Experimentos em Psicologia – Phil Zimbardo e a imaginação heroica

No texto anterior vimos como pessoas comuns são suscetíveis a cometer atos perversos quando colocados em situações adversas. No famoso experimento da Prisão de Stanford, Phil Zimbardo acompanhou seus estudantes universitários revelando seus lados mais sombrios ao vestirem uniformes de guardas, ao passo que os prisioneiros assumiam uma postura totalmente passiva e submissa.

6a00e554b11a2e88330115720f3c82970b-320wiEm “The Stanford Prision Experiment“, um documentário da BBC de Londres realizado em 2002, os participantes da pesquisa falaram sobre as experiências vividas 30 anos antes. Dough Korpi – o prisioneiro 8612 – conta que jamais em sua vida havia se sentido tão perturbado. “Nunca gritei tão alto”, disse. Clay Ramsey – ou o 416, que iniciou uma greve de fome – viu-se transformado num presidiário real, com todas as limitações e privações que a condição impõe.

Dave Eshelman – o guarda carinhosamente apelidado de “John Wayne” por seus colegas, dada a sua postura rude e viril – confessou ter feito sua própria pesquisa individual em Stanford: agia de forma covardemente violenta com os detentos para ver até onde eles aguentavam. Nos vídeos originais de agosto de 1971, é ele quem aparece liderando as atrocidades do turno da noite.

Eshelman reconhece hoje que, muito provavelmente, as coisas no Experimento de Stanford degringolaram por sua causa. Talvez ele tenha razão e sua atitude tenha sido o estopim dos acontecimentos que levaram ao encerramento prematuro do estudo. Mas e os outros guardas, onde estavam enquanto isso acontecia? Por que nenhum dos outros onze carcereiros impediu que uma maçã podre contaminasse todo o cesto?

Wesley Autrey e suas filhas
Wesley Autrey e suas filhas

Em qualquer transporte coletivo do mundo é incomum encontrar uma pessoa disposta a ceder seu lugar a uma outra – que dirá sua vida. Em 2 de janeiro de 2007 Wesley Autrey, um operário da construção civil de 50 anos de idade, esperava o metrô junto com suas duas filhas pequenas numa estação no Harlem, Nova Iorque.

Não muito distante, Cameron Hollopeter, um estudante de 20 anos, começou a ter uma crise epiléptica e caiu da plataforma, atravessado sobre os trilhos, no momento em que uma composição se aproximava.

Enquanto uma centena de outros passantes assistia paralisada, Autrey entregou suas filhas a um estranho e se jogou atrás do rapaz. Numa fração de segundos, ele colocou-o no vão entre os trilhos e deitou-se sobre ele, esperando pelo pior. Um sobre o outro, Autrey e Hollopeter somavam 51 centímetros. O trem de 370 toneladas passou a 53 centímetros do solo, apenas dois centímetros acima da cabeça de Autrey*.

No dia 8 de novembro do mesmo ano, num bairro de classe média baixa da cidade de Palmeira, Santa Catarina, uma pequena casa começou a pegar fogo por causa de um curto-circuito. Desesperada, Lucilene dos Santos, 36 anos, saiu à rua gritando por socorro para sua filha, a pequena Andrielli de apenas um ano e dez meses, que dormia em seu quarto.

Um vizinho que passava pela rua, Riquelme dos Santos, acalmou-a dizendo para não se preocupar pois ele salvaria a criança. Dito isso, entrou na casa em chamas e, momentos depois voltou com a menina nos braços, sã e salva. Sem dúvida um feito heroico por si só, mas ainda mais impressionante pelo fato de, na ocasião, Riquelme ter apenas cinco anos de idade e estar vestido como seu heroi favorito: o Homem Aranha.

Riquelme "Aranha" dos Santos
Riquelme “Aranha” dos Santos

O que essas duas histórias têm em comum, além do fato de representarem inspiradores atos de bravura? Elas mostram pessoas comuns agindo de forma incomum em situações extraordinárias. Pessoas que, como a maioria das outras que observavam impassíveis à mesma cena, poderiam ter optado por permanecer imóveis, assistindo ao desenrolar de mais uma tragédia.

