As cinzas de Phoenix

Semana passada li algo sobre uma entrevista bizarra do ator porto-riquenho Joaquin Phoenix no David Letterman, mas ainda não havia tido a chance de assistir. Ontem encontrei uma versão no youtube e dei uma olhada. Caceta, definitivamente o cara pirou!

Recentemente ele anunciou que estava abandonando Hollywood para dedicar-se à sua carreira de músico. De rapper… Desde então suas aparições públicas são ilustradas por uma figura semelhante a Charles Manson, com uma barba bíblica, cabelos desgrenhados e um Ray-Ban impenetrável.

Letterman manteve-se impassível enquanto pôde, tentando disfarçar seu constrangimento diante de um monossilábico convidado. Phoenix limitava-se a responder “Sim” ou “Eu não sei” à maioria das perguntas, deixando seu entrevistador no vácuo em várias ocasiões onde é possível perceber risos nervosos da platéia. Numa insólita passagem, Letterman confere se seu novo/último filme (Two Lovers) é baseado numa obra de Dostoiévski, ao que Joaquin responde “Não sei, não vi o filme”.

Quase ao final da entrevista Phoenix – que mastigou um ostensivo chiclete o tempo todo – pergunta se Letterman está sendo irônico com ele, ao que ele perde a paciência e responde que não, que “um dia desses vou te visitar e ficar mascando chiclete na sua casa”. Para espanto geral, o ator entende o recado, cospe o chiclete e cola-o embaixo da mesa (8’45”) …

Em meio a essas e outras grosserias, Phoenix esqueceu-se do nome de sua recente parceira de estúdio, Gwyneth Paltrow. Apesar de Letterman ter se derretido em merecidos elogios, ele permaneceu alheio ao que acontecia. Tanto que ao final, o entrevistador encerra com um espirituoso “Uma pena você não ter podido vir hoje”.

Encontrei esse vídeo – um tanto quanto clandestino, parece-me – sobre uma das apresentações do rapper Joaquin Phoenix. Sinceramente não entendo de rap, mas isso para mim é lixo:

ATENÇÃO: se você quiser manter a lembrança do grande ator que Phoenix foi, não veja o vídeo abaixo. Não vai ser legal para você vê-lo vestido como um náufrago e descendo até o chão rebolando a bundinha como uma funkeira alcoolizada.

Impossível saber o que se passa na cabeça desse talentosíssimo ator e deprimente pessoa.  Sua atuação em Gladiador como o invejoso Commodus é o auge da sua carreira, onde ele protagonizou duas cenas inesquecíveis: o momento em que seu pai diz que ele não será o novo Imperador; e, quase ao final, quando ele diz à sua irmã que, apesar de sua traição, ela será poupada, fechando o diálogo com o antológico Am I not merciful?!

Esse papel rendeu-lhe a primeira de suas indicações ao Oscar (essa de coadjuvante), que acabou ficando em boas mãos com seu compatriota boa-praça Benício del Toro, por seu Javier Rodriguez de Traffic. Achei que ele merecia, mas não quero nem imaginar o que teria acontecido à estatueta nessa nova fase do galã. Já na derradeira oportunidade, o incontestável Capote de Philip Seymour Hoffman bateu Johnny Cash.

Qualquer que seja o desfecho dessa fábula, Phoenix segue entranhado nesse grotesco personagem. Parece recolher-se a um estranho ninho esperando que algo surpreendente erga-se de suas cinzas.

1 pensamento em “As cinzas de Phoenix”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *