Experimentos em Psicologia – Desencaixotando Skinner

A primeira vez que Pavlov exerceu algum tipo de influência sobre B. F. Skinner foi puro acaso. Ainda sonhando ser escritor, Skinner deparou-se com uma entrevista de H. G. Wells no New York Times. Questionado sobre que grande personalidade ele escolheria salvar a vida, numa macabra eventualidade, o romancista inglês confessou que optaria por Ivan Pavlov em detrimento de George Bernard Shaw. Para Wells, a Ciência era mais redentora do que a Arte. Naquele exato momento Skinner trocou a Arte pela Ciência.

O final da década de 1920 marcava uma época em que as pessoas realmente precisavam de redenção. A Primeira Guerra Mundial terminara há pouco deixando um enorme e traumático rastro de destruição, tanto física quanto psicológica. O único consolo vinha dos divãs onde a psicanálise de Freud era a (única) resposta para tudo.

6a00e554b11a2e883301157005620c970c-320wi Já a segunda influência de Pavlov sobre Skinner foi intencional, pois o psicólogo americano era um grande admirador da obra do médico russo. Fascinavam-lhe as teorias sobre o Reflexo Condicionado e como o cientista era capaz de fazer seus cães salivarem ao simples toque de uma sineta. Mas Skinner não via glamour nenhum na saliva do cão. E se a hipótese funcionava para uma glândula, deveria funcionar também para o organismo todo.

Tais ideias não se restringiam a simples reflexos, mas ao comportamento como um todo. Se Pavlov conseguira condicionar uma resposta involuntária a um estímulo, o mesmo não seria possível com uma resposta voluntária? Daria para condicionar um animal a realizar uma tarefa por meio de uma recompensa? (Vale lembrar que os golfinhos de Miami e cães treinados são fenômenos recentes. Não se deve confundir, tampouco, domesticar com amestrar.)

Já estudando em Harvard, Skinner herdou umas cobaias de laboratório de um colega que mudou-se de lá. Nessa época ele começou a construir suas famosas caixas: artefatos mecânicos complexos que o auxiliavam em suas pesquisas, dentro das quais observava as performances de seus camundongos e pombos. Uma sutil diferença com relação aos estudos de Pavlov está na ordem dos eventos: enquanto que o estímulo (sineta) ocorria antes da resposta (salivação) nos experimentos dos cães, os ratinhos recebiam comida depois de realizar uma tarefa.

Ao alimentar as cobaias depois que elas pisavam numa alavanca, por exemplo, Skinner ensinava-as que valia a pena pisar na alavanca. Pisar na alavanca significava ganhar uma recompensa: comida.

Mas Skinner foi além e criou diversas variações para ver até que ponto o comportamento poderia ser aprendido. O ratinho apertava a alavanca uma vez e nada. Duas vezes e nada. Na terceira vinha a comida. Quando quis comer novamente, o ratinho apertou a alavanca três vezes seguidas. Espantoso!

6a00e554b11a2e883301157005706b970c-400wi Em seguida Skinner retirou a comida e mediu quanto tempo levava para o ratinho perceber que a farra acabara. Depois a comida voltou, mas agora após sete apertos na alavanca. Depois doze. Vinte. Treze. Milhares de variações, infinitas medições, atitudes rigorosamente cronometradas, mudanças comportamentais criteriosamente observadas.

As engenhosas Caixas de Skinner registravam todos os movimentos de suas cobaias. Um fabuloso volume de dados era gerado a cada nova sessão de experimentos. Em seus trabalhos observou-se, pela primeira vez, o extensivo uso de ferramentas e modelos estatísticos complexos, em vários níveis. Do seu rigor metodológico nasceu a verdadeira Ciência do Comportamento.

As variações seguintes foram igualmente reveladoras: as caixas foram programadas para liberar a comida de forma aleatória. Às vezes o ratinho ganhava comida depois de trinta apertos na alavanca. Às vezes saía sem nada. Vinte e três apertos e, oba, comida! Dezoito e nada. Apesar de a intuição sugerir que recompensas aleatórias ou muito espaçadas eliminam o comportamento, não foi o que Skinner observou. Ao contrário, ele percebeu que os hábitos baseados em recompensas irregulares são os mais difíceis de serem quebrados.

Com a ajuda dos ratinhos Skinner explicou porque perdemos fortunas em máquinas caça-níqueis e porque a leitora se apaixona pelo namorado que liga de vez em quando. Ou, usando o jargão habitual, como os reforços/recompensas intermitentes transformam-se em compulsão.

6a00e554b11a2e8833011570fa644e970b-320wi Outro comportamento errático identificado por Skinner foi o que chamou de superstição dos pombos. Trancada numa gaiola, a ave recebia comida em intervalos de tempo absolutamente aleatórios. Sem saber disso, ela acreditava que alguma atitude sua havia liberado a comida e passava, assim, a repetir aquele gesto específico na esperança que mais comida fosse oferecida.

Isto é, se o pombo girasse o pescoço para a direita no exato momento que a comida aparecesse, ele imaginava que a comida havia aparecido graças a isso e, assim, passava a girar a cabeça para a direita freneticamente. Do mesmo modo que o técnico de futebol não troca de camisa e o jogador de bingo atribui sua sorte ao fato de não trocar de cuecas há três dias. (Percebem como a superstição é uma atitude inteligente?)

Enquanto criava variações para seus experimentos, Skinner tornou-se um exímio adestrador de animais. Seu coelho depositava moedas num cofrinho. Seu gato tocava piano e seus pombos dançavam. E se animais com cérebros menores que um caroço de feijão poderiam aprender tarefas complexas, de que seria capaz o homem? Com o treinamento adequado, qualquer um poderia aprender qualquer coisa.

