Os limites da Intuição – parte II: Kasparov, o homem

No texto anterior começamos a analisar a questão da Intuição, vendo-a sob o aspecto dos duelos entre homens e máquinas – especificamente em competições de Xadrez.

O fortíssimo jogador eletrônico descrito representava o estado-da-arte em termos de tecnologia, tanto em termos de hardware quanto de software. Já Kasparov atravessava, em 1997, seu melhor momento técnico, aos 34 anos. O campeão mundial mais jovem da história reinava absoluto há mais de dez anos e até hoje é considerado o mais forte jogador que jamais existiu estando, deste modo, substancialmente além de todos os outros.

6a00e554b11a2e883301156f501fca970c-320wi Então veio a série de seis jogos:

JOGO 1: Deep Blue fez lances estranhos que pareciam ruins. Jogando de brancas Kasparov varreu-o do tabuleiro. Um massacre mais fácil do que se esperava, onde a máquina não cuidou da segurança do Rei. Mas a vitória fez Kasparov pecar pela soberba nos embates seguintes.

JOGO 2: No jogo que iniciou toda a polêmica da competição, Deep Blue tomou extremo cuidado com o Rei, a ponto de Kasparov dizer que eram máquinas diferentes. Segundo o GM Yasser Seirawan, quatro vezes campeão americano, computadores têm dificuldades em posições muito fechadas, quando não há vantagens claras, linhas de ataque definidas ou visíveis possibilidades táticas.

A partida parecia caminhar para um empate, mas Kasparov entrou numa uma posição complicada, perdedora. O computador chegou a “pensar” 15 minutos numa única posição – o que não é comum dada sua capacidade de processamento. Numa tentativa de salvar o jogo, Kasparov sacrificou um peão para ter contra-jogo. Tudo ou nada! Ele imaginou que o raciocínio materialista do computador proporcionar-lhe-ia reigualar o jogo através de contra-ataques.

Isso faz parte do que os especialistas chamam de “estratégia anti-computador”, onde todo o poder computacional não representa vantagem em relação à compreensão intuitiva que o ser humano tem de determinada situação, sem que precise de análises mais profundas. Um jogador experiente tem a capacidade de olhar uma posição e compreender suas possibilidades sem recorrer a cálculos precisos nem estruturados.

Mas o computador rejeitou o gambito (sacrifício de peão), fazendo um profilático lance de segurança (segundo Kasparov, “com a sutileza de Karpov” – seu arqui-rival de outrora), garantindo a vantagem posicional.

Para agravar ainda mais a situação, Kasparov ainda deixou passar uma chance de empate com xeque perpétuo, após um erro infantil de Deep Blue. Mas como o computador que fazia lances brilhantes, ponderou, deixaria passar uma possibilidade dessas? Teria errado depois de lances magníficos? Isso teria levado-o a um desequilíbrio emocional, pois achava que estava havendo interferência humana.

6a00e554b11a2e883301156f50215a970c-250wiUm bom jogador, não necessariamente um GM, abandonaria a linha da captura do peão e se concentraria nas seguintes. Com a força bruta calculando virginianamente as variantes, a combinação máquina-homem torna-se imbatível. O campeão acreditava que a IBM pudesse ter usado um ou mais GMs para influenciar o computador em situações críticas.

O computador não jogava num nível acima do esperado, jogava de forma diferente do esperado. Kasparov entendia que, por suas características, uma máquina avaliava variantes concretas e não conceitos abstratos, como a qualidade de uma estrutura de peões, por exemplo.

Por sua força bruta, o Deep Blue era capaz de antecipar muitas das variações possíveis (até as mais absurdas) e escolher aquela com o melhor resultado final. Através de caminhos diferentes, homem e máquina seriam capazes de apontar caminhos semelhantes. Mas qual o limite de cada um?

Mais tarde ele admitiria que essa derrota teria custado-lhe o match inteiro, pois não conseguiu recuperar-se do abalo. Se o adversário fosse um humano, disse Kasparov, eu perceberia que ele havia aprendido algo. Mas sendo uma máquina, ele não deixava de se perguntar como havia feito aquilo.

E, numa deselegante entrevista, comparou o jogo ao gol (de mão) de Maradona contra a Inglaterra na Copa de 1986, quando ele disse que foi a mão de Deus. Benjamin e sua equipe sentiram-se ofendidos com a acusação de trapaça.

Tanta polêmica tirava sua concentração do objetivo final: jogar xadrez. A desconfiança atormentava-lhe cada vez mais e, do outro lado, não causava nenhum impacto ao seu adversário de silício. A partir daí o campeão perdeu o foco.

6a00e554b11a2e883301157046449e970b-250wiJOGOS 3, 4 e 5: Três empates seguidos revelaram um Kasparov abatido e incapaz de superar o trauma da derrota no segundo jogo. Visivelmente exausto, Kasparov não conseguia concentrar-se no jogo e o público, ciente de seu enorme esforço, aplaudiu-o de pé ao final do penúltimo confronto.

JOGO 6: Kasparov jogou para cumprir tabela. Não suportava mais o que para ele havia tornado-se uma questão de resistência física. Os comentaristas da época relataram que ele havia perdido de modo particularmente humano, ou seja, cometendo um equívoco infantil, depois do colapso ocorrido no segundo jogo.

Joel Benjamin comemorou: “Nós o quebramos”. Essa emblemática frase aponta para uma causa um tanto alheia ao jogo em si: o computador teria vencido o desafio por não experimentar abalos psicológicos que, por outro lado, teriam sido decisivos para o fracasso do campeão humano.

Fato é que logo após o match, as ações da IBM subiram 15% e ela recusou-se a conceder a revanche. O Deep Blue foi desmontado, abandonado num depósito da IBM e nunca mais ouviu-se falar dele. Um ambicioso projeto, resultante de fabulosos investimentos e milhares de horas de trabalho que atingiu um objetivo para depois ser aposentado. Algo como chegar à Lua e não tirar fotos.

No próximo post veremos o que realmente faz diferença nessa competição entre homem e máquina e de que forma podemos dar mais espaço à nossa intuição. Até lá!

3 pensamentos em “Os limites da Intuição – parte II: Kasparov, o homem”

  1. Nada a ver com o brilhante post… vi a janela ao lado “Li e Recomendo” que vc já leu Sway… droga! Comprei achando que era um desconhecido no Brasil… vou começar a ler hj já que terminei hj de manhã no ônibus o Drunkard’s…
    Abrax

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