Os limites da Intuição – final: o que faz a diferença?

Nos dois textos anteriores (Os limites da Intuição – parte I: Deep Blue, a máquina e Os limites da Intuição – parte II: Kasparov, o homem) apresentei os dois competidores que mediram forças para apontar, numa série de jogos de Xadrez, que tipo de inteligência seria superior à outra: se a artificial ou a natural.

Apesar da aparente frieza que a mídia leiga tenta atribuir ao Xadrez, nem de longe o jogo resume-se a um asséptico combate. Quando duas mentes medem forças em competições de alto nível, lutam não só suas capacidades como jogadores, mas também suas emoções, fraquezas e vaidades. O Xadrez tem um longo histórico de guerras psicológicas e quando você sabe que seu adversário está fantasiando algo, você trata de incentivá-lo ainda mais.

6a00e554b11a2e883301156f50425f970c-320wiQuando Kasparov derrotou Karpov em 1985 e sagrou-se o mais jovem campeão do mundo, eles já haviam jogado pelo menos uma centena partidas anteriormente. Some-se aos outros jogos de Karpov com outros enxadristas e pode-se dizer que Kasparov conhecia a fundo seu adversário. Estava ciente de suas preferências, sabia seu modo de pensar, previa suas reações. Não havia nenhum tipo de ilusão em relação ao jogo do oponente.

Mas ele jamais vira um jogo de Deep Blue. Não sabia o que estava enfrentando. Enquanto isso, seu adversário tinha um banco de dados com 700 mil partidas – onde estavam incluídas todas as que ele, Kasparov, havia jogado. Além disso, havia um acordo de a IBM entregar aos juízes, após o match, todos os logs dos jogos, que desvendaria o processo decisório empregado pelo Deep Blue a cada lance – o que não foi cumprido.

Outro interessante aspecto em relação a esse vasto banco de dados, é que ele contém tudo o que se sabe sobre teoria de aberturas – um conhecimento acumulado, diga-se de passagem, por jogadores humanos. Assim, o computador pode jogar entre dez ou quinze lances sem qualquer uso do seu fabuloso poder de cálculo, apenas recorrendo ao repertório armazenado – algo como ir de carro nos primeiros dez quilômetros de uma maratona.

Sem o auxílio desse conhecimento o Deep Blue seria consideravelmente mais fraco. É óbvio que essas informações estão disponíveis também ao jogador humano, mas sua capacidade de memória e velocidade de navegação pelos dados são incomparavelmente menores do que as de um cérebro eletrônico.

6a00e554b11a2e883301157065c6d9970b-300wi Então o que pode fazer um ser humano contra uma máquina, num jogo onde todas as possibilidades podem ser antecipadas? Pois é aí que está o maior engano! As dezesseis peças de cada jogador combinam-se de formas impossíveis de serem calculadas no atual desenvolvimento da informática – sem levar em consideração se um lance é melhor que o outro ou não. Consideremos que para cada lance existam, em média, trinta possibilidades de resposta – o que resulta em 3020 seqüências em apenas 20 lances, ou algo como 3,5 x 1029 variações.

São problemas computacionalmente intratáveis, nas palavras de Gigerenzer, onde a solução perfeita está fora de alcance, tornando a intuição essencial. Os números tornam-se astronômicos de forma muito rápida e, mesmo na espantosa velocidade de um cérebro com a capacidade do Deep Blue, seria preciso 55 trilhões de anos para calcular vinte lances na frente e escolher o melhor. Considerando que o Big Bang ocorreu há “apenas” 14 bilhões de anos, é uma façanha e tanto que jogadores profissionais realizem 40 lances em duas horas e meia!

A sutileza é que não é preciso calcular todas as trinta possibilidades em cada lance – apenas algumas mais prováveis e que façam mais sentido no momento. E é exatamente essa distinção que o computador não faz a priori.

Imagine, por exemplo, que o Kléberson drible dois zagueiros adversários, chegue à linha de fundo e precise escolher entre para cruzar para o Obina ou rolar para o Josiel, ambos dentro da área (beleza de opções, hein?). A diferença é que um computador consideraria outros lances bizarros também, como chutar direto ao gol, tocar pela linha de lado ou até mesmo atrasar a bola para o seu próprio goleiro, do outro lado do campo. Claro que essa hipótese seria descartada, mas não sem antes consumir tempo e esforço de cálculo.

