Cotas nos X-Games

Aaron Fotheringham é um jovem americano que, como os outros da sua idade, adora diversões radicais.

Nascido em Las Vegas há dezoito anos, ele criou uma modalidade esportiva toda própria e vem divulgando sua invenção pelo mundo. Trata-se do hardcore sitting, atividade que começou a praticar quando tinha apenas nove anos de idade. Inspirado por Brian, seu irmão mais velho que gostava de praticar BMX (que na minha época atendia pelo nome de bicicross) na pista de skate, resolveu arriscar algumas manobras no half pipe.

Desde então os dois fazem muito sucesso na Doc Romeo Pro Park, o parque perto de onde moram. Seu irmão Brian pilota uma veloz BMX e Aaron arrebenta em sua arrojada Colours in Motion, modelo Boing, pneus Schwalbe, rodas Bone Wheels e suspensão nas quatro rodas. Quatro? Sim, Aaron é um cadeirante e pilota a mais leve e resistente cadeira de rodas já feita.

Depois de ceder aos insistentes apelos de seu irmão para ir à pista de skate, Aaron não saiu mais de lá. Seus amigos, vizinhos e parentes fizeram uma vaquinha para comprar sua primeira Colours. Primeira e única, porque a partir daí a empresa passou a patrocinar-lhe em troca de suas valiosas dicas para melhorias nos novos projetos.

Após mais alguma insistência, Aaron entrou numa competição da Red Bull. No meio das bicicletas, ainda levou um troféu para casa e, depois disso, nunca mais parou. Pioneiro no esporte, entrou para o Guiness por ser o primeiro a dar um mortal de costas numa cadeira de rodas, como mostra o incrível vídeo a seguir. Preste atenção, também, no emocionado depoimento de sua mãe e no pequeno fã de Aaron, aprendendo sua arte.

Aaron nasceu com espinha bífida (uma má-formação congênita da coluna vertebral), comprometendo seu completo desenvolvimento enquanto criança. Ele começou a usar a cadeira de rodas aos três anos de idade, alternando-a com um par de muletas. Mas a partir dos oito tornou-se um cadeirante definitivamente.

Não há como não lembrar do texto que escrevi recentemente falando sobre as leis de cotas que o governo impõe à sociedade para proteger algumas minorias. Minha crítica foi contra a obrigatoriedade de contratar deficientes físicos, sem que houvesse mão-de-obra qualificada em quantidade suficiente para atender tal norma.

Mas também não há pistas de skate adaptadas às cadeiras de rodas. Não há escolas que ensinem a dar saltos mortais de costas. E talvez nem precise de tanto. Bastariam boas escolas primárias e secundárias, cursos suficientemente profissionalizantes, universidades com instalações apropriadas. Mas se não houver nada disso, OK, vamos ralar um pouco a mais! Esforço, dedicação, sacrifício e, sobretudo, vontade de conseguir, de se superar, vencer as dificuldades!

Pode parecer cômodo para mim, gozando de saúde perfeita, fazer uma reflexão dessas. Mas a faço em nome dos Aarons e dos milhares de deficientes que, mesmo nos países mais desenvolvidos, superam barreiras intransponíveis para os demais. Os pequenos e grande heróis que ultrapassam dificuldades, transpoem obstáculos, agarram oportunidades e personificam exemplos. Não é preciso ser um atleta paraolímpico nem um capítulo no Guiness para isso. Para alguns não é preciso nem uma lei que lhes assegure prioridades, pois sua própria vontade haverá de garantir-lhes as oportunidades.

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FONTES:

Entrevista com Aaron na dizABLED;

Página oficial de Aaron;

Perfil no Red Bull Vegas Am Jam;

Aaron na Wikipedia.

1 pensamento em “Cotas nos X-Games”

  1. Rodolfo, não sei se você sabe mas há uma ajuda do estado para deficientes, que entre outras regras impõe a suspensão do seu pagamento no caso da pessoa passar a trabalhar.
    A princípio esta ajuda e a regra da suspensão parecem corretas, mas a realidade é que esta “bolsa” acaba desmotivando a integração dos deficientes na força de trabalho e consequentemente da própria sociedade.
    Eu descobri isso quando tentei firmar um convenio para recrutamento, contratação e formação de atendentes de Call Center para aqueles deficientes cuja situação os deixam imobilizados em casa, num esquema de “Home Office”, doando computadores, internet banda larga, etc, com uma associação de deficientes e fui alertado pelos diretores que, apesar de ser uma proposta muito interessante que contaria com o apoio deles, dificilmente conseguiríamos candidatos, pois o risco que se percebe é com relação à eventual perda/desistência do emprego versus não se ter mais a bolsa.

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