A lei Vampeta

Jogadores de futebol são pródigos na arte de batizar anticomportamentos. Neste comercial de cigarros da década de 1970, Gérson ganhou uma infame lei com seu nome:

Quando jogou no Flamengo, em meio aos constantes atrasos de salários Vampeta saiu-se com essa pérola: “Eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo”.

Mede-se a forma física pelo percentual de gordura, empenho e desenvoltura nos treinos específicos. Confere-se a efetividade pelo scout (passes certos, roubadas de bola etc.). Avalia-se a disciplina pelas punições em campo e cumprimento dos horários. Mas nada disso atesta se um jogador é bom ou não. Não se multiplica esses números pela quantidade de gols que ele faz – ou evita – para atribuir-lhe o valor do seu passe.

Relações frágeis, indefinidas e pouco claras tornam-se terreno fértil para a prática do “me engana que eu gosto”. A ausência de medidas objetivas de performance ou qualquer outro parâmetro de satisfação,  acertados a priori e observadas com rigor igualmente combinado, abre caminho para uma perniciosa relação de perde-perde, escondida sob um manto de ganha-ganha.

6a00e554b11a2e88330120a81e986c970b-320wi Esta ilusão de que participamos de um jogo justo, segundo regras que combinamos antecipadamente, permeia vários aspectos da nossa vida – desde nossas relações pessoais/amorosas, passando pelo ambiente profissional e, num enfoque mais amplo, por nossas relações sociais.

Nessa última semana o peemedebista Jarbas Vasconcelos lembrou-nos mais uma vez o quão forte é a Lei Vampeta:

.: Ele finge que se irrita, nós fingimos que acreditamos.

.: Nós fingimos que estamos irritados, ele acredita.

.: Nós acreditamos que vai acontecer alguma coisa, eles fingem que vão fazer (parece que a lei é comutativa).

.: Eles não fazem nada, nós fingimos que nos irritamos.

.: Eles dizem que tudo vai mudar, nós fingimos que acreditamos.

.: Nós dizemos que vamos votar noutros candidatos, eles riem. (Essa não vale, porque a gente vota sempre nos mesmos, por mais que eles nos provem que estamos errados.)

Quem é que acompanha, de fato, as ações, atitudes e resultados dos seus eleitos? Quem sabe o que fez aquele que mereceu seu voto nas últimas eleições? Então por que votamos neles novamente? Aliás, por que votamos?

Me engana que eu gosto!

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NOTA: Eu jurava que tinha sido o criador dessa expressão! Mas eis que a vejo num artigo do Eloi Zanetti publicado em 2006. Continuarei tentando…

3 pensamentos em “A lei Vampeta”

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