Numa entrevista à uma rádio inglesa (veja o vídeo aqui nesse post) Kasparov confessou que normalmente pensa quatro ou cinco lances adiante e às vezes até menos. A maioria das suas decisões baseia-se em conceitos mais abstratos (como concentração de peças em determinada área do tabuleiro, domínio do centro ou de linhas diagonais ou verticais) do que situações específicas (um iminente ataque ao Rei ou trocas sucessivas de peças). Essa abstração do jogo o computador ainda não é capaz de alcançar – daí todo o descontrole do campeão e sua conseqüente desvantagem, ao competir num jogo (também) emocional com um adversário desprovido de emoções.

 

6a00e554b11a2e883301157065ca42970b-250wiApesar do trauma que essa derrota lhe causou, Kasparov admite ser um entusiasta das máquinas que jogam Xadrez. Os atuais softwares aliados a processadores bem mais potentes são capazes de jogar melhor do que o próprio Deep Blue e até auxiliam os jogadores em sua preparação.

Noutro interessante episódio, Kasparov mediu forças com outro grande enxadrista da atualidade, o búlgaro Veselin Topalov, em junho de 1998. Numa modalidade batizada de Xadrez Avançado, cada jogador tem um computador ao seu lado para consultas durante a partida.

Sem precisar dispender grandes esforços nas aberturas, os jogadores podiam concentrar-se nos conceitos estratégicos da partida (aqui eram os dois correndo os primeiros dez quilometros da maratona de carro). Do mesmo modo, o auxílio cibernético poupava-lhes dos erros de cálculo em situações táticas mais complicadas. Ainda assim, segundo suas próprias palavras, os jogos estiveram longe da perfeição, especialmente devido à limitação de tempo.

E já que ambos dispunham dos mesmos recursos a diferença recaía, novamente, na forma com que cada um utilizava tal ferramenta voltando, dessa forma, à tomada de decisão puramente humana (continuando a analogia anterior: são os 32 quilômetros e pouco que ambos percorrerão correndo com suas próprias pernas). O resultado da experiência foi um empate em 3 x 3 – embora Kasparov tenha derrotado Topalov um mês antes num match de Xadrez Rápido (onde cada jogador tem 30 minutos para toda a partida) pelo elástico placar de 4 x 0.

6a00e554b11a2e88330153914837a6970b-150wi Em seu recente livro How Life Imitates Chess: Making the Right Moves, from the Board to the Boardroom Kasparov comenta que “em qualquer disciplina onde o acesso à informação é praticamente ilimitada, mas o tempo é um fator decisivo, a intuição representa um papel crucial”.

Vários jogadores eram conhecidos por suas grandes habilidades intuitivas ao tabuleiro, conforme citam os GMs Alexander Beliavsky e Adrian Mikhalchishin, em Secrets of Chess Intuition. Smyslov, Petrossian, Spassky, Kramnik e Anand guiavam-se muito por seus instintos. Já Capablanca tinha o dom natural de avaliar posições através de rápidos olhares ao tabuleiro, como fartamente descreve a crônica mundial.

Mas talvez nenhum outro enxadrista seja tão citado como intuitivo quanto Mikhail Tal. Mesmo 15 anos após a sua morte, algumas de suas partidas permanecem envoltas em mistérios. O gênio de Riga sempre foi conhecido por seu jogo ousado, onde entregava peças valiosas ao inimigo para concentrar forças numa blitz contra o Rei inimigo*. Tal entrava no tipo de posição em que não se podia prever o resultado final, onde era impossível calcular todas as variantes. Mas sua sensibilidade em relação à posição resultante era-lhe suficiente.

6a00e554b11a2e883301156f6fb3f3970c-250wi Na célebre partida onde, jogando de pretas contra Bobotsov em 1958, ele sacrifica sua Dama no 11o lance, em troca de duas peças brancas é emblemática. Não havia possibilidades de ele ter previsto como ganharia o jogo dezenove lances depois. Havia muitas variantes, com diversas sub-variantes, impossíveis de serem calculadas precisamente. Tinha então dezesseis anos. (Veja também Donald Byrne x Bobby Fischer, chamado de jogo do século.)

