Quem quer ser um indiano?

Sábado passado fui assistir o grande vencedor do Oscar 2009: “Quem quer ser um milionário?“. (Aliás, se milionário vem de milhão, por que não é milhonário? Enfim…)

6a00e554b11a2e883301156e38418e970c-320wi Cá entre nós, o filme é muito mais ou menos, hein? Esqueça que ele ganhou oito Oscars e você tem algo divertido, engraçadinho, mas nada além disso. Muito menos para ganhar tantos prêmios da Academia, incluindo Melhor Filme e Direção.

O que há de tão especial nesse filme, que o faça ter tanto destaque? Absolutamente nada. Todos os atores são desconhecidos – ao menos para nós, fora de Bollywood. Um insosso jovem casal de atores que não compromete mas que, tirando as crianças que são engraçadinhas porque muito espontâneas, não vai além da novela das seis.

A disparidade social das cidades, com uma ostensiva miséria escoltando e espremendo um oásis de riqueza e desenvolvimento, cercados pela ilimitada bandidagem, não são novidades para nós. As coloridíssimas favelas por onde os personagens se perseguem parece o Pelourinho numa pintura naïf. Bonito, é verdade, mas acho que um Oscar de Melhor Fotografia vai muito além desse mosaico.

6a00e554b11a2e883301156f31e72d970b-320wi Da China John Woo nos deu “A última ameaça“, com John Travolta e Christian Slater. Repetiu o primeiro em “A outra face” ao lado de Nicholas Cage, dirigiu Tom Cruise em “Missão Impossível II” e ainda salvou “O pagamento“, apesar de Ben Affleck. Taiwan contribuiu com Ang Lee, diretor de “Razão e Sensibilidade“, “O tigre e o dragão” (com Chow Yun-Fat, diretamente de Hong Kong e lançado por Woo) e “O segredo de Brokeback Mountain“, pelo qual ganhou um Oscar. Até a Coréia contribuiu com Chan-wook Park, autor da sanguinolenta trilogia “Mr. Vingança“, o excelente “Oldboy” e “Lady Vingança“.

Confesso que não vi todos os outros filmes que concorreram aos prêmios, mas “O curioso caso de Benjamin Button” já é bem melhor do que “Quem quer ser um milionário”.

Quando os prêmios se amontoam dessa maneira existe um indício de que o filme é excelente em termos técnicos, mas pobre em valor cinematográfico ou conteúdo. Em 1997 “Titanic” amealhou onze estatuetas igualando o feito de “Ben-Hur“, quase quarenta anos depois.

Além de Melhor Filme e Direção – prêmios que “Quem quer ser um milionário” também levou – ambos ganharam Fotografia, Figurinos, Direção de Arte, Efeitos Visuais (embora não dê para comparar a antológica cena da corrida de bigas do segundo com o cardume de golfinhos do primeiro) Som, Trilha Sonora e Edição.

6a00e554b11a2e883301156e384621970c-320wi Mas Ben-Hur levou ainda Melhores Ator e Ator Coadjuvante, o que lhe confere muito mais legitimidade. Basta ver que apenas dois filmes arrebataram de uma só vez os cinco prêmios mais importantes de Filme, Direção, Roteiro Original, Ator e Atriz: “Um estranho no ninho” e “O silêncio dos inocentes“.

Fato é que a Academia parece adotar, vez ou outra, uma postura politicamente correta e vestir uma carapuça solidária a causas sociais ou modismos efêmeros. De outro modo, o que explica o narigudo Adrian Brody na pele do covarde pianista, destoando tanto de Denzel Washington (antes) e Sean Penn (depois)? Ou ainda Roberto Benigni em “A vida é bela“?

Há um pouco de despeito aqui, admito, porque nenhum de nossos filmes jamais chegou tão longe. “Central do Brasil“, “Cidade de Deus” (nosso Zé Pequeno é muito mais forte que o deles!) e, mais recentemente, “Tropa de Elite” são bem melhores! Por isso esse filme deixou meu instinto conspiratório à toda. Por que toda essa propaganda pró-Índia? Será que se fosse um filme falado em mandarim – da desabrochante e ameaçadora China – teria feito todo esse estardalhaço? Haveria tanto confete e promoção para essa parte do Oriente?

A impressão que fica é que uma produção bonitinha e caprichada – mas nada além disso – sucede de forma melancólica obras do quilate de “Crash“, “Uma mente brilhante“, “Gladiador“, “Coração Valente“, e “Gandhi“. Sem falar, é claro, de “Rocky“…

4 pensamentos em “Quem quer ser um indiano?”

  1. Eu também tenho essa mesma sensação. Quem sabe não seria um agrado da Academia, nesses tempos de crise, a um mercado tão populoso e promissor como o indiano? Ou então Hollywood rendeu-se ao dom profético da nossa Gloria Perez que, bem antes da premiação do Oscar, já vinha nos brindando com as peripécias dos nossos globais lá pelas bandas da Índia.

  2. Concordo 100% com você, o filme é muito mais ou menos mesmo, apesar de ser suspeita para falar dos filmes que levam as estuetas do Oscar. Não sei se é porque normalmente vou assistí-los depois da premiação, e as minhas expectativas vão bem além daquilo que é realmente demonstrado…(de repente são as medidas da minha régua que precisam ser revistas). O filme foi muito criticado pelos próprios indianos que se envergonham da miséria nua e crua da produção, mas que ao mesmo tempo retrata a vida real ou eu diria a “sobrevivência” de parte da sociedade deste país “emergente”. E mesmo sendo “emergente”, é incapaz de superar as barreiras do atraso secular, a herança do regime colonial e das castas…, e eu ainda acrescentaria que meu último convívio com indianos só reafirma esse atraso Pré-Cambriano.
    Um Beijo

  3. Belo ponto de vista, como sempre, Rodolfo.
    Sai do cinema meio decepcionado. Esperava bem mais depois da enxurrada de Oscars. Que dancinha é aquela no final??? Tudo bem pra Bollywood, mas pra um filme gringo??!! Sei lá.
    Isso tá cheirando a um modo de laurear os “futuros” ainda mais consumidores de Industria Cultural. O que é mesmo que tá passando na novela das Oito??
    Faz-se muitas coisas boas pras bandas de lá. Como o Oldboy, por exemplo, que entra nos meus 10+ fácil.
    Já a acadêmia, vai lá se entender?! Premiaram o Denzel Washington e derrubaram o Sean Pean. Deram Oscar de figurino pra Moulin Rouge e depois o de melhor filme pra Chicago??!!
    Ultimamente, tô preferindo as escolhas de Cannes…
    Um abraço,

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