Os limites da Intuição – parte I: Deep Blue, a máquina

O recém-lido livro de Gerd Gigerenzer, O Poder da Intuição: O inconsciente dita as melhores soluções, além de ter rendido alguns posts interessantes (como Heurística), traz-me novamente um interessantíssimo e polêmico tema: a Intuição. E um ótimo ponto-de-vista para analisar o assunto é o duelo homem x máquina, levado ao extremo em embates diretos como competições de xadrez.

Talvez este seja o melhor cenário para avaliar as respectivas capacidades, pois o xadrez é um esporte (sim, é um esporte!) onde ambos os competidores contam apenas com suas habilidades: as informações estão disponíveis em condições idênticas e cada um é responsável por suas próprias ações e conseqüências descartando, teoricamente, o fator sorte. Por isso era considerado por Goethe “a pedra filosofal do intelecto”.

6a00e554b11a2e883301156f501a84970c-250wi Antes de escrever esse texto resolvi assistir Game Over – Kasparov and the Machine , o documentário feito pela BBC de Londres feito sobre o confronto Kasparov x Deep Blue. Jogado em seis partidas em maio de 1997 foi, segundo o editor-chefe da Newsweek na época Steven Levy, um dos eventos mais simbólicos do século XX. O filme é meio chatinho, porque descamba para um lado conspiratório, buscando pêlo em ovo, numa abordagem um tanto quanto michaelmooreana. Mas as imagens do confronto e os depoimentos dos participantes valem o filme! (No Youtube, a partir daqui ou completo no Google aqui, mas em baixa resolução.)

Os jogos foram cercados de lances brilhantes, outros bizarros, mistérios e acusações de lado a lado.

Representando a inteligência artificial, a IBM reforçou sua equipe de engenheiros, programadores e enxadristas para tentar vingar a derrota de 4 x 2 que sofreram um ano antes com o Deep Thought. Com grandes investimentos em marketing, a Big Blue estampava cartazes com os dizeres: “Como você faz um computador piscar?”, sugerindo que ganharia os jogos quem errasse menos – e que, por extensão, um computador não erra… O site oficial do evento gerou um tráfego de Internet comparável aos Jogos Olímpicos de Atlanta, um ano antes.

O projeto do Deep Blue foi iniciado como Deep Thought pelo engenheiro Feng-hsiung Hsu na Carnegie Mellon University e só depois incorporado à IBM, em 1989. Depois de derrotar a primeira versão da super-máquina em 1996, Kasparov teria dito “Um computador não escreve como Shakespeare, não pinta como Velásquez e não joga xadrez como Kasparov.” E ainda “Não consigo imaginar uma vida onde o raciocínio do computador seja superior ao da mente. Eu o venci para proteger a raça humana”.* Arrogância e prepotência de um grande campeão no auge da sua carreira. Ainda assim ele ofereceu, de forma elegante, uma imediata revanche.

6a00e554b11a2e883301156f501ce6970c-320wi No ano seguinte Hsu redesenhou o hardware, simulando um tabuleiro. 256 unidades dos processadores mais poderosos da época analisavam 200 milhões de posições por segundo e comparavam-nas a um colossal banco de dados com 700 mil partidas de alto nível. Um poderoso hardware que prometia fazer Kasparov engolir suas próprias palavras.

O software ficou a cargo do Dr. Murray Campbell (na foto ao lado, criador e criatura), cientista da IBM, enquanto que a parte estratégica – o xadrez propriamente dito – era responsabilidade do GM (Grande Mestre) Joel Benjamin, três vezes campeão americano absoluto.

Boa parte do desenvolvimento do software concentrou-se na parte que fazia avaliações e distinguia as posições. A programação consistia em uma análise genérica da situação, a partir de parâmetros estipulados previamente, mas não quantificados (por exemplo, a importância da segurança do Rei frente ao domínio do centro do tabuleiro). Os valores ótimos para cada parâmetro eram determinados, então, pelo próprio computador, a partir da análise das partidas armazenadas nos bancos de dados (as 700.000!).

As funções de análises eram divididas em 8.000 partes, algumas delas específicas para posições características de uma partida. Tal procedimento acrescentou à sua enorme força bruta um quê de inteligência artificial, da qual ela valeu-se durante os confrontos. Ainda assim Hsu admitia existir a possibilidade de Kasparov ganhar por 6 x 0. E se isso acontecesse, disse, seria Deep Shit.

Mas os detalhes das partidas, assim como o resultado final do embate ficam para o próximo texto.

