Experimentos em Psicologia – Phil Zimbardo e o efeito Lúcifer

Alguns dos textos anteriores mencionaram o poder de influência exercido por uma determinada situação na tomada de decisão do indivíduo. Asch mostrou que, sentindo-se pressionada por um grupo que sempre errava as respostas, uma pessoa pode ser induzida a também se enganar. Milgram sugeriu que, num determinado contexto, pessoas comuns seriam capazes de eletrocutar seus pares – ao menos de mentirinha. Já Latané e Darley perceberam que grupos de pessoas tendem a imobilizar as ações individuais, transformando testemunhas em espectadores passivos, quando algum tipo de intervenção seria a atitude correta.
Para Phil Zimbardo esses três casos são fortes indícios de que, dependendo do tipo de situação em que nos encontremos, colocamos de lado nossas convicções pessoais, nossos valores morais e somos capazes de atos jamais imaginados.

6a00e554b11a2e88330115710383fa970c-320wiAluno brilhante, aos 21 anos Philip George Zimbardo formou-se summa cum laude em Psicologia, Sociologia e Antropologia na Universidade do Brooklin e, cinco anos depois, concluiu seu PhD em Psicologia pela Universidade de Yale. Depois ainda lecionou na universidade de Nova Iorque e Colúmbia, até chegar a Stanford, em 1968, onde mais tarde tornou-se professor emérito.

Ainda jovem leu O Médico e o Monstro (Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde), no qual o escocês Robert Louis Stevenson narra a estória de Dr Jekyll e Mr Hyde, duas personalidades antagônicas habitando o mesmo indivíduo. Por ter crescido no South Bronx, o sinistro roteiro não lhe era tão estranho, pois seu violento bairro era povoado por figuras semelhantes. Sua curiosidade voltou-se, no entanto, para a misteriosa poção que transformava o pacato Dr Jekyll no abominável Mr Hyde. Que maléfica fórmula seria capaz de semelhante metamorfose?

A partir do seu interesse em entender como pessoas boas são induzidas ou seduzidas a tomar atitudes violentas, bem como suas justificativas psicológicas, Zimbardo decidiu estudar a forma como a persuasão altera o comportamento das pessoas. Para ele, a linha que todos nós gostamos de traçar entre nós, pessoas boas, e eles, pessoas más, não era assim tão rígida e impermeável como gostamos de pensar. À estranha e onipresente força que eventualmente nos faz cruzar essa tênue fronteira, ele chamou de Efeito Lúcifer.

Lúcifer, o Anjo caído
Lúcifer, o Anjo caído

O termo tem origem na passagem bíblica que conta como Lúcifer (que significa “A luz”) foi expulso dos céus, no momento em que se rebelou contra seu próprio Criador. Até então, Lúcifer era considerado um dos Querubins favoritos de Deus, tendo grande destaque entre Seus demais auxiliares.

Tanta deferência trouxe-lhe a soberba e, tendo enchido-se de orgulho, Lúcifer recusou-se a servir ao homem, a criação divina favorita. Coube ao Arcanjo Miguel, então, a tarefa de expulsar o rebelde do céu, juntamente com seus seguidores. Vencidos pelas hostes de Deus, Lúcifer e sua legião de anjos rebelados desceram ao Inferno, de onde travam a eterna batalha de tentar corromper a protegida criatura: o homem.

Pois em 1971 Zimbardo estava pronto para ver sua teoria sobre a maldade na prática: em 14 de agosto teve início um dos mais controversos Experimentos em Psicologia feitos até hoje: o Estudo da Prisão de Stanford.

Com um anúncio no jornal, Zimbardo e sua equipe amealharam 75 candidatos para uma pesquisa onde seriam estudadas as condições dentro de uma prisão. Através de testes físicos e avaliações psicológicas, eles escolheram os 24 voluntários, dentre os mais saudáveis do grupo, que receberiam US$ 15,00 por dia de participação.

