Xô, vendedor!

Inspira-me o sempre espirituoso Roberto Pompeu de Toledo, diretamente da Veja dessa semana, com uma cotidiana comédia de erros da qual participamos quase toda vez que entramos numa loja: a abordagem do Vendedor disparando ao incauto Cliente: “Posso ajudar?”

vendNesse exato momento é dada a largada à uma patética perseguição à la gato & rato, onde o Vendedor fica de tocaia, espreitando todas as ações do Cliente de canto de olho, enquanto ele tenta, a todo custo, livrar-se da ostensiva e incômoda vigilância.

Os atores parecem obedecer a um roteiro mal-escrito do qual somos personagens involuntários e temos o enredo de cor. O Vendedor cumpre um obrigatório e improdutivo script, simulando uma natural interação com o Cliente que, sem muita alternativa, entra no jogo recitando sua parte:

VENDEDOR: Posso ajudar?

FUTURO EX-CLIENTE: Não, obrigado, estou só olhando.

VENDEDOR: Ah, sim, pode ficar à vontade…

Respostas tão comuns quanto dizer “Saúde” a quem espirra, essas frases fazem parte de um ritual que parece ter como única finalidade livrar o vendedor de uma tarefa. Cria-se, automaticamente, uma situação desnecessariamente forçada, pois certamente uma recepção mais espontânea e natural criaria um ambiente mais relaxado e descontraído. Este sim, muito mais propício ao (quase sempre) prazeroso ato de comprar.

Toledo sugere, nesses casos, maior sinceridade à generosa oferta de ajuda, como por exemplo: “Pode, sim. Meu carro está com o pneu furado. Você pode trocá-lo?” Ou ainda: “Está quase na hora de buscar meu filho na escola. Você faz isso por mim? Assim me dedico às compras com mais sossego”.

trcyutrcMinhas reações imaginárias – talvez menos sádicas que as anteriores – voltam-se à tréplica do Vendedor quando este permite-nos, de forma magnânima, ficar finalmente à vontade. Que tal tirar os sapatos e sentar no chão demonstrando o quanto você realmente está à vontade? Ou ainda responder: “Puxa, obrigado, estava tão tenso e inquieto sem saber se seria aceito nessa loja… Faz uma massagem nas minhas costas? Tem café?”

Antes que a leitora acuse-me de perseguição a esses profissionais, ou insensibilidade a seu esforço, esclareço que também já desempenhei esse papel. Fui vendedor de uma loja no Rio de Janeiro durante alguns meses. Sem jamais ter trabalhado antes, meu treinamento resumiu-se numa emblemática frase do gerente da loja: “Pode começar!”

Algumas profissões do setor de serviços parecem funcionar como o derradeiro recurso para pessoas que não levam muito jeito para outras atividades. Acolhem um contingente de trabalhadores sem outro tipo de qualificação, transformando-se um repositório de mão-de-obra que, abandonada, precisa aprende no tranco, na experiência, na tentativa-e-erro. Ou seja: ele treina com você.

Poucos são os casos onde há um verdadeiro investimento na formação e especialização do profissional que nos atende e, em última instância, ajuda-nos a gastar nosso rico dinheirinho. Mais, ou menos.

5 pensamentos em “Xô, vendedor!”

  1. Muito bom, Rodolfo. Desde que começou essa incômoda abordagem, agora difundida pelo Brasil todo, vem diminuindo o meu prazer em exercitar o tradicional “bater perna”. As minhas reações são as mais diversas: seja demonstrar acintosamente à vendedora que estou indo embora porque ela já me incomodou, até surpreendê-la me espreitando como uma araponga.
    Páreo duro nessas amolações do dia-a-dia são os flanelinhas, com o seu indefectível: posso olhar?

  2. Gostei desta postagem. De fato o “may I help you?” é incômodo em qualquer parte do mundo. É uma demanda para que você escolha rapidamente e compre logo, é um oferecimento claramente ao contrário, como se o vendedor dissesse: “você vai me ajudar a vender meu produto ou vai ficar aí só olhando?” Piores são os vendendores de calçados que, além desta ridídula pergunta, seguem, olhando e avaliando o que vai nos seus pés!
    Bom domingo!

  3. Realmente o hábito de empurrar serviços e produtos destrói qualquer relação saudável ou de credibilidade que você possa estar disposto a criar. Exatamente por isso prefiro as lojas de departamento, onde não tem nenhum “chicletinho grudento” me importunando. Mas, pior que estes tipos de vendedores são os atendentes de telemarketing… iluminado seja o ser que criou a poucos dias esse cadastro através do PROCON-SP, para quem não quer receber ligação de telemarketing. Falta só saber se vai funcionar. (mas pelo menos a idéia é boa).
    Quanto a falta de treinamento dessa massa, é impressionante a ingenuidade das empresas que não percebem que são essas pessoas que dão o cartão de visita do negócio, construindo (ou destruindo) o possível laço empresa-cliente.
    Sem mencionar ainda “as malas-diretas” de correspondências, muitas vezes inúteis, e só um detalhe, que VOCÊ não pediu para receber…
    Um beijo

  4. Excelente.
    Por essa e outras que, sempre que posso, compro online.
    E’ tão bom ser 100% autônomo nas compras… olhar o que quiser, do jeito que quiser e na hora que bem quiser.
    E conto com toda a internet para fazer consultas pertinentes das mais variadas naturezas: o produto, a reputação da loja, a concorrência, etc.

  5. O alto custo dos baixos salários

    Recentemente escrevi um texto sobre os altos salários dos CEOs e a influência dessas remunerações estratosféricas na performance das empresas. Este tema costuma ocupar as manchetes das sessões de economia dos jornais e recebe, também, atenção extra das…

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