Duelo de banjos: comunicação em conflito

Assisti esses dias no YouTube a antológica cena do Duelo de Banjos do filme Amargo Pesadelo (Deliverance, 1972). Trata-se da estória de quatro amigos que resolvem fazer uma aventura, descendo o rio Cahulawassee (na verdade o rio Chattooga), prestes a ser desviado para a construção de uma hidrelétrica.

 

6a00e554b11a2e88330120a571318d970b-800wiO filme é estrelado por Burt Reynolds e John Voight, no auge de suas formas (Lee Marvin e Marlon Brando dispensaram os papéis por se considerarem velhos demais). A produção tinha um orçamento restrito, o que fica evidente na ausência de dublês, mesmo nas perigosas cenas onde os próprios atores, sem seguro de vida ou acidentes, desciam as corredeiras remando (Reynolds até quebrou o cóccix durante a cena em que escorrega por uma cachoeira), ou escalavam penhascos.

Duelo de Banjos é um desses momentos em que duas realidades se confrontam de forma desajeitada e tentam se entender. Até conseguem por uns instantes, mas as diferenças ficam evidentes demais e os breves momentos de harmonia ficam para trás assim que a música termina. Qualquer pessoa que, como eu, tenha crescido passando férias numa pequeníssima cidade do interior sabe muito bem a que me refiro: a sabedoria inata, quase genética e osmótica dos pequenos vilarejos, contrastando com a educação formal, asséptica e excludente das grandes cidades.

A cena carrega sua cota particular de lendas, alimentadas por sua própria concepção. (ATENÇÃO: Algumas revelações a seguir podem quebrar o encanto da cena. Se quiser mantê-lo, pule esse parágrafo.) O enigmático menino, que aparenta algum tipo de problema mental, na verdade é Billy Redden, um estudante local selecionado para compor o elenco. Sua habilidade com o banjo é emprestada de um profissional que fica por trás dele, vestindo uma camisa de quatro mangas.


Encontrei no blog Embracing Conflict uma interessantíssima análise desta cena, como uma analogia dos conflitos de comunicação:

Drew (Ronny Cox) toca com um completo desconhecido, um rapaz aparentemente mudo. O civilizado homem da cidade e o adolescente camponês conseguem improvisar uma música juntos, que se desenvolve através de um processo de pergunta e resposta: o primeiro toca um acorde e é seguido pelo outro. Eles reagem reciprocamente desenvolvendo sobre o tema que acabou de ser tocado. Produzem, assim, a incrível música que hoje faz parte do folclore do cinema. A cena representa um raro momento positivo num filme insuportavelmente obscuro e opressivo.

6a00e554b11a2e883301156f1f89c1970c-320wi No processo de troca de acordes os protagonistas estão efetivamente colaborando um com o outro. Estão se comunicando. Podemos ver nos acordes uma analogia para o diálogo, dizendo o que as palavras não podem fazer. Drew e o menino desenvolvem uma clara relação enquanto tocam.

Durante a cena constrói-se um rapport e um relacionamento únicos. Ambos os músicos começam a relaxar e se entregar. Há um explícito reconhecimento que há segurança em continuar; Drew convida “Vamos, eu te acompanho” e a cena decola. Forma-se um encontro de mentes e culturas com um repentino otimismo que contagia o ambiente.

O momento vai se compondo enquanto Lewis (Reynolds) e seus colegas fazem arrogantes pedidos de ajuda (“Acho que você não me entendeu”). Eles ostentam uma suposta supremacia econômica, cultural e intelectual, o que é demonstrado quando Bobby (Ned Beatty) sussurra “Isso é que é defeito genético”, referindo-se ao menino do banjo. Outro exemplo, desta vez de dominância econômica, acontece quando Bobby sugere que a relação entre os dois músicos pode ser resumida a uma esmola (“Dê uns trocados pra ele”).

Ao final da cena Drew atrapalha-se com a virtuosidade do menino e a euforia criada por eles. Em virtude da relação de confiança estabelecida, ele sente-se seguro em admitir que falhou (“Me perdi”), reconhecendo seu fracasso e demonstrando sua incompetência e falta de habilidade de forma autêntica.

6a00e554b11a2e883301156f1f8a4f970c-800wiNão há respeito ou confiança entre os grupos e não é surpresa, portanto, que a comunicação não funcione. O pedido de ajuda dos visitantes soa impositivo e serve apenas para agravar o conflito. Um dos locais escuta o infeliz comentário de Bobby sobre deficiências genéticas e pergunta “Quem está tocando o banjo?”.

Na seqüência da cena fica claro que enquanto menino se relacionava com Drew, ele representava a barreira entre os habitantes locais e os forasteiros. No decorrer do filme isso parece prever o trágico desfecho, na medida em que a comunidade local dá o troco de forma terrível.

No conjunto, Amargo Pesadelo é um daqueles filmes em que pessoas normais envolvem-se em situações inesperadas e terríveis, tendo que tomar medidas drásticas. Normalmente vivem dilemas morais onde precisam despir-se de seus valores em nome da própria sobrevivência.

3 pensamentos em “Duelo de banjos: comunicação em conflito”

  1. Muito boa sua resenha, assisti a esse filme várias vezes cada vez com um olhar diferente.
    Infelizmente a internet é cheia de bobagens, digo isso porque recebi recentemente um email dizendo que esta cena entrou sem querer no filme , que o garoto era autista e surpreendeu a todos pela forma que tocava e que tudo foi feito de improviso e que os pais do garoto são os que ficam dançando de felicidade e outras bobagens mais.
    As pessoas ficam buscando milagres onde apenas existe uma boa estória e voce conseguiu passar exatamente a realidade da cena ela não pode ser um improviso , pois é a cena que acaba deflagrando tudo que que vai acontecer de importante para o filme.

  2. Please
    I would like to know who composed this soundtrack (I suppose a variant of the American anthem?) and who plays the guitar realy ?
    Kind regards,
    F

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