Este comportamento, estimulado pelo que Zimbardo batizou de Imaginação Heroica representa, para ele, a cura para o chamado Efeito Lúcifer.

A tese defendida pelo psicólogo americano é que algumas situações têm o poder de fazer três coisas: inspirar a maldade em uns; atos heroicos em outros; ou ainda, a indiferença. Para Zimbardo nós precisamos instilar na população o sentimento de que podemos fazer a diferença em ocasiões especiais. Ele acredita que o heroísmo é o melhor antídoto para a maldade. Ao promover a imaginação heroica, especialmente nas crianças, queremos as pessoas pensando: “Eu sou o herói adormecido e estou esperando aparecer a situação onde agirei de forma heroica”.

Herois são pessoas comuns cuja ação social é incomum, que agem em meio à passividade alheia, que abdicam do egocentrismo em nome do sociocentrismo. As chaves para o heroísmo são, portanto, agir enquanto os outros estão passivos e fazê-lo em nome da sociedade e não em benefício próprio.

Joseph “Joe” Darby, um soldado americano da reserva nascido em Maryland em 1979, contava apenas 24 anos quando chamou a atenção de seus superiores sobre o que acontecia nos porões da prisão de Abu Ghraib. Em janeiro de 2004, ele enviou ao Comando de Investigações Criminais do Exército um CD com as fotos dos abusos cometidos no Iraque. Suas denúncias culminaram com a condenação de diversos militares por violações à Convenção de Genebra.

Joe Darby
Joe Darby

Seu ato permaneceria anônimo não tivesse sido citado nominalmente por Donald Rumsfeld durante as audiências públicas no Senado. Daí em diante, Darby e sua família vivem anônimos, escondidos sob a proteção do Estado, desde que sua casa foi vandalizada e ele e sua família passaram a receber repetidas ameaças de morte.

Em seu discurso de agradecimento ao ser condecorado com o Reconhecimento de Coragem John F. Kennedy – um prêmio àqueles que agem de acordo com suas consciências na busca por um bem maior, muitas vezes arriscando suas vidas e/ou carreiras – Darby disse: “Quando estava no Iraque, tive uma difícil decisão a tomar. E não podia imaginar que receberia um prêmio por essas ações. Apenas me pareceu a coisa correta a fazer.”

Mas Darby foi apenas uma voz dentre as dezenas de outros soldados que conviveram, por três longos meses, com os horrores que aconteciam nos porões de Abu Ghraib. A única pessoa que fez “a coisa correta”. Sem ele, provavelmente nada disso teria vindo à tona. Darby tomou a decisão que colocava-o do outro lado da linha entre o Bem e o Mal. Ele vivia e presenciava exatamente as mesmas condições que seus colegas de farda. A mesma situação que pode fazer com que sejamos cruéis ou bondosos, indiferentes ou zelosos, destrutivos ou criativos, vilões ou herois. A mesma situação.

Zimbardo ainda contrapõe sua ideia de Imaginação Heroica ao conceito de Banalidade do Mal, cunhado por Hannah Arendt em sua obra Eichmann em Jarusalem: um relato sobre a banalidade do mal. Quando a escritora alemã descreveu Adolf Eichmann, o arquiteto do Holocausto, como uma pessoa comum que apenas recebia ordens, ela foi contra todos os que viam nele um monstruoso sociopata – além de causar revolta na comunidade judaica. Arendt classificou Eichmann como um indivíduo normal que, em situações extraordinárias, tomou decisões erradas.

Hannah Arendt
Hannah Arendt

No outro extremo estariam, para Zimbardo, as pessoas que tomam as decisões certas: os herois. Mas, ainda segundo ele, os modelos que temos de herois são equivocados – e, talvez por isso, a ideia ainda pareça estranha à leitora.

Quando pensamos em herois, idealizamos figuras como Gandhi, Mandela e Luther King, mas estas são pessoas extraordinárias, raras exceções na raça humana e que sacrificaram suas vidas em nome daquilo que defendiam. Tampouco servem os herois infantis, uma vez que são dotados de super poderes, distanciando-se bastante da pessoa comum.