Certamente que hoje algumas de suas mais aclamadas criações já foram refutadas e erros foram apontados em seus jogos. Erros dos seus adversários, na maior parte das vezes pois, como disse Kasparov na entrevista citada acima, “ganha o jogo aquele que comete o penúltimo erro”. Mas o fator psicológico também era decisivo quando se jogava contra Mikhail Tal. Certa vez ele teria dito que “existem três tipos de sacrifícios: os certos, os errados e os meus”.

Quando escreveu a série de livros sobre os campeões antes dele ele sabia que analisaria as partidas em condições totalmente diferentes daquelas em que as originais foram jogadas – inclusive com o auxílio de poderosos computadores. Precisaria ser, portanto, condescendente com eventuais equívocos de ambos os lados, pois seu principal objetivo era entender a evolução do Xadrez no último século.

Para esta complexa tarefa, Kasparov procurou reunir a maior quantidade de informações disponíveis para cada jogo incluindo, preferencialmente, aquelas feitas pelos próprio jogadores bem como as de seus contemporâneos. Para sua surpresa, no entanto, as análises posteriores ao jogo referentes às alternativas de cada lance continham muito mais erros do que o próprio jogo em si.

Esse talvez tenha sido um indício de que a escassez de tempo não é tão opressiva assim – pois tempo em abundância pode abrir caminho para encontrar soluções erradas, como mostrou o interessante estudo realizado por Johnson e Raab. Em Take The First: Option-generation and resulting choices eles simularam condições reais de um jogo de handebol. Um atleta amador, vestido com o uniforme de jogo e uma bola na mão, ficava diante de um telão onde era exibida uma cena de um jogo real.

Em determinado momento a imagem era congelada e o participante deveria escolher a melhor opção de jogada, no menor intervalo de tempo possível. Depois dessa rápida decisão, ele dispunha de mais tempo para pensar e buscar outras alternativas possíveis para o mesmo lance para, em seguida, apontar sua decisão final sobre o que teria feito.

6a00e554b11a2e883301156f5ace55970c-300wi Após essa fase, uma equipe de experientes técnicos de handebol reuniu-se para avaliar a qualidade das decisões finais e compará-las com as demais alternativas apontadas. Embora o senso comum sugira que mais tempo seja benéfico – pois pode-se avaliar mais informações – as conclusões do estudo apontaram na direção oposta: a ordem na qual as opções surgiam nas mentes refletiam diretamente a sua qualidade. Isto é, a primeira opção era substancialmente melhor do que a segunda, que era superior à terceira e assim por diante, conforme o gráfico (adaptado) ao lado. Note-se, ainda, que em apenas 40% dos casos o participante decidia mudar sua escolha inicial.

De volta a Kasparov, ele não encoraja que se confie cegamente em seus instintos mas que eles sejam, de alguma forma, mais respeitados e levados em consideração nas tomadas de decisão. O estudo diligente e o acúmulo de conhecimento sobre temas específicos é essencial, até para que a intuição possa ser treinada.

Médicos tomam decisões semelhantes quando escolhem – muitas vezes, de forma instintiva – a linha de diagnóstico a ser adotada para cada paciente, considerando os sintomas apresentados (informações) à luz de um teorias aprendidas através de intensa dedicação (treino). Sem as informações, de nada valeria o treino e, sem este, aquelas seriam igualmente inúteis.

6a00e554b11a2e883301156f6fa577970c-300wi Relacionar o treino e o acúmulo de informações com a Intuição não fere, em absoluto, o conceito da Sabedoria da Ignorância, da forma como abordei num texto recente. Desconhecer determinado assunto pode ser favorável para realizar escolhas simples, com conseqüências limitadas e sem grandes implicações. Jamais para tomar decisões importantes ou embarcar em grandes aventuras.

Além disso, a falta de familiaridade com uma área específica jamais lhe permitirá fazer raciocínios mais complexos relacionados ao tema. Como o estudo de Gigerenzer mostrou, você pode ser capaz de dizer que Detroit tem mais habitantes do que Milwaukee, talvez pelo fato de nunca ter ouvido falar em Milwaukee. Mas não vai experimentar a profundidade de um rio com os dois pés.

Percebam, ainda, que tratamos aqui de um problema onde as regras estão bem definidas e claras para ambos os jogadores. E como encarar as situações onde as mesmas regras não são tão explícitas assim? Como se comportar em situações que não tem um fim definido, ou onde um vencedor não possa ou não deva ser declarado?

