psicografar esse texto para o Rodolfo. Ele ficou meio assustado no começo, não queria acreditar. Mas depois viu que era uma oportunidade como a que você compartilhou comigo naquele longínquo Independence Day de 1976.

Tudo o que eu queria era ficar bem na foto no Bicentenário da Independência. Dar uma chance a um descendente de italianos – mesma origem do descobridor da América – pareceu uma ótima ideia. Nem prestei atenção no fato de você ser canhoto.

Que ironia, escolher um lutador pelo nome! Imagina se você se chamasse Maguila…

Como eu apanhei na nossa primeira luta… Senti-me como um daqueles bifes que você espancava no açougue onde Paulie trabalhava. Bati muito, é verdade, mas levei mais da metade dos quinze assaltos tentando entender contra o que eu estava lutando, porque a soberba me cegou e à minha equipe.

Nenhum de nós percebeu do que era feito aquele homem que subiu ao ringue para a chance de sua vida. Mas nada como um knock-down no primeiro assalto para te fazer mudar de ideia. Nas minhas 46 lutas anteriores, eu jamais havia ido à lona, nem demorado quinze assaltos para demolir outro lutador. Ali comecei a ver que aquela noite não seria mais um espetáculo de Apollo Creed, mas um momento que ficaria marcado para sempre na história do boxe, cujo protagonista seria o até então desconhecido Garanhão Italiano.

6a00e554b11a2e8833010536ea12cf970b-350wi Apesar de você ser bem mais magrinho que eu na época dessa luta, você partia para cima de uma forma que eu nunca entendi. Compensava o seu despreparo inicial com um ímpeto fora do comum.

Por falar em preparo, aliás, o pessoal aqui brinca comigo dizendo que se você estivesse melhor preparado, teria me moído. Sua evolução foi notável, mas nas primeiras lutas ainda era precário. Fumando e bebendo, você mal chegava ao topo das escadarias do Museu de Artes da Filadélfia. Tivesse você alguém para cuidar da sua parte física e controlar sua alimentação – como o menino do blog que eu li – talvez nem houvesse revanche.

Mas acho que precisei muito mais daquela segunda luta do que você. Não foi só o mundo do boxe e a imprensa esportiva que me questionaram. Eu também me perguntava se havia ganho. Aquilo havia ferido o meu orgulho – a única coisa que era mais forte que meus músculos. Não dei ouvidos nem ao Tony, meu fiel escudeiro. Desde o início ele havia percebido o perigo que você representava.

6a00e554b11a2e8833010536f48b22970c-300wi Ainda bem que só depois que eu cheguei aqui é que fiquei sabendo que você treinou para aquela luta correndo atrás de galinhas. Mal sabia eu que depois a coisa ficaria séria e que você teria a direita mais poderosa com que um canhoto jamais me acertou.

Aquela luta em que você me ganhou o cinturão foi, na opinião de todos os que estão em paz aqui comigo, o mais feroz combate de todos os tempos. E o mais bonito também. Pura arte. Uma batalha épica entre pugilistas do mais alto nível, com reviravoltas espetaculares e dois lutadores quase nocauteados.

Confesso que cheguei a ficar preocupado contigo quando você chegou ao topo. O outrora humilde Garanhão Italiano estava se deixando seduzir pela fama. Comecei a ver em você o orgulhoso Apollo de outrora. Quando sua vida virou um show, arremessando brutamontes dos ringues de telecatch, gritando bravatas em público, vi que você tinha se perdido. O show virara circo.

Quando você chega no topo, só há um lugar para onde pode ir: para baixo. E porque você estava muito lá em cima, a queda foi feia.

É como dizia aquela música do Survivor que a gente gostava de ouvir enquanto treinava: “Muitas vezes as coisas acontecem rápido demais. Você troca sua paixão pela glória.” Você estava lento, sem agilidade nem reflexos, deixou a fama subir à sua cabeça. Foi trabalhoso. Mas a música continua com “Não deixe que os sonhos do passado lhe escapem. Você deve lutar para mantê-los vivos”.

E eu não deixei você me passar naquela corrida na praia. Você trabalhou duro. Sempre dei o melhor de mim em tudo o que fiz. Foi assim na primeira luta, como te disse no hospital depois. Você não ultrapassa as pessoas porque elas ficam para trás. Elas ficam para trás porque você as ultrapassa.

