A estratégia emergente de “Falcão Negro em Perigo”

6a00e554b11a2e8833014e886f95fb970d-150wiEu havia iniciado esse texto como mais um sobre filmes de que gosto, mas uns trechos de The Innovator’s Solution (de Clayton Christensen, Harvard Business Press, 2003) sugeriram uma nova abordagem ao espetacular Falcão Negro em Perigo (Black Hawk down, 2001).

A atual teoria de negócios demonstra que, frequentemente, a estratégia elaborada por uma empresa para determinada situação precisa ser substituída por um novo direcionamento, seja em função de mudanças no ambiente competitivo, ou por contingências ou oportunidades não previstas inicialmente. Planos criteriosamente elaborados raramente conseguem vislumbrar todas as alternativas que a vida real apresenta.

Falcão Negro em Perigo baseia-se exatamente uma situação dessas, ocorrida durante a intervenção militar americana na Somália. No início da década de 1990 uma guerra civíl assolava o país. Mohamed Farrah Aidid era o líder da facção tribal que assumiu o controle do país após um golpe de Estado. Depois de destituir o ditador Mohamed Barre numa sangrenta guerra civil, Aidid iniciou seu próprio período de terror. Enquanto 300.000 civis morriam de fome, sua milícia confiscava os alimentos enviados pela comunidade internacional.

Vinte mil marines são enviados, então, para tentar garantir a segurança do país, enquanto buscava-se o restabelecimento de um governo mais sólido. Mas quando os fuzileiros navais se retiram em seguida, Aidid declara guerra às forças de paz da ONU, reiniciando o massacre à população. Em agosto 1993, tropas de elite americanas são enviados à capital Mogadíscio para derrubar o novo ditador e restaurar a ordem. Prevista para durar três semanas, a operação tem seu mais trágico desfecho seis semanas depois, nos dramáticos acontecimentos brilhantemente narrados por Ridley Scott.

O filme foi um pouco subavaliado pelo público, depois dos estrondosos sucessos de Hannibal e do multipremiado Gladiador, do mesmo diretor. Foi contemplado com os Orcars de Melhor Edição e Melhor Som – aliás, beeem melhor e se você tiver um bom som Surround, você e seus vizinhos vão sentir-se no front apreciando a nervosa trilha sonora composta por Hans Zimmer.

6a00e554b11a2e88330115708f3f2d970b-250wiFalcão Negro em perigo é um filme de macho – não tem uma mulher sequer no elenco – mas tem um apelo feminino no seu elenco de jovens galãs. Josh Hartnett faz o Sargento Eversmann, um jovem recém-saído dos treinamentos pego numa situação extraordinária, tendo que agir como líder de um pelotão de meninos que jamais dispararam uma arma contra um alvo vivo.

Ewan McGregor é o sossegado datilógrafo que entra de gaiato quando o operador da metralhadora machuca sua mão. O sempre psicopata Tom Sizemore comanda as forças em terra, a bordo dos imponentes jipes Hummer, juntamente com o insondável William Fichtner.

Em 3 de outubro de 1993, numa operação autorizada pelo próprio ex-presidente Bill Clinton, as tropas são enviadas para prender dois militares somalis que comandavam os exércitos de Aidid. A belíssima cena dos helicópteros indo para o combate é a calmaria que antecede a tempestade.

São aeronaves reais usadas no combate original e os próprios pilotos da 160a SOAR, (Special Operations Aviation Regiment – Regimento Aéreo de Operações Especiais) que estiveram na Guerra da Somália e que dão mais realismo ainda a este filme baseado em fatos reais.

O planejamento da ação militar é milimetricamente cronometrado e, claro, tudo dá errado. Orlando Bloom, sem seus poderes voadores de elfo, é o juvenil que despenca do helicóptero logo no início da operação (os demais soldados que fazem a cena de rapel, descendo da aeronave, são combatentes verdadeiros de um pelotão de Rangers), causando a queda do aparelho logo depois e dando início à uma luta desesperada para resgatar sua tripulação.

Nesta segunda e inesperada operação – a estratégia emergente – outro helicóptero é abatido e a trama concentra-se nos pilotos, sobreviventes encurralados por uma multidão selvagem e enfurecida. As cenas da guerrilha somali cercando os soldados são apavorantes.

Toda a operação é coordenada via satélite (algumas das cenas do filme são reais, da verdadeira guerra da Somália filmadas pelos satélites), mas nem toda a tecnologia do mundo ajuda contra fanáticos armados até os dentes com poderosos rifles AK-47, dispostos a morrer – e de fato eles morrem feito moscas. Mas há muitas moscas numa guerra de miseráveis.

No saldo final de uma operação – que não deveria durar mais do que trinta minutos mas estende-se por dezoito violentas horas de ininterrupto combate – dezenove soldados americanos são mortos, além de mais de mil somalis.

6a00e554b11a2e88330115708f4037970b-320wiApós feroz batalha sequência da queda do helicóptero, o piloto sobrevivente, Mike Durant, é feito refém e levado como troféu de guerra. Um helicóptero sobrevoa a cidade bradando pelos alto-falantes: “Mike Durant, você não será deixado para trás!”, levando ânimo e esperança ao companheiro capturado. Ele seria libertado onze dias depois.

Quanto tudo termina e eles estão retornando à base, não havia lugar para todos nos jipes e muitos tiveram que voltar a pé (desastrosa alocação de recursos), no que ficou conhecido como Mogadiscio Mile.