Os herois de Zimbardo são pessoas comuns, como eu e você. São os riquelmes e auters que habitam em nós – embora o pequeno heroi não tivesse noção do risco que corria, pelo perigo da situação ou por não contar, de fato, com os poderes do alter-ego de Peter Parker. São os anônimos herois do dia-a-dia esperando, adormecidos, sua grande chance de fazer algo diferente (e que não necessariamente representará algum risco de morte).

Porque a chance para se tornar um herói pode vir uma única vez na sua vida. E se você deixá-la passar, saberá disso para sempre.

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TEXTOS RELACIONADOS:

Experimentos em Psicologia – Milgram e o choque de autoridade (como a autoridade pode levar as pessoas a cometerem maldades; alguns exemplos do nazismo);

Experimentos em Psicologia – Latané, Darley e a paralisia coletiva (quais os motivos para as pessoas não agirem em situações de emergência?).

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* A passagem do trem manchou de graxa seu adorado boné com o logotipo da Playboy, mas rendeu-lhe uma assinatura vitalícia da revista, oferecida pelo próprio Hugh Hefner…

Na média, um menino dessa idade mede 107 centímetros e pesa pouco menos de 19 quilos, ao passo que uma menina de um ano e dez meses mede cerca de 80 centímetros e pesa 11 quilos. Ou seja, o heroi era um palmo e meio maior do que Andrielli e carregou-a no colo, apesar de ela ter quase 60% do seu peso.

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

10 pensamentos em “Experimentos em Psicologia – Phil Zimbardo e a imaginação heroica”

  1. Excelente post!!!
    Ainda não recebi da Amazon o meu “Unthinkable” que trata sobre o heroísmo e gdes acidentes. Na curtíssima resenha que li fala que um dos motivos do heroísmo é a pessoa não conseguir encarar o fato de não ter feito nada naquela hora crucial pelo resto da vida dela.
    Abrax

  2. Muito bom, e mostra que podemos, sim, fazer a diferença. A chave é conseguir se enxergar no outro, acho.
    Fico imaginando se culturalmente existem diferenças no que tange à reações individuais e coletivas…Se o mito de que latinos são mais solidários que anglo-saxões se confirmaria, ou não. Já estou viajando, rs!
    Este link mostra vários exemplos de heroísmo aqui no Brasil:
    http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1114374-5605,00-HEROIS+POR+UM+DIA+CONTAM+POR+QUE+ARRISCARAM+A+VIDA+POR+DESCONHECIDOS.html
    Interessante como todos os “heróis” tem em comum o fato de acharem suas ações absolutamente normais.

  3. Balu,
    outro dia li que a pessoa age heroicamente porque não conseguiria viver com a culpa de não ter feito nada. Até concordo com isso, ainda que talvez não dê para pensar em muita coisa na hora H. Mas o texto concluía dizendo que a pessoa agia, no final das contas, por motivos próprios – o que já considero meio forçado.
    Nina,
    excelente observação! Acho, sim, que o heroísmo tem questões culturais envolvidas. Creio que as sociedades mais coletivistas tendem a ser mais solidárias, enquanto que nas mais individualistas as pessoas correm menos ricos pelas outras. Mas talvez isso transcenda um pouco a nacionalidade, recebendo influências também da religião, etnia e do próprio ambiente em si.
    Um aspecto interessante disso é ver o surgimento dos super-heróis americanos. Joe Simon e Jack Kirby tiveram motivações políticas para idealizar o Capitão América durante a Segunda Guerra Mundial (http://en.wikipedia.org/wiki/Captain_America). Stan Lee criou o Homem de Ferro no decorrer da guerra do Vietnã, para inspirar o nacionalismo americano frente ao comunismo soviético (http://vanhoff.wordpress.com/2008/04/20/iron-man-and-vietnam-stan-lee/).
    Ainda que estes não se encaixem no ideal de herói de Zimbardo – pois não são pessoas comuns – servem para inspirar o heroísmo, especialmente nas crianças.
    Há um interessante projeto voltado para a divulgação de feitos heróicos, o My Hero Project (http://www.myhero.com/myhero/home.asp). Também é interessante ver a “Oficina de heróis” citado por Zimbardo no vídeo do texto anterior (http://thejanuscenter.com/heroworkshop/index.htm).
    Abraços,
    Rodolfo.