Um cara-ou-coroa dividiu o grupo entre guardas e prisioneiros, colocando-os dentro ou fora das grades de uma cadeia cenográfica montada no subsolo da própria universidade. Depois do sorteio, os voluntários eram instruídos a aguardar em casa o início do experimento.

Sem qualquer outro aviso, os prisioneiros eram buscados em suas casas pela própria polícia de Palo Alto, na Califórnia. Sob a “acusação” de assalto à mão armada, eles eram levados à delegacia algemados em carros-patrulha para serem fichados, tirar as impressões digitais e as fotos características.

Já na cadeia, os prisioneiros eram chamados apenas por números bordados em suas roupas – iniciando seu processo de despersonalização, a que retornaremos mais tarde. Todos usavam uniformes apertados, gorros de lã e eram obrigados a carregar bolas infláveis a maior parte do tempo, para que se sentissem desconfortáveis. Uma corrente atada a um dos tornozelos lembrava-os, constantemente, sua condição de prisioneiro.

Aos guardas foram fornecidos bastões de madeira, roupas características e óculos escuros espelhados, para que evitassem contato visual direto com os prisioneiros.

6a00e554b11a2e8833011571ff5a85970b-250wi Nas instruções que lhes deu um dia antes do experimento, Zimbardo alertou-os que não poderiam machucar os presos. Disse-lhes: “Vocês podem criar nos prisioneiros a sensação de tédio, algum grau de medo e o sentimento arbitrário de que suas vidas são controladas por nós, pelo sistema e que eles não têm qualquer privacidade. Vamos tirar suas individualidades em vários níveis. Geralmente isso tudo leva a sensação de impotência, ou seja, nessa situação nós teremos todo o poder, enquanto eles não terão nenhum”.

Um dos guardas foi designado Diretor da Prisão, enquanto que o próprio Zimbardo era o Superintendente. Mesmo sob sua supervisão, o experimento fugiu ao controle rapidamente. Ali ele pôde compreender o que acontecia a pessoas boas quando colocadas numa situação ruim.

Numa irracional escalada de brutalidade, os guardas tornaram-se sádicos algozes daqueles que, dias antes, eram apenas seus colegas de universidade. Eles forçavam os detentos a exercícios repetidos, sem motivo aparente. Proibiam os prisioneiros de sair das celas para suas necessidades fisiológicas e os impediam de esvaziar suas latrinas, causando rápida deterioração nas condições sanitárias do presídio.

Em 36 horas o primeiro preso teve um colapso nervoso, chorando, gritando e com o raciocínio totalmente perturbado, precisando ser removido imediatamente.

Os guardas tornaram-se cada vez mais cruéis com o desenrolar do experimento. Às vezes retiravam os colchões das celas como forma de punição, forçando os presos a dormir diretamente no concreto. Outros eram obrigados, ainda, a andar nus pela prisão.

Certa vez, o prisioneiro 416 recusou a alimentação oferecida e foi trancado num armário apertado carinhosamente batizado de solitária. Para enervar os presos e criar conflitos internos, os guardas disseram que só soltariam o colega isolado se os demais entregassem seus lençóis. Todos se recusaram.

Tão estranha quanto a crueldade cultivada pelos guardas era a passividade demonstrada pelos prisioneiros. Zimbardo explicou que eles internalizaram seus papéis a tal ponto, que sofriam passivamente o tratamento sádico, covarde e humilhante que lhes era imposto. Quando algum deles pedia para sair, era submetido ao “comitê de liberdade condicional”, onde seu caso era “julgado”.

6a00e554b11a2e88330115720f3c82970b-320wi Invariavelmente o pedido de condicional era negado (caso fosse aceito, ele sairia sem receber o pagamento por sua participação) e, por incrível que pareça, o prisioneiro aceitava candidamente a decisão e voltava à prisão. Ele parecia esquecer-se de que estava ali por sua própria vontade e, assim sendo, poderia ir embora no momento que bem entendesse, independentemente da decisão de qualquer comitê fajuto.

