Do sucesso efêmero de Susan Boyle a José Carreras

Outro dia meu amigo Éder Rabelo me perguntou o que eu achava do repentino sucesso da cantora britânica Susan Boyle, alçada ao status de celebridade instantânea depois que seu vídeo no “Britains got talent“.

Particularmente divido esses fenômenos instantâneos de popularidade em três categorias:

Os Genuínos, como Susan Boyle, quando parece haver algo realmente bom na essência da estrela, seja na sua história de vida, seja no seu real talento. Ao que tudo indica Susan reune ambos: sua voz realmente é belíssima e ela demonstra ser dona de uma intuitiva e apurada técnica. Tanto que já surgiram outras gravações suas na rede confirmando seu potencial, como sugere essa versão de Cry me a river, gravada há dez anos;

Há também os Enganosos, como Paul Potts, não por haver má-fé em suas intenções, mas por causarem espanto e admiração entre os leigos (sem nenhuma conotação pejorativa para o termo, pois estou longe de ser um expert em ópera). Talvez a comovente humildade do rapaz, aliada à indisfarçada arrogância e incredulidade dos jurados, tenham contribuido para que ele conquistasse a imediata simpatia do público em geral.

Paul, assim como Susan, simboliza o triunfo da pessoa comum frente ao preconceito e a antecipada atribuição de valores e, por isso, angaria tanta simpatia, senão pena. Mas esses ídolos efêmeros desaparecem tão rápido quanto surgem. Ninguém mais fala de Paul Potts e só o tempo dirá se Susan Boyle seguirá o mesmo caminho;

Por fim vêm os Fabricados, como Mallú Magalhães, a adolescente que pegou uma carona em Marcelo Camelo, líder de Los Hermanos barbudos. Com sua vozinha púbera e seus trejeitos infantis, a menina parece inspirar-se em Fernanda Takai a graciosa vocalista do Pato Fu. Mallú é um típico caso fabricado pela mídia, quase imposto aos que querem parecer em dia com a modernidade, atualizadíssimos com seus pares, unânimes no vazio hype. Você nem gosta, mas diz que gosta para não ficar fora da manada.

6a00e554b11a2e883301157051e049970b-300wi E assim chegamos a José Carreras, o tenor catalão a quem agradeço por ter despertado meu gosto por ópera. Por já ter ouvido mais árias que a maioria das pessoas, sinto engulhos quando alguém faz rasgados elogios a Paul Potts. Claro que não dá para comparar o tipo de preparação que ambos tiveram, nem os recursos a que cada um deles teve acesso. Mas guardemos as devidas proporções.

Minha admiração por Carreras vai muito além da sua belíssima voz e refinada técnica. Sua história de vida reúne momentos dramáticos e uma incomparável superação. No auge da sua carreira, em julho de 1997, ele decobriu que era portador de uma forma potencialmente fatal de leucemia. Uma completa reviravolta na sua vida transformou a rotina de shows e concertos em intermináveis visitas a hospitais e centros de tratamento de câncer.

Lembro-me de ter assistido uma entrevista sua, durante esse sofrido período onde, emocionado, ele disse “Se existe uma chance em um milhão, então ela tem que ser minha!”. Felizmente foi.

O tratamento incluiu as tortuosas sessões de quimioterapia, radioterapia e transplante de medula. Comovido por seu próprio sofrimento, Carreras decidiu fazer do combate à doença sua particular motivação de vida. Assim, ele concentrou suas energias na Fundação José Carreras de Combate à Leucemia, uma organização sem fins lucrativas dedicada à pesquisa da doença e ao tratamento dos seus portadores, para a qual dedica boa parte dos royalties de suas gravações.

Sua triunfal volta ao cenário lírico mundial deu-se no famoso Concerto das Termas de Caracalla, mundialmente conhecido como o Concerto dos Três Tenores, em 1990. Sob a regência do maestro Zubin Mehta, Carreras promoveu o improvável encontro entre Luciano Pavarotti e Plácido Domingo. Os dois tenores, expoentes maiores da ópera mundial e eternos rivais no palco, reuniram-se às vésperas da Copa do Mundo da Itália para celebrar o retorno do querido amigo. E acabaram promovendo um espetáculo que emocionou multidões.

Selecionei uma desconhecia ária (Il lamento di Frederico, da ópera L’Arlesiana, de Francesco Cilea), que acho que resume bem não só a apurada técnica de Carreras, mas também seu jeito apaixonado de cantar.


(E’ la solita storia del pastore… Il povero ragazzo voleva raccontarla, e s’addormi.  C’è nel sonno l’oblio. Come l’invidio! Anch’io vorrei dormir cosi, nel sonno almeno l’oblio trovar! La pace sot cercando io vò: vorrei poter tutto scordar. Ma ogni sforzo è vano… Davanti ho sempre di lei il dolce sembiante! La pace tolta è sempre a me… Perché degg’io tanto penar? Lei!… sempre mi paria at cor! Fatale vision, mi lascia! Mi fai tanto male! Ahimè!)

Reparem, no minuto 2’56”, após um inspirado pianissimo, o comovente olhar que ele lança aos céus, seguido de um agradecido beijo, feliz por estar vivendo aquele sublime momento.

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Para quem quiser conhecer um pouco mais de José Carreras, acrescento duas entrevistas suas, uma em inglês (Parte 1 e Parte 2) e outra em espanhol (Parte 1 e Parte 2).

3 pensamentos em “Do sucesso efêmero de Susan Boyle a José Carreras”

  1. Mallu Magalhaes é indie, um produto da internet, mais especificamente do myspace e do youtube e uma boa ação guerrilheira.
    Auto-fabricada, seria um termo melhor…

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