Quem mexeu no meu monge?

Dando uma rápida passada pela livraria do aeroporto, tenho um arroubo de otimismo, um alento de esperança: são tantos títulos prometendo futuros brilhantes, vidas tranqüilas, fortunas nababescas! Por um instante convenço-me de que todas as mazelas do mundo podem ser resolvidas numa prateleira da Sodiler.

Mas o que há de errado com monges executivos, líderes servidores, alquimistas e demais ex-possuidores de queijos extraviados? Se as fórmulas mágicas de riqueza, felicidade e sucesso estão disponíveis por R$ 19,90, por que todo mundo não exala amor a cada feira literária? Por que os fabulosos ensinamentos não iniciam tsunamis de prosperidade, avalanches de boa vontade e temporais de caridade?

6a00e554b11a2e883301157082f909970b-320wi O modelo ideal e único de felicidade é tão utópico quanto enganoso. Como a felicidade é um conceito abstrato e individual, o que faz uma pessoa feliz pode não ser o suficiente para o seu vizinho ou seu irmão gêmeo. Enquanto um se satisfaz com um copo d’água sem gás, outro precisa de um Jaguar conversível, ao passo que um terceiro extasia-se com uma martelada no dedo.

Já o toque de Midas, capaz de transformar num George Soros todo pé-rapado, esbarra em qualquer exame de lógica. Se todos souberem o atalho mágico para fazer fortuna na Bolsa, parece mais provável que todos percam dinheiro. Se uma idéia inovadora, um negócio bombástico, uma oportunidade única espalha-se por bancas de jornais através do Manual do Milionário, seu valor dissipa-se na multidão, evapora-se na quantidade.

Métodos infalíveis para passar em concurso, ganhar na loteria ou achar petróleo, quando ensinados para todos nivelam tudo novamente. É o segredo que todo mundo sabe.

Por fim, meus favoritos: o segredo para ser feliz está dentro de você. O problema com essa frase é que ela é um resumo de “o segredo para EU ser feliz está dentro DA CARTEIRA que VOCÊ carrega”.

Antes de prosseguir, quero deixar claro que não sou contra o pensamento positivo, tampouco nego o valor da auto-confiança, da humildade ou do amor ao próximo. Muito pelo contrário! Entendo apenas que esses são traços tão marcantes da nossa personalidade e caráter que não podem ser osmoticamente absorvidos com a leitura dinâmica de um almanaque.

6a00e554b11a2e883301156f8d2134970c-320wi Se para ser um grande líder é preciso amar o próximo, servir com humildade, ter um grande coração e, claro, ser um gênio, você não vai aprender isso no faça-você-mesmo do Jack Welch. Não é como uma nova técnica de respiração que você sai praticando na hora.

Ler, ouvir e repetir palavras bonitas não faz de você uma pessoa mais bonita. Às vezes é exatamente o oposto. Trabalhei numa empresa onde o encarregado da fábrica era pastor de uma Igreja Evangélica. Ele estudava Teologia e dava aulas para os iniciantes. Conversávamos sobre seus rígidos sermões, seus disciplinados ensinamentos e suas parábolas de fraternidade.

Mas no trabalho, o pastor humilhava seu rebanho, diminuía seus subordinados e fazia questão de deixar claras as relações hierárquicas. Era um algoz capataz, cujos atos caprichosos destoavam de sua pregação.

Assim, quando você lê sobre humildade e a forma cristã de servir e oferecer a outra face, ao mesmo tempo em que avança o sinal de trânsito e rosna para o garçom, parabéns seu trouxa, você caiu no golpe do livrinho encantado. Você lerá coisas maravilhosas sobre uma pessoa que não existe – e isso será o mais próximo que você chegará dessa pessoa.

O que? Você leu todos esses livros e adorou? Não tem problema! Se você não tiver ficado rico ainda – alias, riquíssimo – você deixará de acreditar no que leu assim que atingir a maioridade. Caso contrário, aguarde o MEU livro de “Auto-me-ajude”. Breve, numa livraria perto de você, em letras douradas.

9 pensamentos em “Quem mexeu no meu monge?”

  1. Na minha humilde opinião… um livro é maravilhoso se você conseguir extrair dele a essência do conhecimento que o autor tenta comunicar. Mas aí que está o problema: como perceber a essência? Como filtrar o excesso de palavras, imagens e desvios a idéia que talvez possa ser representada em apenas uma palavra ou lembrança?
    Depois, se você tiver a sabedoria e atitude, a essência daquele conhecimento vai te ajudar a continuar na busca da Felicidade.