Imerso no seu papel, Zimbardo parecia não se dar conta do que acontecia com seu experimento. Mais de cinqeenta pessoas já haviam visitado as instalações da “prisão”, até que uma delas – e apenas uma delas! – chamou sua atenção para o tipo de atrocidades que se cometia ali. Disse, ainda, que o próprio Zimbardo, mesmo parecendo alheio, era responsável pelo que acontecia com aqueles rapazes.

Como que despertado de seu torpor, Zimbardo encerrou o experimento na manhã seguinte. Era ainda o sexto dia, de um total previsto de quatorze.

A maioria dos guardas mostrou-se desapontada com o prematuro encerramento das atividades. Muitos dos prisioneiros estavam psicologicamente abalados. Cinco tiveram colapsos nervosos.

Para Zimbardo, o experimento do Presídio de Stanford marcou o início de uma extensa carreira de pesquisas procurando entender as origens do mal – especialmente quando praticado por pessoas comuns. Algumas de suas mais interessantes teorias podem ser acompanhadas nessa palestra que ele deu na edição de 2008 do TED (agora com legendas em Português! Advirto, porém, que há imagens fortes de violência.).

Nos mais de trinta anos durante os quais estudou o tema, sua pergunta básica era: o que faz as pessoas agirem de forma errada? Suas conclusões são espantosas, ainda que simples e intrigantes, porque banais.

Imagine que alguém lhe pergunte: “vamos eletrocultar alguém hoje?” Tenho certeza que a leitora responderia, meio espantada, meio indignada:  “Hummm… não, obrigada. Prefiro o chá.” Mas dez anos antes de Zimbardo, Stanley Milgram provou que, uma vez colocados nas condições apropriadas, 65% dos voluntários fritariam pessoas inocentes, as quais nunca viram mais gordas.

Milgram estudou, no entanto, o poder de uma autoridade individual. Zimbardo avaliou, por sua vez, a influência de uma instituição. Trata-se, no final das contas, de um estudo sobre o poder da instituição. E a maioria de nós está dentro de uma instituição a maior parte do tempo.

Zimbardo explica, assim, que a maldade é uma questão de poder. É o exercício de poder para intencionalmente inflingir a alguém o mal psicológico ou físico. Ele identifica os sete processos sociais capazes de tornar uma pessoa mais suscetível a cometer algum tipo de maldade:

1. Dar o primeiro pequeno passo sem pensar: normalmente algo quase insignificante, mas que abre as portas para abusos cada vez maiores e que, quando aumentado pouco a pouco, não se percebe o resultado final. Como um choque de 15 volts.

2. Desumanização do outro: é mais fácil fazer mal a alguém quando não se vê ou não se sabe quem é essa vítima. Os prisioneiros de Stanford não se chamavam John ou Peter, mas 416 e 325.

Guerreiros anônimos
Guerreiros anônimos

3. Desumanização própria: quando se está anônimo numa multidão, sua maldade é diluída entre os demais. O antropólogo R. J. Watson estudou 23 culturas em seus processos de ir à guerra. Dos oito povos que íam para a batalha sem pinturas ou ornamentos específicos, apenas uma tinha alto grau de violência, isto é: torturavam, mutilavam e/ou matavam seus inimigos. Mas dos outros quinze que mudavam a aparência (ou se escondiam atrás de óculos escuros espelhados e uniformes padronizados), tornando-se anônimos, doze matavam e mutilavam. Ou seja, das que matavam e mutilavam, 12 entre 13 mudavam a aparência. Mais de 90%.

4. Difusão da responsabilidade pessoal: quando um criminoso é linchado, a culpa é da multidão e não dos socos e pontapés individuais. Mais do que a covardia do grupo, representa a diluição da culpa.

5. Obediência cega à autoridade: como demonstrado por Milgram, a autoridade também funciona como pára-raios para atribuição de culpa de quem apenas executa ordens.

