Experimentos em Psicologia – Pavlov e seus cãezinhos condicionados

Lauren Slater abre sua obra (Opening Skinner’s Box: Great Psychological Experiments of the Twentieth Century) citando os experimentos realizados por B. F. Skinner, mas coloca Pavlov como o pesquisador que o teria inspirado, inicialmente. Assim, nada mais justo do que começar essa série com quem o precedeu e tornou-se, provavelmente, o precursor de uma ideia que permanece atual até os dias de hoje.

Muitos de nós estamos familiarizados com os conceitos básicos do que comumente chamamos de Reflexo Condicionado: a história do cão que, acostumado a ouvir uma sineta tocar antes das suas refeições, passou a salivar toda vez que ouvia o tal som, independentemente de sua ração ser servida ou não. Mas poucos conhecíamos a história por trás desse verdadeiro divisor de águas na história da psicologia moderna.

6a00e554b11a2e88330147e08853da970b-120wi Fui buscar as origens desse famoso estudo noutro compêndio sobre ciência experimental: The Ten Most Beautiful Experiments (Random House, Inc., 2008). Neste pequeno porém fascinante livro George Johnson – um multipremiado escritor especializado em ciência – descreve os grandes passos da humanidade na tentativa de desvendar os mais intrigantes mistérios da natureza.

Trata-se de uma obra interessantíssima para quem se interessa por ciência – especialmente física – onde a leitora poderá acompanhar os passos que levaram Galileu Galilei a entender a mecânica dos corpos, Isaac Newton a descrever a formação das cores, Antoine-Laurent Lavoisier a propor a lei da conservação das massas e Luigi Galvani a desvendar as propriedades elétricas do sistema nervoso, dentre outros.

Talvez os experimentos de Pavlov tenham ficado de fora do livro da Dra. Slater por ele não ser um psicólogo de formação e suas cobaias serem cães, em vez de seres humanos. De qualquer forma sua contribuição permanece até hoje como uma das mais significativas na área da Psicologia.

O russo Ivan Petrovich Pavlov (14/09/1849 – 27/02/1936) era filho de um padre da Igreja Ortodoxa Russa e teria seguido os passos de seu pai, não fosse seu contato prematuro com as obras de Charles Darwin. Quando beirava os vinte anos, Pavlov e seu irmão Dmitry fugiam do seminário onde estudavam para ler “A origem das espécies” na biblioteca local.

Mas a obra que realmente mexia com sua curiosidade era Reflexes of the Brain de Ivan Sechenov. Para ele, todo e qualquer comportamento humano – desde espirros até a decisão de ler um livro – eram tão-somente reflexos, meros resultados da contração de determinados músculos. Assim, previa, chegaria o dia em que todo o funcionamento do cérebro poderia ser explicado através de princípios puramente mecânicos, tal como os corpos celestes.

Fascinados com tal possibilidade, Pavlov e seu irmão partiram para São Petesburgo onde estudariam química com ninguém menos do que Mendeleyev, àquela altura completando os últimos quadradinhos de sua Tabela Periódica dos Elementos.

6a00e554b11a2e883301156ff79676970c-320wiMais tarde, porém, Pavlov decidiu-se pela Medicina, onde concluiu seu doutorado estudando o sistema digestivo dos cães e a forma como os alimentos eram absorvidos pelo organismo. Quando seu interesse recaiu, posteriormente, sobre o sistema nervoso dos cães, completou-se sua transformação de aspirante a padre num dos mais respeitados cientistas do século XX.

Considerado um dos melhores cirurgiões da Europa, seu trabalho sobre a fisiologia da digestão rendeu-lhe um Prêmio Nobel em 1904.

Durante suas pesquisas iniciais Pavlov observou que mesmo antes de a comida chegar-lhe à boca o cão já começava a salivar, produzindo o líquido que diluiria o alimento e lubrificaria sua passagem até o sistema digestivo. Mais curioso ainda, esse processo acontecia independentemente de a comida ser apetitosa ou não, mas variava na quantidade.

Um pouco adiante verificou que mesmo alguns sinais relacionados ao ato de servir comida ao animal disparavam suas glândulas salivares – como o cheiro de carne, o ranger da porta da cozinha ou a simples visão da sua tigela.

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Pavlov classificou a salivação como uma “secreção psíquica”, na medida em que parecia motivada por uma percepção. Notou, assim, que se mostrasse ao cão o pedaço de carne mas não o deixasse comê-la ele salivaria do mesmo jeito. Mas que se repetisse essa farsa diversas vezes o cão salivava cada vez menos, como que percebendo o truque, aprendendo o chiste, decifrando a brincadeira. A produção inconsciente de saliva podia ser inibida. O reflexo podia ser aprendido e desaprendido.

Essas reações automáticas mostraram-se tão maleáveis que Pavlov era capaz de fazer o cão salivar mesmo diante de sinais desagradáveis, como um choque elétrico. E ainda que ele variasse bastante os elementos deflagradores do reflexo condicionado – poucos eram desagradáveis, diga-se – raramente usava uma sineta, como conta a História.

6a00e554b11a2e8833011570ec73b2970b-300wiConforme apurava sua técnica de adestramento o cientista percebia, inclusive, que o animal era capaz de sincronizar a salivação de acordo com a demora entre o estímulo e a recompensa propriamente dita – ou seja, se houvesse um intervalo de três minutos entre a sineta e a comida, ele atrasava a salivação também em três minutos.

Do mesmo modo, se ele alimentasse o cão a cada trinta minutos, o animal salivaria a cada meia hora. E, mais ainda, o cão condicionado seria capaz de distinguir um círculo de um quadrado, um objeto girando em sentido horário de outro na direção contrária, a frequência de um ritmo sonoro, diferentes notas musicais ou diversos tons de cinza.

Apesar de essas teorias parecerem banais nos dias de hoje, elas representaram um grande avanço na época, pois tratavam dos rígidos dogmas que determinavam os limites entre o corpo e a mente. Segundo as ideias de Pavlov seria possível, através do condicionamento, alterar o funcionamento de complexos sistemas fisiológicos do corpo tidos, até então, como essencialmente mecânicos.

Hoje em dia as abordagens mais populares sobre a obra de Ivan Pavlov resumem-se à possibilidade de se condicionar um reflexo natural do corpo humano para que ele responda a outro tipo de estímulo. Mas talvez sua maior contribuição esteja na contestação da teoria que tanto o impressionou em sua juventude: o funcionamento mecânico e automático do corpo humano, sem interferência do cérebro. Através do Reflexo Condicionado dos seus cães ele foi capaz de provar de que forma o cérebro é capaz de interferir no funcionamento de um organismo.

Seus trabalhos posteriores, em áreas mais complexas como o temperamento, abriram os caminhos para estudos igualmente marcantes de outros pesquisadores em várias áreas da psicologia. Um deles imaginou que se os reflexos poderiam ser condicionados, por que o comportamento também não poderia? A seguir: os experimentos de B. F. Skinner.

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

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