Dois pesos

Uma notícia n’O Globo de hoje quase dá a entender que está havendo fraude na compra de material escolar em Taubaté, no interior de São Paulo. Tudo isso porque quem escreveu a notícia insinuou que é alta uma diferença praticamente simbólica de 6.000% (seis mil porcento) entre o que se pagou por apostilas compradas sem licitação e os custos dos livros didáticos distribuídos pela Secretaria de Educação.

6a00e554b11a2e8833011168583a8c970c-320wi Como alguém pode imaginar que a bagatela de R$ 10.500.000,00  – que é o valor anual do contrato com a empresa Expoente Soluções Comerciais e Educacionais, contratada sem licitação – pode ser suficiente para comprar apostilas para 43 escolas do ensino fundamental? Isso dá menos de R$ 250.000,00 por escola!

Não é um investimento que vale a pena, para suprir os livros do Programa Nacional do Livro Didático que custam, para todo o município, R$ 170 mil (68% do que gastam em apostilas por escola)?

Será que quem escreveu a notícia baseia-se nos princípios de estatística e probabilidade que atestam que “padrões de aleatoriedade são tão confiáveis que em determinados contextos podem ser tomados como evidência de fraude“?* Será que essa diferença de 6.000% (seis mil porcento) é robusta o suficiente para sugerir isso?

Segundo o Departamento de Educação e Cultura do Município, as compras foram feitas sem licitação (eu já disse isso?) porque não houve tempo para a concorrência. Ora, como alguém poderia imaginar que uma escola precisaria de material escolar? E logo no início do ano?

Também não adianta dizer que essa é a segunda vez que a dupla prefeito/diretor do DEC comete esse equívoco de compra sem licitação, porque todo mundo tem o direito de errar e isso não configura crime, necessariamente.

6a00e554b11a2e88330105371e1b77970b-320wi Até porque está provado que eles fizeram um ótimo negócio: a empresa contratada deu de brinde 47.000 boletins informativos com propaganda da administração municipal – também sem licitação, mas é porque não precisa de licitação para dar presente, né? Só por isso, o exegerado Ministério Público Eleitoral pensa em anular as eleições dessa cidade. Pode?

Mas espere! Nem tudo está perdido! Um perigoso meliante foi detido domingo em Santos, depois de surrupiar R$ 1,25 deixados por fiéis junto a uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida, no Jardim Botânico daquela cidade. A quantia já foi devolvida à sua dona original, da qual já estava sentindo muita falta.

Abençoados sejam o prefeito e o educador!

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* (…) the patterns of randomness are so reliable that in certain social data their violation can be taken as evidence of wrongdoing. Leonard Mlodinow em The Drunkard’s Walk: How Randomness Rules Our Lives.

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