6. Adesão passiva às normas do grupo: odiar a torcida adversária faz parte do ritual de vestir o uniforme do seu time – mesmo que o seu irmão esteja do outro lado da arquibancada. Mesmo que você odeie uma pessoa que nunca viu apenas por causa das cores que ostenta.

7. Tolerância passiva à maldade através da inatividade ou indiferença: muitas vezes o indivíduo não é o responsável direto pela maldade mas permite, inabalável, que ela seja praticada, conforme descrito no texto sobre Latané e Darley.

Quando essa cadeia de eventos ocorre numa situação que não lhe é familiar, ou seja, onde seus habituais padrões de resposta não funcionam, você está pronto para perpetrar o mal – e nem se dará conta disso. Sua personalidade e princípios morais já estarão desligados.

O autor explica que a chave para tal comportamento está na situação em que a pessoa se encontra e na enorme influência que ela tem sobre os indivíduos. O sistema formado pelo conjunto de bases acadêmica, cultural, social e política do indivíduo cria as situações que haverão de corrompê-lo.

No Experimento de Stanford, os papéis de guardas e prisioneiros faziam parte do repertório dos voluntários. Assim que os sorteios foram realizados, cada um encaixou-se ao seu papel automaticamente, de acordo com os estereótipos pré-concebidos.

Para mudar uma pessoa, prossegue, você tem que mudar a situação. E se quer mudar a situação, precisa entender em que parte do sistema está o poder. É necessário identificar e remover do ambiente o elemento dessa equação determinante para que o voluntário assuma o seu papel de guarda sádico – e mantenha-se nele.

Abu Ghraib na visão de Fernando Botero
Abu Ghraib na visão de Fernando Botero

Zimbardo esperava, ainda, que seus trinta anos dedicados ao tema pudessem ter esclarecido alguns tópicos no sentido de evitar que problemas semelhantes ocorressem novamente. Algo que o Pentágono parece não ter aprendido, haja visto os horrores praticados pelos soldados americanos em Abu Ghraib, cujo ambiente em muito se assemelhava aos porões de Stanford, três décadas antes.

A leitora pode ter certeza de que os sete passos descritos acima estavam espalhados em cada cela da prisão iraquiana. Além disso, os militares ali presentes eram oficiais da reserva, ou seja, não estavam preparados para as tarefas designadas.

Na qualidade de testemunha especialista, o pesquisador participou do julgamento de alguns soldados acusados de maus tratos em Abu Ghraib. Como parte da defesa, testemunhou em favor do sargento Ivan “Chip” Frederick na Corte Marcial. Argumentou que sua sentença deveria ser atenuada devido às circunstâncias do ambiente, onde as pessoas não conseguem resistir às pressões. Ainda assim, Chip perdeu suas nove medalhas, a pensão por 22 anos de serviço e foi condenado à cumprir a pena (máxima) de oito anos de prisão.

Ambos os casos – Stanford e Abu Ghraib – representaram, na opinião de Zimbardo, demonstrações clássicas do poder de situações sociais distorcendo identidades pessoais, valores e princípios morais longamente celebrados, no momento em que alunos e soldados internalizavam o brutal papel de um guarda sádico.

Enquanto o Pentágono insistia na tese de que algumas maçãs podres haviam estragado todo o cesto, Zimbardo tinha certeza de que era o cesto que era ruim – não necessariamente as maçãs. Para ele, as pessoas não podem ser consideradas inteiramente boas antes de terem sido postas à prova numa situação extrema.

6a00e554b11a2e8833017ee8bf4b50970d-200wiO experimento é utilizado hoje em dia para mostrar que a situação talvez tenha mais influência no comportamento das pessoas (Situational Attribution ou Atribuição Situacional; isto é: a causa está na situação) do que suas personalidades individuais (Dispositional Attribution ou Atribuição de Disposição; isto é: a causa está na própria pessoa). Noutras palavras, atrela o comportamento a fatores externos, antes dos internos. São conclusões compatíveis com os estudos de Milgram, ainda que a origem da influência divirja.