Fazendo juz a seu Hulk, Eric Bana é a verdadeira máquina de guerra (num papel que deveria ter sido de Russel Crowe, que declinou do convite por estar ocupado com as gravações de “Uma mente brilhante”. John Nash agradece). Sem respeito à hierarquia ou a seus colegas, é a quem se recorre quando a coisa aperta. E em Black Hawk Down a coisa aperta de verdade. Sua última fala lembra a Eversmann que é segunda-feira e uma nova semana está começando. De que importam os dias da semana numa guerra?

Muito de acordo com as teorias de Christensen, percebemos como os líderes de pelotão – tal como os integrantes da média gerência de uma empresa – precisam se readaptar às novas condições de batalha. E como suas reações a um ambiente imprevisível redesenham o curso da operação num ambiente de mudança.

6a00e554b11a2e88330115708f4037970b-320wi É interessante notar como se busca o objetivo pretendido – radicalmente alterado de prender oficiais somalis para resgatar os companheiros capturados – através da distribuição de recursos (soldados, equipamentos e munição), obedecendo aos processos da corporação (protocolos militares, hierarquia, planos de combate, leis e tratados de guerra) em consonância com seus valores (“no one is left behind”, “respect the rules of engagement: no one fires, unless fired upon”*, proteger os civis) espelhando o funcionamento de uma empresa moderna. Ou será o contrário, a empresa espelhando o exército?

Como filme, Falcão Negro em perigo é um espetáculo bélico. Como disse antes, é um filme pra macho… Não é como os demais filmes de guerra, como os ótimos Platoon e O resgate do soldado Ryan, onde há uma história de fundo e algumas cenas de batalha. Falcão Negro é uma batalha e algumas cenas de história por trás. Mas para quem gosta de filmes de guerra, é um prato cheio, recomendadíssimo!

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* “Ninguém é deixado para trás; Respeitem as leis de combate: ninguém atira sem que eles tenham disparado antes.”

5 pensamentos em “A estratégia emergente de “Falcão Negro em Perigo””

  1. É um alento FINALMENTE ver alguém abertamente rasgar elogios pra esse filme!!!! O lema “no one is left behind” foi pela 1a vez colocado no cinema americano de guerra depois de MTO tempo! Se tiver tempo (estou diariamente usando lan house sem net ainda) procure um GENIAL artigo no Estadão na época do lançamento do filme no Brasil (2001? 2002?)! Essa tática eles não usavam havia MTO em guerras, vide Vietnã e WWII. E a cavalaria chegando ao final é sensacional!!!
    O projeto do helicóptero (o Black Hawk do título) foi abandonado e refeito completamente porque ele não sobreviveria em combates em áreas urbanas como tiveram que descobrir na marra….
    Parabéns pelo texto!
    Abrax

  2. A atual teoria de negócios demonstra que, freqüentemente, a estratégia elaborada por uma empresa para determinada situação precisa ser substituída por um novo direcionamento, seja em função de mudanças no ambiente competitivo, ou por contingências ou oportunidades não previstas inicialmente. Planos criteriosamente elaborados raramente conseguem vislumbrar todas as alternativas que a vida real apresenta.
    Não sou um especialista no assunto, mas queria comentar que a idéia de linha reta, em qualquer aspecto da vida, me parece um tanto fraca.
    Um exemplo que colho regularmente é de pessoas que se inspiram e tentam repetir modelos de tomada de vida por empresários de sucesso, lendo suas biografias. Geralmente as pessoas possuem a crença de que traçar um objetivo x, que por sua vez se apresentou como meta x com resultado y de alguém, é algo perfeitamente e coerentemente reproduzivel. As variáveis, na perspectiva individual, são tão numerosas que frequentemente o leitor não se dá conta que ele não é o autor da biografia que leu. Que a linha do outro é inevitavelmente tão particular quanto a sua. Repito sempre que nesta perspectiva, isto provoca no leitor não crítico, uma espécie de certeza de insuficiencia individual e nunca se repensa as diferenças individuais. Certamente existem pessoas que podem se dedicar ao dinheiro, a ciência, etc e alcançar suas metas. Mas geralmente isso implica numa exclusão de outros interesses e desejos pessoais. Essa exclusão não é o desejo de todos, mesmo dos que tentam reproduzir as trajetórias que lhes inspiram.
    Como leio também sobre economia, queria apenas fazer uma analogia com um aspecto do “Behavioral Finance”. De certa forma é o que em português chamamos de aposta erronea. Um erro de probabilidades claro e influênciado psicológicamente. A aposta radical e não critica, em metas e métodos, representa apenas uma distorção individual conservadora, (própria de nosso universo psíquico) das probabilidades e da boa observação. Por isso, acredito também que: “Planos criteriosamente elaborados raramente conseguem vislumbrar todas as alternativas que a vida real apresenta.” Planos criteriosamente estipulados são justos, mas não precisam ser ignorantes ou inflexiveis. Estes estão sempre próximos psiquicamente de ideologias e de suas desilusões com elas, grande abraço.

  3. O mais ilustrativo deste filme ao meu ver é a fala do líder somali capturado no início. As colocações dele mostram a inutilidade e inoportunidade da presença reguladora estrangeira. Força compreender a inutilidade das ações e dos propósitos de toda aquela ação militar, que o darwinismo africano é uma ordem natural potencializada na predação de uns pelos outros pelas armas modernas. O desfecho soa como um puxão de orelhas, não se metam onde não foram chamados.

  4. Falar a verdade sempre vai doer nos americanos em se tratando de derrota em guerras reais e não em vitórias de mentirinha em filmes fictícios!!!!!!

  5. O filme Falcão negro em perigo é tecnicamente impecável, porém me entristece ver que as pessoas são incapazes de entender o que representa na verdade está guerra. Ela demonstra a paranóia americana em tentar intervir em toda e qualquer situação de desinteligência no mundo como se tivéssemos os escolhidos como nossos protetores.

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