 

6 pensamentos em “Os limites da Intuição – parte I: Deep Blue, a máquina”

  1. Lembro que uma das acusações era de entre as partidas mudarem a “tática” do Deep Blue.
    Sobre xadrez ser esporte é complicado. Para ser uma modalidade esportiva deve haver proeza física (não há), regras estabelecidadas por uma federação (mto tempo atrás não havia apenas uma) e competição. Por TRADIÇÃO o xadrez é considerado esporte, mas de fato não é.
    Outras modalidades sofrem geralmente problemas em ter 4, 5, N federações e regras que mudam ao sabor do bairro (já jogou taco ou bets qdo moleque?). Capoeira, aeróbica e essas porcarias. rsrsrs
    Abrax
    Balu

  2. Hummmm… sou forçado a discordar sobre a proeza física do Xadrez. Ficar cinco horas sentado numa cadeira requer, sim, um esforço físico considerável! Acho que seria o mesmo que dizer que correr uma maratona não exige nenhum esforço mental. Talvez um argumento válido seria o fato de esse esforço físico não representar a finalidade primeira do jogo e, sim, ser uma conseqüência, ou até uma exigência secundária. Aí eu concordo contigo.
    Tanto é que recentemente os jogadores mais jovens estão conseguindo uma projeção muito maior do que os, digamos, mais avançados em idade (raro exemplo é o russo naturalizado suíço Viktor Korchnoi, serelepe no auge dos seus 78 anos).
    O próprio Kasparov diz no “Game Over” que não tem mais idade para encarar os garotos que estão vindo por aí (ele tem 46 anos). Na lista dos melhores jogadores do mundo, segundo a FIDE (http://ratings.fide.com/top.phtml?list=men), entre os 100 primeiros, apenas 11 estão acima dos 40 anos e o mais velho é o ex-campeão mundial Anatoli Karpov, com 58 anos na 86a posição (atrás do italiano Fabiano Caruana de apenas 17, 78o colocado). 56 deles têm menos de 30 anos e, entre os 100, a média de idade é de 29,3 anos.
    Um exercício interessante seria discutir o porquê de os jovens conseguirem avançar mais cedo hoje em dia. A resposta parece apontar na direção das modernas metodologias de ensino e uma maior disponibilidade de informações e bancos de dados de partidas, ou seja, Internet!
    Quanto às regras, elas são básicas para o jogo em si (movimentos das peças, xeque-mate etc.). O que varia são as formas de competição (tempo de jogo), ranking dos competidores e o modo como os campeões são apontados. Essas variações são motivadas, na maioria das vezes, mais por questões políticas que por razões esportivas ou fundamentos competitivos, haja visto o boxe e suas diversas confederações, assim como os diferentes rankings do tênis.
    Abraço, Rodolfo.

  3. Rodolfo,
    O documentário passou no final de semana na TV a cabo (History Channel). Assisti pela metade e não deixa de ser interessante.
    Sobre os jovens enxadristas é interessante notar que o mais talentoso deles (Magnus Carlsen), apesar de estar entre os dez maiores em termos de rating, ainda não foi campeão do mundo. E que o atual campeão, Anand, nasceu em 1969.
    Uma explicação possível para isto é que os jovens chegam mais rápido ao topo, mas para tornar-se campeão é necessário “algo mais” que somente a experiência de muitos jogos (olha o Outlier, de Gladwell aqui) é possível

  4. Xadrez: Confronto de 12 anos atrás orienta pesquisas com InteligênciaArtificial

    Por Guilherme Romeu Capa de filme contando a história do confronto Homem x Máquina Como você faz um computador piscar ?, diziam os cartazes anunciando a disputa entre o homem e a máquina da IBM. O homem, o campeão de xadrez Garry Kasparov…

  5. Me lembro do fascínio que o xadrez exercia nessa época, que ainda saíam problemas de xadrez no jornal, perto do turfe.
    Os jogos entre Karpov e Kasparov… a Guerra Fria, a própria computação ainda numa fase romântica em que só imaginávamos o quanto ela poderia nos ajudar sem os sucessos e frustações reais..
    e como as pessoas ainda possuíam intuição, acho que hoje nós queremos ser mais como as máquinas, mais do que queremos que elas sejam como nós…
    Parabéns pelo artigo

  6. Meus favoritos meus

    Bom, não vou te enganar. Este é mais um daqueles textos de encher linguiça, requentando o que já está escrito, enquanto o ano não começa de verdade. Até porque, escolher seus – aliás, meus – melhores textos é uma tarefa…

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