A imprensa adormecida

Uma triste constatação estampou o blog do Ricardo Noblat na última quarta-feira: A oposição piscou. Sarney deve ficar. A frase trouxe-me uma sensação de que havia alguma coisa mais errada no texto, além da deprimente conclusão do jornalista sobre o presidente do Senado. O recente acúmulo de escândalos políticos e financeiros no país, aliado à absoluta ausência de punições compõe um desolador quadro do atual momento do país. Qual seria, então, o motivo disso?

6a00e554b11a2e88330120a4ed710b970b-320wi Obviamente temos como causa central o escancarado e imoral apego da classe política ao dinheiro público, às negociatas, aos roubos e mentiras. Mas há um outro fator que tem contribuído decisivamente para a vergonhosa impunidade com que a Justiça cega, surda, muda, paraplégica e esclerosada condecora os réus.

O brasileiro é um povo que tem memória de peixinho dourado. Nutre uma assombrosa indiferença ao passado recente de seus candidatos e, com seu voto irresponsável, insistentemente reconduz ao governo absolutamente todos os perpetradores dos indecentes escândalos de hoje. No dia seguinte à eleição, o povo já se exime da culpa pelos políticos que o governa. Alheio ao seu passado, condena-se a repeti-lo indefinidamente. E o tem feito com britânica pontualidade e religiosa assiduidade.

Mas se o eleitor por ventura não tem a obrigação de se lembrar do que aconteceu exatamente ontem – embora eu acredite que tenha – o jornalista tem o dever profissional de se lembrar. E em se lembrando, tem a obrigação moral de alertar a população, não só no período do pleito mas, especialmente, no dia-a-dia, seja em que época for. E, nesse aspecto, os jornalistas têm feito um papel absolutamente medíocre.

Noblat, a oposição piscou, mas a Imprensa dorme a sono profundo! E se a covarde oposição pisca e dá as costas à população é porque a Imprensa deixa.

Hoffman e Redford em Todos os homens do presidente
Hoffman e Redford em Todos os homens do presidente

Nunca antes na história desse País os jornalistas se mostraram tão quietos e incapazes de mobilizar a opinião pública. Discursos vazios, denúncias mornas, fraquíssimo engajamento. O que antes era conhecido como o Quarto Poder ocupa-se hoje de fofocas gerais, picuínhas menores, epidemias inexistentes e toda a sorte de futilidades que tapeia e entretém o povo ignorante.

A desanimadora coleção de escândalos perpetrados por réus confessos e outros tantos flagrados com batom na cueca é uma triste ilustração do papel a que se resumiu a Imprensa. Sua participação nos escândalos é tão efêmera quanto a memória da população.

Se os escândalos adormecem é porque a Imprensa dá-lhes boa noite. Nina prevaricadores criminosos e embala a justiça em sono profundo. A corrupção, enquanto isso, mantém-se acordada, alerta e serelepe.

O que relega a Imprensa a tão secundário papel na história do país? Seria sua subserviência aos controles escusos dos grupos econômicos que dominam a mídia? Ou ainda a concentração das concessões de rádios e TVs pelas seculares oligarquias familiares, no criminoso escambo político a que o Congresso se submete? Quiçá, ainda, a mais pura e cândida incompetência?

Carlos Lacerda
Carlos Lacerda

Onde se escondem os jornalistas-estadistas de outrora? Por que se apequenam as consciências acovardadas nas redações? Que espécie de analfabetos alienados as faculdades de jornalismo abortam no mercado?

Hoje Noblat diz que a oposição dorme, mas convenientemente se esquece que a oposição está no mesmo barco. Ela mama no mesmo corporativismo que destruiu irremediavelmente quase todas as instituições do país.

Do mesmo modo que o Congresso apóia seus enjeitados, seus párias e os que emporcalham suas torres gêmeas, outras organizações também não se empenham em afastar suas maçãs podres e comprometem todo o cesto. Defendem advogados que levam celulares para traficantes nas cadeias, absolvem médicos que matam por imperícia ou negligência e dão de ombros a engenheiros que constroem prédios com areia e gravetos.