Em 2007 Zimbardo reuniu boa parte do material já publicado a respeito do Experimento de Stanford, além daquilo que vivenciou nos julgamentos de Abu Ghraib no livro O Efeito Lúcifer: Como Pessoas Boas Se Tornam Más, lançado recentemente pela Editora Record.

Em 2010, o Experimento de Stanford inspirou o filme The Experiment, estrelado por Adrien Brody e Forrest Whitaker.

Mas será que a palavra final de Zimbardo é que todos nós, independentemente de nosso caráter ou inclinação, estamos fadados a cometer maldades várias vezes durante a vida, em virtude de uma combinação de eventos? Na verdade não. Zimbardo acredita que somente entendendo a maldade e suas mais profundas causas e manifestações é que poderemos conhecer seu antídoto. A seguir, Phil Zimbardo e a Imaginação Heróica.

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

29 pensamentos em “Experimentos em Psicologia – Phil Zimbardo e o efeito Lúcifer”

  1. Rodolfo,
    Eis-me aqui mais uma vez fascinada com seus textos e aprendendo! Parabéns!
    Pertubador é pensar como eu agiria em situação semelhante. Aliás, como mãe, tenho grande preocupação com o bullying. E meu medo não é de que minha filha se torne vítima, mas sim, algoz.
    Duas coisas me chamam a atenção no seu texto:
    A relação com o poder, que me recorda a famosa frase de Lord Acton: “O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Não por acaso, ditaduras são sempre violentas.
    Também destaco a frase “Para mudar uma pessoa você tem que mudar a situação.” Neste caso, o destaque pode também ser visto de forma positiva. A mudança de situação pode também alterar positivamente o destino de alguém.
    Aguardo ansiosa o novo texto!

  2. Realmente muito bom o texto Rodolfo.
    Esse assunto sobre “maldade circunstancial”, talvez possa explicar em parte, nosso grave problema de violência urbana, principalmente nas favelas. Encarar aqueles “meninos do tráfico” como meramente “bandidinhos”, que não tem jeito e deveriam tudo estar na prisão, é um pensamento “burro” antes de preconceituoso frente a esse texto.
    Valeu pelo post!
    Abraços,
    Carlos

  3. Rodolfo,
    Fico pensando na questão do “poder instituído” nas “sociedades democráticas”. Como fazer uma análise a partir dos experimentos de Zimbardo e Milgran?
    Por que pensar apenas “favelas e cortiços”? E os grandes “condomínios de alto luxo”? E as capitais das repúblicas ou centros de poder como Londres, Washington, Brasília, Jacarta?
    E as “várias sedes” dos conglomerados “transnacionais”?
    As bolsas de valores? E os grandes bancos? As lojas de altíssimo Luxo? As marcas famosas que comercializam produtos feitos por crianças ou trabalho escravo? Ou “containers” de lixo tóxico e domésticos(?!!!)enviados para paízes como a Zâmbia, Filipinas ou Brasil?
    E então? Por favor Rodolfo, me ajude a pensar tudo isso! Continue com os textos!!!
    Grata
    Luiza Helena

  4. Nina,
    você tem razão em se preocupar com a questão do bullying, porque dos sete processos sociais capazes de tornar uma pessoa mais suscetível a cometer algum tipo de maldade, destacados por Zimbardo, acho que apenas o quinto (obediência cega à autoridade) não se aplica tanto ao ambiente escolar onde isso mais ocorre.
    E o pior é que aí ainda entra um sério fator da Dissonância Cognitiva que os autores destacam em “Mistakes were made (but not by me)”: a forma como as pessoas justificam seus erros. De início, uma criança nem sabe porque está na onda da turma e maltratando um colega. Mas depois que participa da primeira surra, começa a vê-lo como um fracote covarde. E aí passa a achar que ele merece mesmo apanhar.
    Luiza,
    como você bem destacou, a maldade não se dá apenas no nível do indivíduo; ela também pode ser perpetrada por instituições que, no final das contas, são comandadas por indivíduos.
    Mas como destacou Zimbardo, a maldade pressupõe uma relação de poder, claramente identificável nas situações que você mencionou.
    **********
    O que adianto às duas – enquanto não termino o próximo texto sobre Zimbardo – é que A SITUAÇÃO que leva alguém a cometer alguma maldade É EXATAMENTE A MESMA que lhe oferece uma oportunidade para fazer o bem. Veremos isso na Imaginação Heróica. Até lá!