6a00e554b11a2e8833010536f48c6a970c-320wi As coisas nunca foram fáceis para você, Rocko. Você precisou de fórceps para nascer. A saga de Rocky Balboa desde o início, tal como a conheci, é a história de muitos batalhadores, gente que segue em frente, não desiste, cai, se machuca, levanta, tenta de novo. Você é a inspiração dos milhões de rockys que treinam dentro de nós. Os rockys que vivem à espera de um apollo que os acorde para a vida, que lhes ofereça uma chance. Mas o mundo não tem tantos apollos quanto rockys.

A vida é feita de adversários, Rocky, de adversidades, não de inimigos. Enquanto você encarar suas limitações como inimigos, perderá suas batalhas, porque derrotando um inimigo, você derrota a si mesmo. Você ganhou porque lutou contra suas adversidades, não contra Apollo Creed. Você mostrou isso ao me vencer na segunda luta e me dedicar o primeiro agradecimento do seu discurso. A vontade de vencer deve ser um sentimento interno, um instinto, não uma força destrutiva.

Enquanto procuramos o inimigo que nos puxa para baixo, nos impede de ir além, estamos apenas personificando nossas limitações, nossas frustrações. O inimigo não tem culpa do nosso fracasso. Nós temos. Isso eu aprendi com você, Rocky, mas só depois que eu não tinha mais o cinturão que então envolvia sua cintura. Só então eu entendi que, como você costuma dizer, não importa o quão forte você bate, mas o quanto você aguenta apanhar e continuar seguindo em frente.

Alexander Alekhine e Jose Raoul Capablanca
Alexander Alekhine e Jose Raoul Capablanca

Senna sempre me conta como as coisas são diferentes quando você tem um Prost na sua cola. Ou um Mansell. Alekhine e Capablanca hoje se divertem aqui com as histórias de sua rivalidade ao tabuleiro. Mas ambos reconhecem o quanto se ajudaram, apesar de terem sido adversários em vida. Adversários, não inimigos.

Seu pai dizia que você não havia nascido com muito cérebro e que precisaria usar o corpo para compensar. Quando encontrei com ele aqui, disse-lhe que estava errado. É seu cérebro que ganha as lutas, pois é de onde vem sua vontade sobrehumana (e acredite, hoje eu sei bem o significado de sobrehumano). Todo preparo do mundo, toda força e agilidade não lhe servem de nada se você não souber o que fazer com elas.

6a00e554b11a2e8833010536f48fd5970c-120wi Eu nunca me dei conta de que quanto mais eu lutava, mais forte você ficava. Demorei para entender que era a minha superioridade que lhe dava coragem. E que quanto mais eu tentava te derrotar, mais resistente você se tornava. De todos os lutadores que conheci, Rocky, aí embaixo ou aqui em cima, nenhum poderia ter tornado uma derrota mais honrosa. Por isso me orgulho tanto da minha maior obra: Rocky Balboa.

Do seu amigo e (agora) anjo da guarda,

Apollo Creed.

P.S.: Essas histórias são tão inacreditáveis que acho que dariam um bom filme! Esse menino, o Denzel Washington podia fazer o meu papel. Queria mesmo o Will Smith, mas ele já fez “Ali”. Aliás, o Cassius tá mandando um abraço pra ele!

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Dedicado ao meu amigo Mazinho e seu filho Augusto que, pequenino, já pedala uma Caloi Cross!

5 pensamentos em “Caro Rocky Balboa,”

  1. Na verdade, Elessandro, o autor do texto é o Apollo Creed, eu apenas psicografei e fiz a tradução… 😉
    Eu e o Balu (www.baluzao.com) tivemos essa idéia e estamos vendo a repercussão. Escrever sobre personagens famosos do cinema na primeira pessoa dá um resultado bem engraçado, não é mesmo? Ainda mais nessa forma de réplica, tréplica etc.
    Fico feliz que tenha gostado desse e estamos aceitando sugestões para os próximos!
    Abraço,
    Rodolfo.

  2. Caro Rodolfo.
    Comecei a ler seu blog no final de semana, apesar de ja ter lido alguns artigos seus no Acerto de Contas, nunca tinho vindo pra cá, até o Pierre( ou foi o Marco, não lembro) indicarem diretamente.
    Li todos os post ate aqui, porem, esse me tocou profundamente.
    Alem de ser um grande fã de Rocky, estou passando por um momento que, mesmo sendo algo nem tão importante, esta me deixando pra baixo. Vou tirar esse texto como inspiracao pra me levantar. E passar a lembrar sempre que o meu adversario sou eu mesmo.
    Bem, obrigado pelo belissimo texto, e pelo blog.
    Ja virei seu fã.
    Abraços

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