O pequeno gigante ou o enorme anão?

Tenho acompanhado recentemente a cruzada de Stephen Kanitz em busca de mais transparência (ou menos parcialidade) nas notícias a respeito da atual crise financeira, divulgadas nos jornais de todo o país. Seu principal argumento reside no fato de que alguns números são interpretados erroneamente – seja por desconhecimento do tema ou má-fé mesmo* – ou sob uma ótica desnecessariamente pessimista.

Bicicleta no urso

Em alguns textos comentei sobre nossa dificuldade natural em interpretar números, especialmente em se tratando de estatística e probabilidade. Isso justificaria, em parte, a questão da visão equivocada dos índices. Mas o que explica o pessimismo?

Para Tversky e Kahneman, a tomada de decisões pode ser afetada dependendo da forma como o problema é apresentado, contrariando até os princípios da escolha racional.

Bifurcacao1 O campo da psicologia que estuda a tomada de decisões classifica-as em normativas (as que obedecem puramente à logica) e descritivas (como elas realmente são feitas). Do conflito entre ambas surgem as discussões mais interessantes.

Escolhas de Risco são aquelas cujas conseqüências são desconhecidas. Quando há uma outra parte envolvida deve-se avaliar, também, as respectivas respostas entrando na seara da Teoria dos Jogos. Mas em decisões unilaterais, o principal fator a ser considerado é a postura diante dos riscos envolvidos, isto é, se elas podem causar ganhos ou perdas.

A aversão à perda explica por que, intuitivamente, a dor de perder R$ 100,00 pode ser maior do que o prazer pelo ganho dos mesmos R$ 100,00. Esse comportamento tem reflexo no modo como as pessoas encaram tais situações de risco pois, via de regra, elas aceitam arriscar frente a perdas certas, mas evitam ante à perspectiva de um ganho certo.

Vejam esse exemplo que adaptei de Choices, Values and Frames (American Psychologist, 39:4, 341-350):

Espera-se que durante uma crise financeira 600 mil pessoas vão perder seus empregos. O governo prepara, então, dois programas para combater o desemprego:

Crise1929 .: Com o Programa A, 200 mil empregos serão salvos com certeza;

.: Com o Programa B, há 1/3 de chances de os 600 mil empregos serem salvos.

Embora as duas opções sejam iguais do ponto-de-vista da utilidade esperada (1/3 de 600 mil é igual a 200 mil), o estudo revelou uma clara preferência pelo Programa A (72%). Agora percebam a diferença quando damos uma nova roupagem ao mesmo problema, oferecendo soluções semelhantes:

.: Com o Programa C, 400 mil pessoas perderão seus empregos com certeza;

.: Com o Programa D, há 2/3 de chances de 600 mil empregos serem perdidos.

A sempre atenta leitora haverá de perceber que essas duas alternativas são equivalentes às anteriores, porém com outra redação, uma nova perspectiva - ou um novo framing, como se diz tecnicamente. As respostas apontaram, no entanto, para a opção onde há risco envolvido e 78% preferiram o Programa D.

Anao1 Mas repare que no primeiro caso fala-se em empregos salvos e o segundo em perdidos – o que faz toda a diferença! O mesmo problema, com duas formulações distintas, pode ser visto sob outro prisma e causar reações e tomadas de decisão diferentes. A forma como as perguntas – ou as notícias - são elaboradas tem a capacidade de alterar as reações e as respostas.

Parece difícil acreditar que possamos ser tão facilmente manipuláveis, mas diversos outros estudos confirmam esse fenômeno. De posse desse conhecimento, a forma como se apresenta um problema – ou uma notícia – passa a ser questão de escolha.

Precisamos prestar atenção, portanto, às escolhas feitas pelos grandes blocos de comunicação. Devemos questionar, assim, a real intenção por trás de notícias tão carregadas de pessimismo, exageradamente negativas, sempre que for possível vê-las sob outro ângulo ou interpretá-las de forma diferente.

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* Essas hipóteses são minhas.

4 pensamentos em “O pequeno gigante ou o enorme anão?”

  1. Bom, ambos os comentários são muito apropriados. Se considerarmos que a Heurística é um “conjunto de regras e métodos que conduzem à descoberta” ou uma “metodologia, ou algorítmo usada para resolver problemas que, embora não rigorosos geralmente refletem o conhecimento humano e permitem obter uma solução satisfatória” (Aurélio, 1999, p. 1040), então “framing” faz parte desse conjunto, isto é, “framing” é heurística.
    Por outro lado, o efeito manada (“herding” ou “herd behavior”) é “a tendência do indivíduo em imitar as ações (sejam elas racionais ou irracionais) de um grupo maior” (http://hbrbr.com.br/index.php?artigo=4) e seria uma conseqüência de uma “tomada de decisão afetada pelo enunciado do problema” – que foi o fenômeno abordado nesse texto.
    Ou seja, o que eu discuti aqui foram os comportamentos coletivos negativos (efeito manada) causados pela forma como os problemas têm sido apresentados pela mídia nacional e internacional a respeito da atual crise financeira (“framing”/heurística). Assim, o efeito manada é o resultado da aplicação da heurística, mais precisamente do “framing”.
    Faz sentido?
    Abraços, Rodolfo.
    P.S.: vejam aqui uma descrição científica do efeito manada, à luz dos experimentos de Solomon Asch: http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2009/06/experimentos-em-psicologia-a-unanimidade-burra-de-solomon-asch.html

  2. Fórum Mundial de Negociação HSM – William Ury, parte II

    No texto anterior começamos a analisar as etapas de uma Negociação, dentro do modelo proposto por William Ury, no Fórum Mundial de Negociação organizado pela HSM. Depois de passar um tempo na VARANDA, analisando a situação com uma visão panorâmica……

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