  4. Corrija o erro no artigo, “Porque a chance para se tornar um herói pode vir uma única vez na sua vida. E se você deixá-la passar, saberá disso para sempre.”
    Ela vem no momento que vc a cria, não está relacionanda com destino ou carma. Nada de serendipity, acaso ou sorte/azar, e sim com o ser humano ser protagonista de si mesmo.
    As always, Delivery or Die.

  5. Rodolfo, boa noite,
    Eu já conhecia as imagens porque a TVCultura-SP exibiu uma série sobre Psicologia com o próprio Zimbardo. Mas há uma coisa me inquietando: a Imaginação Heróica é um perigo também!
    Entendo que é preciso equilibrar os pratos da balança, mas…
    Hoje, nós somos instados a sermos protagonistas. Ter o que é considerado “sucesso” é uma cobrança para que sejamos protagonistas da nossa vida. Esse protagonismo egoísta, seria uma forma de compensação da sociedade por toda a “desumanidade” pela qual somos submetidos? Não quero parecer a “mocinha conscientizadora” do comercial de chinelos de dedos, mas as contas não fecham!
    Um abraço

  6. Rodolfo,
    Muito bom o post, que é a ponta do iceberg. Vale a pena ler A Negação da Morte, de Ernest Becker, vencedor do Pulitzer em 1974. Ele diz que todos nós queremos ser heróis para justificar nossa vida que é inviável como empreitada: ele coloca que o ser humano é o único ser vivo que tem consciência que um dia vai morrer. Conviver com isso gera um custo psicológico considerável.
    E ser herói pode significar muitas coisas, desde pular nos trilhos para salvar uma pessoa, até acordar todo dia de madrugada, pegar 3 ônibus e trabalhar 70 horas por semana para colocar dinheiro em casa.
    Abraço,
    Marcelo

  7. Experimentos em Psicologia – Phil Zimbardo e o efeito Lúcifer

    Alguns dos textos anteriores mencionaram o poder de influência exercido por uma determinada situação na tomada de decisão do indivíduo. Asch mostrou que, sentindo-se pressionada por um grupo que sempre errava as respostas, uma pessoa pode ser induzida …

  8. A viralização da violência

    Causou mal-estar uma notícia recente sobre um crime ocorrido num hipermercado em Guarulhos, região da Grande São Paulo, no último dia 28. O motivo da estranheza, contudo, não foi o crime em si – já que esfaquear três pessoas num…

  9. Rodolfo, boa tarde
    Eu acredito sim que o ser humano – toda a espécie – tem sim uma certa tendência a praticar atos considerados perniciosos, tais como violência, agressões físicas ou verbais e agir com características nocivas em relação aos seus semelhantes. Estes atos podem ou não serem influenciados por fatores externos mas, de toda forma, é como se em nossa natureza existisse uma semente com este perfil a qual poderá germinar em qualquer momento, sem que possamos sequer prever ou imaginar.
    Cabe a nós, indivíduos, exercer nosso livre arbítrio e pleno juízo para utilizar o discernimento inerente dos seres racionais, e colocar em prática a capacidade para mensurar a consequência de nossos atos. Há consequências com desdobramentos que sequer poderemos prever quando pensamos na sequência de fatos futuros. É por isso que somos dotados de consciência e, ainda assim, há certos indivíduos que parecem não ter a consciência efetivamente desenvolvida ou, de certa forma, saudável.
    No final, vemos cada vez mais uma sociedade sendo formada e moldada com códigos de conduta estritamente pessoais e exclusivos. As pessoas tomam atitudes desmedidas, inconsequentemente, sem ter qualquer parâmetro ou refêrencia sobre o qual pudesse utilizar para colocar um pouco de luz sobre eventuais caminhos obscuris. Assim, andando em caminhos escuros, ocasionalmente há obstáculos nos quais tropeçamos e eventualmente nos ferimos.
    Obrigado
    Alex

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