A culpa é da multa?

6a00e554b11a2e8833011571451b44970c-320wiJá levei mais multas de trânsito do que gostaria de admitir. Estacionei em locais proibidos, fui fotografado por radares e até já levei uma insólita notificação por “Dirigir sem atenção”, ao fritar os pneus parando num sinal amarelo.

Mas jamais cheguei perto do limite de 20 pontos. Também nunca recorri de uma multa. Todas elas foram justas e merecidas. Paguei-as, pois.

Por isso uma manchete de jornal como esta me chama a atenção. É impressão minha ou O Globo parece querer pôr no Governo a culpa pelo excessivo número de multas? “Rio aplica uma multa a cada 14 segundos”.

Até onde sei, para uma multa ser aplicada é preciso que alguém multe e alguém seja multado. Se não houver quem seja multado, não haverá multa. Logo, se há muitas multas, é porque há muita gente fazendo coisas erradas. Se há muita ou pouca fiscalização não importa. Esse é um dever do Estado.

Quando esse assunto é abordado em conversas pessoais, é o momento em que a pessoa diz: “Ah, mas o limite era 70 km/h e eu estava a 72 km/h…” Trata-se de mais uma perniciosa mania de brasileiro: ele conhece o limite e sabe as consequências de ultrapassá-lo mas, ainda assim, quer testá-lo, ver até onde pode burlá-lo.

Claro, sem ser pego. Porque aí, quando ele é pego, acha injusto…

Outra justificativa que ouço muito dos multados indignados é “Ah, mas eles esconderam o radar atrás da placa. Isso não se faz!” Essa parece-me a típica afirmação da pessoa que, na ausência de fiscalização, passaria por cima de todas as regras.

Haveria até uma maneira de verificar tal hipótese. Imagine que o prefeito de uma cidade faça um trato com seus moradores: durante um fim de semana todas as câmeras de fiscalização e radares ficarão desligados e, se os índices de acidentes diminuírem*, então é sinal de que a população sabe se comportar.

Caso os resultados se repetissem numa semana, ou durante um mês, ficaria comprovado que os habitantes daquele local seriam capazes de se auto-regular.

Será que isso funcionaria na sua cidade?

Em enquete recente no mesmo jornal, os leitores confessam outra infração muito comum: a maioria usa o celular ao volante, como pode ser visto ao lado.

A escancarada confissão de culpa dos infratores é o reconhecimento da moral dupla com a qual o cidadão acostumou-se a viver: de um lado

Pesquisados pedem mais multas
Pesquisados pedem mais multas

reconhece o erro; de outro, reclama quando é flagrado.

Um caso clássico de Dissonância Cognitiva, no qual o indivíduo chia do excessivo rigor na aplicação das punições, ao mesmo tempo em que aproveita as oportunidades para cometê-las. A deturpada visão de um mundo canhestro onde um erro justifica o outro.

É interessante perceber, contudo, que o único erro justificável é o seu próprio. Porque se o motorista do outro carro estiver usando o celular ou tiver bebido, aí é um absurdo. Usar o celular não atrapalha a nossa atenção e beber não diminui os nossos reflexos. Só os dos outros. Temos atenção de Batman e reflexos de Demolidor. Mas o carro ao lado é sempre guiado pelo Mr. Magoo.

__________

* Afinal de contas, o objetivo da maioria das leis de trânsito é reduzir o número de acidentes e regular o tráfego.

LEIA TAMBÉM:

Quero meu deputado feliz – o dinheiro arrecadado pelas multas deveria pagar viagens de turismo dos Deputados e Senadores. Quem sabe assim você não se manca e para de fazer cagada no trânsito?

– Para piorar, os exemplos que temos também são lamentáveis – Exemplos exemplares de ídolos idos.

– Uma explicação para este fenômeno, à luz da Teoria dos Jogos: O brasileiro vive um eterno dilema do prisioneiro.

4 pensamentos em “A culpa é da multa?”

  1. Exemplos exemplares de ídolos idos

    O recente texto que escrevi sobre o espantoso apreço que o brasileiro nutre pelo hábito de levar multas ainda não esfriou e eis que, não menos do que de repente, novas evidências se acumulam sobre o fato. Representando uma das…

  2. Muito bom o texto!
    Lendo ele eu me recordei de uma multa que levei com um amigo, e que por incrível que pareça, estavamos certos.
    Pegando estrada para voltar para minha cidade com meu amigo bem de manhã, passamos no posto policial e o “seu guarda” fez um daqueles gestos do qual você só precisa diminuir a velocidade.
    Meu amigo que estava dirigindo ainda fez mais, parou o carro e esperou cerca de uns 30 segundos, como nenhuma autoridade se manifestou em nossa direção, pedi pra ele seguir viagem pois o sinal era só para diminuir a velocidade e não para parar.
    Eis que 5 minutos depois e alguns kilometros a frente, uma viatura da polícia nos perseguindo, nos fez parar e ainda disse que não obedecemos o sinal de parada dele!
    Adiantou discutir, recorrer? Claro que não
    Multa gravíssima de 200 e poucos reais.
    O engraçado é que enquanto estavamos na base policial levando a multa, o mesmo guarda fez o mesmo sinal para outros cem carros diminuirem a velocidade, ninguém precisou parar!
    São coisas da vida..

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *