Total falta de estilo

Há muito tempo eu não via um anúncio de TV tão carregado de preconceitos, futilidade e mau-gosto. Confesso que já havia visto o filme do novo Fiat Stilo BlackMotion algumas vezes, mas ainda não havia me tocado em relação ao seu enredo. É bem provável que a leitora também não tenha percebido nada de errado ainda, portanto, reveja-o mais uma vez antes de continuar:

 

Bom, se a leitora ainda não se deu conta, vamos analisar o vídeo em detalhes:

Um casal bonito e feliz pára num sinal de trânsito a bordo de um Chrysler Stratus Cabriolet. Ao seu lado emparelha o novo Fiat Stilo BlackMotion. Ao fundo, um blues entoa uma sugestiva melodia falando em ardente desejo.

O possante recém-chegado atrai a atenção de ambos, que passam a admirá-lo. A câmera concentra-se nos detalhes do novo modelo que, a rigor, é igualzinho ao que foi lançado anos atrás, com alguns detalhes extras de uma série limitada. O homem lança olhares indefinidos de indiferença e desprezo – mas suspeito que a intenção era demonstrar inveja.

Eis que, não mais do que de repente, abre-se o vidro do passageiro e quem encontramos dentro do carro? Quem, quem? A mesma mulher do Stratus!

A menos que seja sua irmã gêmea, a outrora feliz moçoila aproveita-se da distração de seu ex-companheiro, sai do carro sem que ele perceba e entra no outro, também despercebida. Em exatos 12 segundos (tempo decorrido entre a chegada no rival e a abertura do vidro) ela vê o carro, decide trocar o atual acompanhante pelo desconhecido motorista e já aparece sentada no outro automóvel. Ela ainda tem tempo de lançar um olhar de "o que eu posso fazer?" e "adeus, trouxa!".

Fecha o filme, ainda, a infeliz frase: "Para poucos e maus". O "mau", aliás, nem aparece. Coloque-se em seu lugar aquele que precisa de um carro bonito para suas conquistas amorosas (ou apenas sexuais?). Os que dependem de símbolos de status para comprar suas companhias. Aqueles que têm personalidade inversamente proporcional à sua conta bancária (o carro nem é tão caro assim) e carisma medido em cilindradas.

Deixando os eufemismos de lado, a mensagem subliminar é que com esse carro você conseguirá pegar qualquer maria-gasolina na rua, sem que ela precise sequer te ver, independentemente de ser comprometida ou não. Não é uma graça? Um primor de sensibilidade?

O filme "Sedução" é culpa da Leo Burnett e pretende criar um clima de humor e sex appeal, mas apenas reduz a mulher ao lamentável papel de troféu do dono desse automóvel. Pelo menos até aparecer outro carro melhor… Isso se você considerar um Fiat melhor do que um Chrysler.

Uma representação fútil, volúvel e prostituida do sexo feminino. Incrível notar que entre cliente, agência e produtora do vídeo há mulheres nas equipes!

Posso estar enganado, mas acho que grande parte do público da Fiat é composta de mulheres, especialmente da linha Pálio. Talvez isso não pegue bem…

15 pensamentos em “Total falta de estilo”

  1. Rodolfo
    Na minha opinião atualmente os piores comerciais são de automóveis. Ou enfatizam um motorista agressivo no trânsito ou são em excesso materialista.

  2. Rodolfo.
    Talvez quem tenha razão seja o Oliviero Toscani, responsável pelas tão famosas e um tanto quanto apelativas campanhas da Benetton dos anos 90, que em seu livro: “A publicidade é um cadáver que nos sorri” diz que a propaganda não se reinventa, é sempre mais do mesmo, trata o consumidor como um imbecil e não aponta nenhuma solução pra um problema, a não ser que seja a compra de mais um produto.
    Há um capítulo dedicado especificamente aos carros no livro, se não me engano o título é: “Motor 1000 cavalos com 4 burros a menos”, que se refere ao não incentivo de direção defensiva, motoristas alcoolizados e outros cuidados que motoristas deveriam ter. Sei que aqui o foco é outro, mas, apesar da picaretagem de Toscani, há outros pontos que se é preciso concordar.
    Vide o belo exemplo que disse a respeito e nem precisa comentar das pérolas das campanhas da Kaiser!!!
    Um abraço,
    Eder

