A tecnologia que nos deixa para trás

Num dos meus (não-raros) momentos de procrastinação passei pelo excelente Pop Prop, dos irmãos Renata e Rodrigo Leão e deparei-me com o divertido vídeo abaixo:

O que mais me impressionou foi o capricho da produção desse vídeo, feito com a exclusiva intenção de fazer graça, parodiando o jornalismo americano e sua incessante busca por novidades tão inúteis quanto fúteis.

Lembrei-me na hora de um trecho do livro do Clayton Christensen The Innovator’s Dilemma: The Revolutionary Book that Will Change the Way You Do Business onde ele fala sobre inovações disruptivas – aquelas que realmente trazem tecnologias revolucionárias e que mudam o curso de um determinado mercado.

6a00e554b11a2e883301156eda8011970c-150wi Christensen aborda o tema da performance oversupply (superoferta de performance), que é quando a tecnologia atual oferece muito mais do que o consumidor precisa. Exemplos claros disso são vistos na indústria de hardware: iPods que comportam 50 anos de músicas ininterruptas sem repetição, TVs com definições que nossos olhos não conseguem apreciar, impressoras que cospem papel mais rápido do que podemos abastecê-las e carros mais velozes que nossas leis.

Naturalmente alguém paga um preço por toda essa tecnologia que nos oferece melhorias sem uso a uma velocidade astronômica. Isso abre caminho para inovações que têm um desempenho ainda inferior e custam até um pouco mais caro mas que, com o tempo e as economias de escala decorrentes de um uso maior, começam a se aproximar da performance desejada.

6a00e554b11a2e883301156eda8284970c-250wi Exemplo claro disso são as memórias flash, que ainda são mais caras que os HDs tradicionais e têm menos capacidade de armazenamento (em 2006 o custo era US$ 45,00 por GB e esperava-se que em 2009 fosse US$ 9,00 – mas já estamos abaixo de US$ 1,00 conforme mostra o gráfico ao lado).  Hoje elas já se aproximam das reais necessidades do mercado oferecendo, ainda, algumas vantagens que representam avanços muito mais significativos que preço e capacidade: menos peso, tamanho e consumo de energia. Características ideais para equipar os cada vez mais leves notebooks.

Quase dez anos depois de Christensen, os professores do INSEAD W. Chan Kim e Renée Mauborgne deram nova roupagem ao tema em A Estratégia do Oceano Azul, no qual mostram que produtos e serviços inovadores que fizeram sucesso e dominaram seus mercados tiraram essa superoferta de performance e acrescentaram aquilo que realmente fazia diferença para o mercado.

A estratégia do oceano azul Os exemplos vão desde os carros japoneses – pequenos, econômicos, de baixa manutenção e não tão velozes – à rede de hotéis Formule1 – baixo custo porque o café-da-manhã é cobrado à parte e não tem recepção 24h, mas tem camas extremamente confortáveis e são impecavelmente limpos.

Proponho, assim, uma reflexão final à leitora, independentemente de ela encaixar-se no seu trabalho ou em sua vida cotidiana: o que será que estamos fazendo além da conta, exaurindo nossas energias, mas que não tem valor algum para quem recebe? E que coisas simples e, por outro lado, extremamente valiosas estamos negligenciando? Onde está o equilíbrio entre oferta e demanda naquilo que entregamos?

2 pensamentos em “A tecnologia que nos deixa para trás”

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