Nas décadas de 1950 e 1960 seus métodos de condicionamento do comportamento foram levados a sanatórios psiquiátricos onde esquizofrênicos irrecuperáveis conseguiam aprender a realizar algumas tarefas quando recompensados. Modernamente, traumas, fobias e outros distúrbios de ansiedade são tratados segundo suas teorias.

O curioso com relação ao relato de Lauren Slater em seu livro Opening Skinner’s Box: Great Psychological Experiments of the Twentieth Century é que ela parece querer te deixar na dúvida se Skinner era um gênio ou um monstro.

Sua narrativa é recheada de mistérios e uma dose de sensacionalismo. Slater sugere, por exemplo, que Skinner utilizava suas próprias filhas em seus experimentos (ela especula sobre o suposto suicídio da caçula – o que, de fato não aconteceu) criando, inclusive, uma de suas caixas na versão humana.

6a00e554b11a2e8833011571084ebf970b-320wiA foto ao lado ilustra, na verdade, um berço hermeticamente fechado, asséptico, acolchoado e com umidade e temperatura controladas onde suas filhas pequenas podiam ficar confortavelmente por algumas horas.

No reduzido ambiente não haveria riscos físicos para as crianças e elas poderiam se movimentar livremente sem perigo de se machucar – o que, segundo Skinner, aumentaria sua autoconfiança e favoreceria seu desenvolvimento motor.

Sinceramente, quem sabe exatamente como educar os filhos? O quanto daquilo que fazemos não é baseado em tentativa & erro?

Outro lado muito explorado por ela refere-se às publicações não-científicas de Skinner. Acreditado que aliando o poder da recompensa e reforço positivo a treinamentos específicos, seria possível condicionar seres humanos padronizando seus comportamentos numa sociedade pasteurizada.

Seu romance Walden Two descreve uma comunidade organizada em torno da engenharia do comportamento, governada não por políticos, mas por psicólogos. Dentro de um estilo de vida que não apoiasse guerras, competição ou conflitos sociais, as regras defenderiam o consumo mínimo, relações sociais ricas, felicidade pessoal, trabalho estimulante e lazer.

Uma utopia interessante, decerto necessitando algumas correções e semelhante a muitas comunidades já existentes por aí (vide o formidável “A vila” de M. Night Shyamalan). Mas nada mais do que ficção, assim como Admirável Mundo Novo, 1984 ou Laranja Mecânica.

Slater dá ares de lendas urbanas a esses mitos em torno de Skinner, mas especulo se esses mitos realmente existiriam ou seria apenas sensacionalismo da autora. De fato, minhas buscas pelo Google só encontraram referências às suas importantes contribuições na área da Psicologia.

A verdade é que a maior parte daquilo que hoje sabemos a respeito de psicologia e educação – reforço e recompensa – é baseado exatamente nas obras de Skinner. Ele advogava, inclusive, que o aprendizado deve sempre estar ligado às recompensas e não à punição. Segundo ele, a única coisa que se aprende através da punição é a evitar ser punido. Se você leva um tapa por não saber a capital da Turquia, sua motivação será não apanhar, em vez de querer aprender. Ou então revidar.

Assim como a obra de Pavlov, o legado de Skinner parece não nos saltar tanto aos olhos à primeira vista, talvez porque a maioria desses conceitos parecem já vir pregados no nosso cérebro desde que nos entendemos por gente. Mas este parece ser o definitivo reconhecimento da magnitude de sua contribuição, colocando Skinner como um dos grandes cientistas do século XX.

Burrhus Frederic Skinner, o homem que compreendeu os mecanismos do aprendizado humano estudando ratos e pombos, morreu de leucemia em 1990, aos 86 anos.

Ocorre, ainda, que na maioria das vezes o aprendizado é um processo coletivo e o grupo pode interferir de maneira decisiva na forma como aprendemos. No próximo texto, a unanimidade burra de Solomon Asch.

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

7 pensamentos em “Experimentos em Psicologia – Desencaixotando Skinner”

  1. Rodolfo, sou sua fã! Me dá um autógrafo? hahaha.
    Passei aqui, me atualizei nos textos e gostei particularmente desse. Foi um papo que tivemos no passado e foi super bem colocado aqui.
    Beijos.

  2. Por favor, algum leitor ou editor que veja este apelo, atenda-o: Estou precisando de tetos sobre SKINNER e seus métodos experimentais de psicologia, para estudo próprio. Obrigado.
    DEUSARINO DE MELO

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  6. Depois que eu li sobre comportamento dos ratos e pombos, que nós da mesma forma fomos e somos condicionados a tais formas de viver e que certamente podemos ser levados a ter comportamentos tão angelicais do BEM e do MAL, conforme o ambiente ou o estado em que a pessoa se encontra, pode absorver e também tomar consciência do fato e sair dele, tomando formas diferentes de aprendizagem, que seria pela negativa. Mas me pergunto como sobreviver sem essas verdades? Acho que para tal uma filosofia de vida assim de imediato seria utópica, como tantas outras já existiram e existem, seria mais uma? Ou uma tentativa que podemos ser mais fortes, conscientes do que de fato nos levam a tomar determinados comportamentos que nos poderá tirar de situações menos difíceis,pois a mente nos induz a condições mais confortáveis (preguiçosas) por um mero reforço que não nos leva para o melhor e sim, para uma rotina desvairada, sem gosto e ao mesmo tempo sem saída, pois sempre esperando algo melhor que não existe. Para romper todo esse comportamento que já é compulsivo só com uma ruptura e tomada de consciência dos porquês que estou nessa condição de vida. Espero ter-me feito expressar um pouco sobre os estudos de SKINNER e que na mente humana como é mais complexo o assunto, uma boa base para prosseguir o conhecimento de nós mesmos.

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