Criatividade sem apelação

post do infeliz anúncio daquele carro cujo nome não digo (mas seu lema é ande-num-e-pegue-as-interesseiras) rendeu comentários solidários, alguns mais exaltados e outros até defendendo a idéia central do filme.

Não adianta! Para mim é o auge da canalhice, o supra-sumo do mau gosto, um monumento à vulgarização da mulher e sua exploração como troféu, bibelô sexual do homem. Talvez por isso eu tenha ficado surpreso que a maioria dos comentários a respeito tenha sido feito por homens – apenas uma mulher em meio a seis varões.

Não costumo assistir muita TV, mas acho que todas as vezes que vi o infame foi em intervalos de jogos de futebol. Isso mostra um bom targeting da agência/anunciante, pois atinge seu público-alvo. Talento desperdiçado, no entanto. Isso pode explicar a ausência do público feminino e sua conseqüente indiferença.

Fato é que muitos comerciais apelam para baixarias semelhantes, especialmente em relação às mulheres, quando falam de carros e cerveja. Felizmente essa não é a regra e, por isso, separei dois bons exemplos de como é possível falar de produtos tipicamente - mas não exclusivamente – masculinos.

O primeiro é de cerveja, da Skol, e restringe-se ao universo masculino. Apesar de altamente estereotipado, não agride e retrata algumas situações que todos nós, homens e amantes de futebol, já vivemos de alguma forma.

O comercial aborda, de forma explícita, as dores e as delícias de torcer por um time. O exagero das situações torna-as cômicas sem ofender. As figuras femininas retratadas são noivas e namoradas abandonadas e esquecidas – mas em nome do futebol, não da cerveja – o que é, no meu entender, caricato antes de preconceituoso.

Curiosamente o momento que acho mais engraçado é quando xingam a auxiliar do juiz (0:50") mas, mesmo assim, sem a conotação sexual do termo "safadinha". OK, até pode haver duplo sentido no contexto, mas se fosse um homem ele seria chamado de "safadinho", porque o diminutivo é uma alusão ao termo "bandeirinha". Vejo, ainda, um reconhecimento de que a mulher está ocupando mais este papel antes restrito aos homens.

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E, de propósito, deixei o melhor para o final. Um primoroso anúncio de automóvel. E um senhor automóvel! Sem mais delongas, o mais sutil e elegante anúncio que vi ultimamente:

 

Encontrei esse delicioso anúncio no interessante blog do Vinicius Postai – que por sinal tem outros vídeos igualmente surpreendentes e ótimos textos.

Desde a trilha sonora altamente sugestiva com um bem bolado jogo de palavras – "for me, for me, for me, formidable" na voz de Charles Aznavour – até o simpaticíssimo e carismático "jardineiro", o anúncio do Mercedes CLK-Class explora um tema imbatível: esse carro é um forte desejo desde criancinha.

Há um outro conceito subliminar mais oculto que o torna ainda mais admirável – ou talvez seja coisa da minha cabeça – mas deixarei que a leitora decida. Reparem que o menino põe a mão na massa! Ele aprende como as plantinhas nascem e crescem e, na ingenuidade do seu raciocínio, isso deve se aplicar às demais coisas. Então resolve plantar seu carrinho (achei que podia ser uma miniatura do pai, mas dá para ver outros carrinhos na sua cabeceira quando ele desliga o depertador) para ver se cresce um igual.

Seu próprio esforço (ele acorda cedo!), seu próprio trabalho, sua própria recompensa!

5 pensamentos em “Criatividade sem apelação”

  1. Parabéns Rodolfo, bons comerciais merecem elogios (como toda boa idéia merece), já os péssimos, merecem suas críticas (afinal, são todas muito bem embasadas). Grande abraço. Ari Dias

  2. Caro Rodolfo,
    acompanho seu blog e seus raciocínios.
    Será que vc faria um dos seus fantásticos textos por sugestão?
    O tema seria sobre o perigo da camisinha usando a idéia de que a consequência (de se contrair AIDS e outras doenças) é muito grave.
    Quero dizer… usando o princípio básico do livro The black Swan fazer uma crítica à propaganda oficial da camisinha (como esta:


    Ou seja, nas mais otimistas probabilidades a chance de engravidar é de 3% usando camisinha (corretamente). Quem estaria disposto a aceitar arriscar a vida numa roleta russa com 3% de chance de morrer? Milhões caso fosse imposta a inverdade que camisinha é infalível.
    espero que goste do tema e faça um daqueles posts fantásticos,
    grato,
    Julio Lins
    http://www.acarajebox.blogspot.com
    http://acarajebox.blogspot.com/2009/05/essa-e-para-quem-gosta-de-brincar-de.html#links

  3. Ola Rodolfo, acompanho seu blog e concordo com muitos pontos que são levantados por você e também gosto muito das ótimas dicas de leitura.
    Mas em relação a propaganda do Stilo que em sua opinião é de muito mal gosto, tenho a seguinte visão:
    1º. Stilo, assim como o Golf são carros de quem quer “pagar de playboy”, portanto a propaganda está totalmente de acordo com seu público alvo, isso é indiscutível.
    2º. Se desde que a Fiat lançou esse carro não alterou praticamente nada do seu design, apenas fez marketing lhe atribuindo edições limitadas, já é sinal de que não há muita criatividade por trás dele como um todo;
    3º. Francamente, quem compra uma mercedes está muito mais interessado em status do que quem compra um carro nacional, por pior que tenha sido o apelo da propaganda para cada modelo.
    Mesmo assim não discordo da sua idéa central de que as propagandas devam ser criadas com mais criatividade do que baseadas em preconceitos e esteriótipos, mas isso depende do produto em questão…

  4. Para mim esta discussão é muito importante, devemos primar sempre pelo bom gosto e pela pertinência dos conceitos, pois tudo o que veiculamos pode tornar-se parâmetro para produções futuras.
    Abaixo o “Pagando bem que mal que tem!”

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