  3. Rodolfo,
    Achei o comercial bem legal. Um comercial de carro precisa é mostrar o carro de forma visualmente atraente, já que é fato notório que ninguém compra carro por causa da idéia do comercial. Bilionários russos talvez.
    A idéia num comercial de carro serve simplesmente pra fazer você prestar um mínimo de atenção no design de produto e pra segmentá-lo pra quem quer que seja que as montadoras queiram que compre o carro — de modo a manter o seu portfolio de produção adequado às demandas de mercado.
    Vamos aos exemplos: o “peixe-cão” da SpaceFox. Um comercial de roteiro emaconhado visando agradar consumidores idem. A VW tinha na Parati um carro “jovem” adorado pelos surfistas. A SpaceFox caiu no segmento família (Picasso, Zafira,FIT, Meriva etc). Se tem uma coisa que um surfista evita é “família”. A VW deve aparecer logo com uma minivan no seu portfolio pra atender a esse público e por isso começou a rejuvenescer o Space Fox.
    No caso do Stilo, que acho que a Fiat pode estar exagerando tanto na masculinidade da campanha porque ele deve estar sendo muito comprado por mulheres o que estaria tirando-o do nicho desejado pela montadora. Aí eles pisam fundo no machismo pra espantar as meninas. O Classe A da Mercedes, a Pajero TR4 e mesmo o Uno sofreram muito com o estigma de “carro de mulher”.
    É como aquela piada em que os noivos estão no altar e o padre pergunta pro rapaz: “Você aceita esta mulher como sua legítima esposa?” E o rapaz responde: “Não só aceito, como também quero dizer que eu não sou viado.”
    Finalmente, a Leo Burnett, que é uma agência excelente, comandada pelo elegantíssimo e nem um pouco machista Ruy Lindemberg (pô é o cara que criou o “Bonita camisa Fernandinho”) nunca subestimaria a sua inteligência com uma proposta de venda como “Compre o carro: coma a mulherada.”
    Eles só criaram um pretexto dramático pra ficar mostrando cenas do carro, que como você mesmo diz, só tem uns detalhes a mais. No meu entender a graça é que o “carro” roubou a mulher do outro cara. Se fosse um comercial de ração e o cachorrinho levasse embora a gostosa que namora o fortão talvez fosse mais engraçado.
    Desculpe a discordância mas é na diversidade que o Brasil se agiganta.
    abraço do seu leitor e fã
    Rodrigo

  4. Perfeita análise, Rodrigo!
    O posicionamento do produto junto a um público-alvo específico é tarefa delicadíssima, como você salientou. O exemplo da SpaceFox é ótimo, bem didático e ilustrativo! Sem denegrir a imagem do “peixe-cão”…
    Não discuto a competência dos criadores, especialmente depois da lembrança do Fernandinho! Sempre que alguém elogia minha camisa eu respondo “Muito obrigado, a do senhor também é linda”! Ponto pro Ruy e pra US Top.
    A proposta de comprar o carro e comer a mulherada é tentadora – e sempre vai vender, guardadas as devidas proporções. Só é preciso controlar a dose – já que é a dose que separa, muitas vezes, o remédio do veneno. Até porque você só leva a mulherada enquanto não aparecer um carro melhor.
    Posso estar viajando um pouco no tema, mas proteger o produto de um público-alvo que não aquele que você imaginou pode sair pela culatra e criar estigmas. Ou, pior ainda, criar antipatia à marca como um todo, não só ao modelo. Imagine que as mulheres sintam-se ofendidas com essa mensagem e boicotem a Fiat… Mas aí já seria um tanto quanto conspiratório.
    De qualquer forma, fico no aguardo de uma opinião feminina para o tema…
    Grande abraço,
    Rodolfo.

  5. Parabens Rodolfo e obrigado por seu comentário,
    Aqui é o Ari do blog Publicidade Viva. Realmente você está coberto de razão – este tipo de comercial valida tudo o que os críticos da atividade publicitária comentam, é propaganda de um profundo mau gosto – um tiro no próprio pé. O que é vergonhoso é que, antes de pensar em vender um produto – e acho que o comercial, de fato, nâo vende o carro tão bem assim – devemos pensar em nossa responsabilidade como cidadâos, nos aspectos éticos da comunicação. E o filme vai mais longe ao ser irresponsável com a imagem e com os investimentos do cliente. É bom saber que existem mais pessoas que possuem uma análise profunda sobre o tema. Grande abraço!

  6. O objetivo do anúncio pode até ser vender carros pra machos. Só que a idéia foi fraquíssima, sinto aos que discordam. Custei a entender o anúncio, via na tv e não sacava o que se passava. Até ver novamente na internet e entender que a maria-gasolina pulou pro Stilo. Péssimo gosto. Ótima campanha pra atrair pseudo-bacanões que querem desfilar com carro da Fiat e comer mulheres fúteis. Péssima pra todo o resto. Bateram a cabeça.
    Fiat eu não recomendava antes dessa campanha. Agora, muito menos, rsrs

  7. Rodolfo, você tem acesso a algum dado mais preciso sobre como andam as vendas deste carro? Vou ver se pesquiso algo por aqui. Fiquei curioso pra saber como anda o “sucesso” do “papa-puta”.
    um abraço.