  5. Não tenho dúvidas que existem fatores que levem à fugir da opção pela maldade/passividade.
    As teorias de Zimbardo são bastante contundentes, porém me preocupam no que tange ao grau de absolvição da culpa dos envolvidos em casos em que a maldade aflora. Sempre existe, afinal de contas, a questão da escolha individual.
    Você talvez conheça um livro “Os carrascos voluntários de Hitler”, de Daniel Jonah Goldhagen. Embora o autor force um pouco a mão em busca de comprovar sua teoria, aborda alguns pontos muito interessantes no tocante à participação, ainda que pelo silêncio e omissão, da população civil no genocídio contra os judeus. Aliás, o que Zimbardo diz me lembra Hannah Arendt (que o livro que eu menciono, aliás, combate).
    Lembrei-me também do filme recente, Rendition (O Suspeito, no Brasil), especialmente no que tange à escolha individual frente à autoridade superior e à situação em que o mal se apresenta como “correto” ou “justificável”.
    Eu, no meu otimismo de leiga, procuro o máximo de informações possíveis sobre o mal e suas origens, para combatê-lo ao menos dentro de mim.
    Estou aguardando ansiosa o novo texto!

  6. (Eu de novo…)
    Assisti agora ao vídeo, que aliás, menciona Hannah Arendt.
    O final do vídeo já adianta o seu texto que virá a seguir. E me fez refletir sobre a atenção diária e necessária para que sejamos não, necessariamente, um herói, mas alguém que se importa com o outro.
    Espero estar ensinando corretamente a minha filha a se enxergar no próximo.

  7. Brilhante texto, Rodolfo.
    Algo parecido, porém um pouco diferente, foi narrado pelo Saramago em “Ensaio sobre a cegueira”.
    Uma vez num ambiente incontrolável, onde as pessoas não “viam” o que estavam fazendo, o mal se apresenta nas mais precárias circunstâncias.
    Belo trabalho. O seu blog é O BLOG.
    Abs.

  8. Olá, Rodolfo.
    Muito obrigado por sua visita ao Divagações e pelos links para os seus posts sobre Zimbardo. É um tema, a meu ver, dos mais importantes, e no entanto menos conhecido do que deveria. Este ano, lendo sobre massacres como o de Ruanda, voltei-me novamente para essas questões, mas infelizmente as obrigações acadêmicas têm-me cassado o tempo para o assunto.
    Não sei quem é Sérgio Storch, que você mencionou no comentário, mas agradeço a ele também. Pouca gente conhece o Divagações, e é sempre ter algum feedback.
    Um grande abraço,
    Rodrigo.

  9. Experimentos em Psicologia – Bruce Alexander e o mito do vício

    Nos textos mais recentes exploramos alguns comportamentos humanos relacionados a escolhas feitas em ambiente pouco familiares, onde os indivíduos encontravam-se em situações de estresse. Especificamente os artigos sobre Zimbardo e Milgram mostraram com…

  10. Experimentos em Psicologia – Phil Zimbardo e a imaginação heróica

    No texto anterior vimos como pessoas comuns são suscetíveis a cometer atos perversos quando colocados em situações adversas. No famoso experimento da Prisão de Stanford, Phil Zimbardo acompanhou seus estudantes universitários revelando seus lados mais …