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* Mais uma vez buscando auxílio nas analogias futebolísticas, seria como se um time tivesse seus dois zagueiros de área expulsos mas, ainda assim, conseguisse marcar um gol no adversário, porque conseguiu manter a bola somente no campo de ataque – ou seja, concentrou suas forças no local mais importante do campo.

Uma curiosidade: apesar de o estudo ter sido realizado por pesquisadores de universidades alemãs e americanas, parte dos jogadores envolvidos era de times brasileiros que treinavam em Belo Horizonte.

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Um agradecimento especial para meu amigo Carlos Oliveira que fez valiosas sugestões a essa série.

2 pensamentos em “Os limites da Intuição – final: o que faz a diferença?”

  1. Gostei tanto dos textos que estou lendo todos. Não entendo nada de xadrez, foi produtivo ler os 3 artigos. Não vejo problema na superação técnica da máquina em relação ao homem. Aliás, elas existem para isso. Um exemplo entre humanos está no boxe. Evander Holyfield foi preparado muito cedo para vencer Mike Tyson, de forma similar, guardadas as proporções, de Kasparov e Deep Blue. Quanto a questão emocional, realmente concordo que lidar com algo sem emoção é tarefa árdua para seres emocionais. Entendo isso: Mas ele jamais vira um jogo de Deep Blue. Não sabia o que estava enfrentando. Enquanto isso, seu adversário tinha um banco de dados com 700 mil partidas. Mesmo assim acho que realmente o caminho da discussão é outro. Gostei disso:
    A sutileza é que não é preciso calcular todas as trinta possibilidades em cada lance – apenas algumas mais prováveis e que façam mais sentido no momento. E é exatamente essa distinção que o computador não faz a priori.
    Sim, não faz mesmo. Mas podemos considerar que um dia ele faça, pq não? A questão ética aqui me chama muito a atenção. Tentar provar que a inteligencia artificial é superior a natural é desnecessário. Sumir com o Deep Blue então? Deixa tudo mais feio ainda. Mas Kasparov aceitou o combate. Aceitemos as coisas. Eu pratico parkour, que tb chamamos de arte de superar obstáculos num determinado percurso. Quando repito sempre o mesmo percurso, a técnica tem valor maior. Mas, a variação do ambiente urbano e natural é tão grande que a cada nova ação ou percurso, lidamos com o imprevisivel. Apesar de minha cota de conhecimento e técnica, dependo muito mais de minha intuição do que de minha instrução técnica.
    E como encarar as situações onde as mesmas regras não são tão explícitas assim? Como se comportar em situações que não tem um fim definido, ou onde um vencedor não possa ou não deva ser declarado?
    Na minha prática em parkour a resposta seria mais ou menos assim: quanto mais livre e espontaneo vc estiver, mais possibilidade de reação vc tem, mas essa intuição e liberdade também estão vinculados a técnica e preparo. Um exemplo prático: se estou preparado para pular de 4 metros de altura e diante do obstáculo preciso pensar demais, estarei pensando numa série de probabilidades como no xadrez. Calcularei minha força, distancia, reconhecerei préviamente o solo em que devo pousar etc. Se fixo essas regras demais na mente, diante de uma variável, tenho maior chance de errar, pois a variável não está no meu script. Por exemplo , neste video eu e meus colegas fazemos saltos de mais de 4 metros

    .
    Certa vez, quando fui saltar um muro verde que aparece no vídeo, passou uma pessoa correndo do nada e se continuasse o salto cairia sobre ela. Justamente pelo salto estar internalizado em mim e não pensado, pude girar o corpo a tempo e me segurar na outra borda do muro. Foi espontaneo, imprevisivel, minha atenção não estava focada numa serie de ações, mas no salto. Estava livre assim, para reagir diante do imprevisivel de forma intuitiva. Mas certamente, sem minha experiência anterior a probabilidade de cair sobre a pessoa seria muito maior, ou minha esquiva intuitiva seria provavelmente prejudicial a mim, cairia de lado, com um pé só etc… É só, abraço.

  2. Experimentos em Psicologia – George Miller e o mágico número sete

    Cada um de nós tem uma relação muito particular com os números e os deuses da matemática. Uns amam, outros odeiam, poucos são indiferentes. Particularmente, sempre gostei de números – mas talvez eles não gostem de mim na mesma proporção….

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