  8. Caro Pablo, não tenho acesso aos números, pois tanto a Fenabrave quanto a Anfavea só divulgam dados consolidados do modelo. Aqui você pode ver uma planilha Excel com os números: http://www.anfavea.com.br/tabelas/autoveiculos/tabela01_producao.xls
    Ainda assim, dá para ver que o Stilo é o sexto na sua categoria de Hatch Médio perdendo (na ordem, a partir do líder) para seu primo mais comportado Fiat Punto (vendeu mais que o dobro de Stilos), Astra, Golf, Focus e Peugeot 307 (dados acumulados até abril/09).
    Das pouco mais de duas mil unidades de Fiat Stilo vendidas até março desse ano, quantas terão sido do BlackMotion…?
    Abraço, Rodolfo.

  9. Vou copiar minha opinião assim como fiz em outro Blog
    “Eu chamo da propaganda da Maria Gasolina, achei machista e coloca a mulher mais uma vez como volúvel e fútil. Talvez tenham feito para esse público de adolescentes desaculculturados que aplaudem o comercial…Como eu fiquei perplexo com o comercial coloquei no Google ,achei esse blog (o outro) e suspirei aliviado vendo que tinham pessoas com inteligência que compartilhavam a mesma idéia…Quanto as pessoas com Sidrome de Deficiência no Intelecto, que gostaram, sinto dizer…São pacientes terminais…Eles miraram no que viram e acertaram no que não viram, ou seja maculou um nicho de mercado que são as mulheres, achei de extremo mau gosto, e mesmo que o veículo vise um nicho específico, antes de tudo vem a marca FIAT que é para todos os segmentos, e ninguém esquece disso.

  10. Pois é, Balu, acho que essa do Fusion é uma canhestra tentativa de revanche ao machismo. Em seus sonhos o cara quer pegar a bonitona e atrela o seu sucesso profissional a conseguir realizar a façanha. Ela, por sua vez, coloca-o no banco do motorista.
    É uma piada engraçadinha, mas o Fusion não deve ser voltado para o público feminino – ainda mais tão jovem assim. E também não sei se a pessoa compra um carro pensando em colocá-lo na mão do motorista.
    No filme, o símbolo de status está em ter um motorista. E um motorista pode dirigir qualquer carro, não necessariamente um Fusion.
    Resumindo: o comercial é criativo, mas entendo que um tanto distante dos seus objetivos.
    Ah! E tem um detalhe final sobre uma inconsistência do anúncio: daqui a cinco anos você vai achar o máximo andar num carro modelo 2009…?
    Abraço, Rodolfo.

  11. Esse comercial é realmente sem muita criatividade. Se eu fosse o concorrente, eu faria o seguinte comercial de um carro baseado na sua relação custo benefício:
    O comercial mostraria todos os atrativos do carro, com um cara careca, barrigudo e uma mulher fogosa, chata e que o despreza ao seu lado, o criticando. Daí ele pára ao lado de uma Ferrari e a mulher dele o troca pelo outro motorista. O motorista careca sorri, liga o som e fecha os olhos. Fim do comercial e a chamada: “para aqueles que só querem paz”. O sentido do comercial seria trabalhar a simplicidade do carro, seu custo benefício. Além disso o cara se livrou de uma… Outras chamadas seriam: “por tão pouco você nem precisou de um divórcio”; essa é para as mulheres: o cara só falando asneiras a troca por uma loira num Porsche: “nem o horóscopo é tão eficiente”; “enfim, um carro no qual não cabem malas”; “enfim, um carro que te entende”; “X, com ele você não precisa fofocar com as amigas”; “achar sua alma gêmea nunca foi tão fácil”.
    Abs

  12. Criatividade sem apelação

    O post do infeliz anúncio daquele carro cujo nome não digo (mas seu lema é ande-num-e-pegue-as-interesseiras) rendeu comentários solidários, alguns mais exaltados e outros até defendendo a idéia central do filme. Não adianta! Para mim é o auge da canal…

  13. E mulher é objeto? Teria que ter a revanche caro Rodrigo…
    Tá um debate sobre a velhinha que manda a sobrinha faze só sexo mesmo…
    Era bom um post sobre o assunto rodolfo!

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