  11. Cabral e a Teoria das Janelas Quebradas

    Posando de anfitrião para o ex-prefeito de Nova Iorque Rudolph Giuliani em visita ao Rio de Janeiro, o Governador do Estado Sérgio Cabral Filho preferiu jogar para a platéia e levá-lo a uma favela, em vez de conversar seriamente sobre…

  12. Do medo de falhar à ação desproporcional

    Por mais que a gente queira, se prepare ou se esforce para tomar boas decisões, volta e meia damos umas escorregadas e o resultado acaba sendo mais ou menos desastroso. Uma boa forma de evitar tais percalços é conhecer melhor…

  13. Rodolfo,
    Parabéns pelo excelente texto!
    Estou fazendo alguns levantamentos sobre violência institucional (assédio moral e sexual), e seu trabalho possibilitou que eu conhecesse mais sobre o experimento de Zimbardo, o que foi de grande utilidade.
    Obrigada!

  14. Além do bem e do mal?

    Acompanho intrigado mais um nada educado debate via Facebook. (Aliás, debates educados são raros em tempos de Internet.) Em sua Fan Page, o Administradores postou uma inspiradora frase de Henry Ford: “Se existe um único segredo do sucesso, ele está…

  15. A título de preciosismo, tecnicamente não há a passagem que afirme existir/ter existido um anjo/querubim chamado Lúcifer que rebelou-se contra seu criador, teria criado uma guerra nos céus e por fim expulso. Na verdade essa história é uma exegese equivocada a partir da construção de passagens que não possuem relação entre si (consequentemente não corroboram e não existe ou teria existido tal história/evento). As passagens são Ezequiel 28:12-19, Isaías 14:12 e Apocalipse 12:7-9.

  16. Ismael voce pode estar desviando sua interpretação do que esse estudo realmente trata. O efeito Lucifer não tem relação com o “anjo Lucifer” (muito menos se ele existiu ou não, provavelmente não), mas sim com ideia, com a imagem do anjo caído, independente do que a Bíblia fale e de quantas citações você ou qualquer um conheça

  17. O estudo do comportamento humano é muito fascinante. E por falar em estudar a origem da maldade e a sua relação com a raça humana é assunto dos mais complexos.
    O que dizer das atrocidades dos nazistas durante o predomínio no 3º Reich?
    Se na época tais interesses estivessem em foco na ciência, poderia ser um excelente laboratório na análise do comportamento humano e sua relação com a maldade e a bondade.

  18. Seus “guerreiros anônimos” trata-se de um grupo musical chamado Turisas, da Finlândia. Não acho que seja uma ilustração válida, mas o resumo da palestra do Zimbardo está muito bom! Parabéns!

  19. Prezada leitora,
    Exatamente onde refiro-me às leitoras há um link para um texto no qual explico o motivo de o tratamento ser feito no feminino.
    Em 99,99% dos textos da internet utiliza-se a referência no masculino e eu jamais soube de um caso de uma leitora que houvesse reagido com tamanha grosseria e falta de educação. Você foi a primeira.
    Com amor, Rodolfo.

  20. Perfeito! Vi o documentário “Quite Rage”, excelente o estudo de Zimbardo!
    Só não entendi porque a imagem da banda Turisas ali… Coitados, só porque é viking metal não precisava ser ligado à barbaridades haha

  21. Artigo muito elucidativo e bem escrito.
    A inclinação para o pólo é algo factível e forte, porém nada mais gratificante do que estarmos sempre focados nos chamados “bons” pensamentos, ou seja, o pólo positivo. É, ao mesmo tempo, simples e difícil, tendo, somente, que sermos fortes o bastante para controlarmos a nós mesmo, até que se torne uma prática natural.
    Muito bom trabalho, que seja contínuo.
    P.S: A título de esclarecimento, a foto com a descrição “Soldados anônimos” é, na verdade, uma foto da banda de folk-metal finlandês Turisas.

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