  2. Excelente seu texto. Gosto de ler o que me faz pensar, e seus textos são assim. Confesso que já li muitos desses livros de auto-ajuda, e, de fato, eles até me ajudaram a mudar certas atitudes e habitos, que é o que realmente importa. Mas a verdade que um hábito, para se firmar, exige um esforço que nem todos estão dispostos a dispender. E a tendência é que, assim que terminamos um livro, os hábitos e atitudes que são adquiridos com sua leitura vão, aos poucos, se desvanecendo com o tempo…
    Ontem descobri um vídeo no http://www.ted.com com o pregador norte americano Billy Graham (recomendo) que trata da incoerência entre a atual revolução tecnológica que vivemos, e os verdadeiros problemas que nenhuma tecnologia conseguiu ainda resolver:
    – A maldade humana;
    – O sofrimento;
    – A morte.

  3. Cara descobri teu blog esses dias, e simpatizo demais com tudo o que vc pensa, e da maneira que pensa. Gosto de todos os assuntos que você trata aqui, virei leitor assiduo!
    Nao pare de escrever, Parabens!

  4. Rodolfo,
    Bela crítica. O tema é controverso…as pessoas necessitam de algum grau de inspiração, de esperança. Há um limite tênue entre as promessas vazias compradas por R$ 19,90 e coisas que realmente podem acrescentar. E, mesmo o que é bom não vai necessariamente mudar a vida de ninguém, nem a empresa de ninguém. Um exemplo: eu gosto muito do Jim Collins, acho o Feitas para Vencer um livro incrível, mas lê-lo não vai fazer sua empresa virar uma GE, ou você se tornar um Jack Welch. Mas talvez alguma coisa possa ser aplicada, algum insight, alguma inspiração, esperança, pelo menos.
    Daí para explorar o oportunismo é um pulo. Seria tão bom resolver tudo, virar um grande líder, uma pessoa melhor, simplesmente lendo um livro…mesmo que se saiba que isso não vai ocorrer, há uma sensação falsa de conforto e de sonho de mudança. Aguardo ansiosamente o seu livro…rs.

  5. Nem ler livros de auto-ajuda e nem ler Shakespeare muda a vida de ninguém. O que mudam vidas, empresas, sociedades são as atitudes de cada um.
    A leitura pode influenciar (ajudar ou atrapalhar) este movimento para mudança. Mas ela sozinha nada faz. Precisamos do sujeito que lê. Este sim o verdadeiro agente da mudança.
    Talvez o problema(?) é que foi criada uma verdadeira aura de prosperidade e felicidade ao redor destes livros. Marketing bem feito, talvez. As pessoas lêem e talvez achem que só esta atitude já as faz diferente. [Puxa… quão longe da verdade estão.]
    Assim, os menos avisados tentam comprar a felicidade e o segredo da riqueza por R$ 19,90. Outros buscam refletir sobre o que está acontecendo a sua volta. Lêem muito, e pensam e… agem. Mudam. Melhoram (as vezes, até pioram).

  6. Rodolfo, também curto muito sua linha de pensar; acrescenta e me identifico prá cacête!
    Como marketeiro e pensador, é show ter acesso ao que você pensa ou pensou naquele instante, claro!
    Desde ontem eu estou com uma frase na cabeça, que eu ouvi numa das zapeadas, que me fez pensar. Dizia que “a favela não era um problema urbano e, sim, uma soluçãö, encontrada pelo povo para sua moradia”.
    Eu nunca tinha pensado por este lado.
    E o quiquitem com o nosso assunto?
    Tudo! De repente este fenômeno (ou fenoneno) é um solução encontrada pela grande maioria dos leitores – dos que tem os 19,90 prá gastar – prá consumir “literatura”, melhor e mais acessível que a Bíblia ou os manuais de procedimentos, ou de qualidade, das empresas.
    Cê num acha não?

  7. O monge, o queijo e a vida real

    O recente texto sobre os livros de auto-ajuda rendeu alguns papos interessantes e reflexões idem. Os pitorescos temas que buscam analogias com o mundo corporativo dão origem a títulos emblemáticos. Vale qualquer coisa: um religioso e um título de líder…

  8. Rodolfo, nesse texto você disse tudo,e o melhor: não apenas disse, mas demonstrou com argumentos sólidos a falácia da auto ajuda que tem sido reproduzida em série.
    Adoro os seus textos, parabéns!

  9. O nascimento do auto-atrapalha

    Depois dos calmos Quem mexeu no meu monge? e O monge, o queijo e a vida real, eu havia prometido não falar mais de livros de auto-ajuda. Mas quando vejo uma revista de administração que se diz topo-de-linha, onde um…

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