Lúcia Hippolito diz que Dilma Rousseff tem especial vocação para envolver-se em “situações esquisitas”, referindo-se ao caso onde a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, acusa-a de pedir pressa numa investigação específica. Trata-se do tipo de cuidado, delicadeza e eufemismo que tanto tem debilitado a Imprensa brasileira. Todos se esquivam de dizer que uma das duas está mentindo. Que se suas consciências não as impedem de mentir, os cargos que ocupam deveriam fazê-lo. O mesmo cargo que torna tal tipo de mentira um crime.

Na Argentina, panelaços imobilizam o país ao menor sinal de desvios. Na França os estudantes queimam carros contra a xenofobia e na Grécia a população vai às ruas protestar contra a morte de um jovem assassinado pela polícia. Um jovem. O Brasil assiste um jovem sendo arrastado por bandidos por quilômetros. Vê um policial assassinar um jovem na saída de uma boate ser absolvido por legítima defesa – apesar de o tiro ter sido pelas costas, à queima roupa. E então muda de canal para ver a novela. Aliás, a novela é no mesmo canal.

6a00e554b11a2e88330120a544b7a3970cNa mesma quarta-feira, Paulo Duque (PMDB/RJ), presidente do Conselho de Ética do Senado (algo tão inútil quanto o anjo-da-guarda da família Kennedy*) disse que a repercussão dos escândalos já constitui punição suficiente para seus envolvidos e apressa-se em arquivar todas as denúncias.

Talvez fosse verdade se os políticos fossem capazes de sentir vergonha. Ou se todo o dinheiro que eles roubaram não fizessem falta nenhuma ao país. Mas é como dizer que a viuvez já é suficiente castigo para quem assassina a esposa.

Com uma base política apodrecida, um povo frouxo e uma Imprensa preguiçosa, sarneys, renans, collors e que tais têm mais cem anos de perdão garantidos pela frente. Para a Justiça, mais cem anos de solidão.

* * * * * * * * * *

E como podemos reverter isso? Bom, eu tenho uma sugestão: a maioria de nós lê jornais na Internet. A maioria dos jornais que lemos na Internet tem espaço para comentários dos leitores. Então para cada notícia insossa, dissociada da realidade, vamos comentar perguntando sobre os recentes escândalos. Em cada fofoca dos tabloides, vamos cobrar novidades sobre o corrupto do dia. Vamos dizer o quanto a notícia sobre o green card do César Cielo é desimportante no atual cenário. Ou que é preciso resolver o futuro do Senado antes de discutir se Marina Silva é um bom nome ou não para a sucessão.

Vamos mostrar nossa indignação contra essa alienação. É de graça, dá pouco trabalho e pode ser feito de forma anônima. Porque ao menos essa manifestação ainda não foi censurada pela Justiça.

Você promete fazer a sua parte?

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* Um amigo do blog acaba de me lembrar que quando foi presidido pelo falecido senador Ramez Tebet, o Conselho de Ética cassou Luiz Estevão e provocou a renúncia de Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda.

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Atocha a tocha: onde enfiaram o dinheiro do PAN 2007?

4 pensamentos em “A imprensa adormecida”

  1. Muito bom o texto!
    Mas a imprensa livre em nosso país é slogan!
    Pertencem os jornais, as concessões de rádio e tv aos mesmos que estão nos atapetados salões do Congresso, do Senado, das Câmaras, etc.
    Todos estão “juntos e misturados” como dizem os mais jovens. Então, é preciso acordar, nós precisamos acordar do sono e sonho. Sua sugestão já é um bom começo!
    Um abraço

  2. O que fazer com um presidente com 110% de aprovação, que endossa tudo o que está aí?
    A imprensa está adormecida? A internet está fervilhando…
    Aproveitando, em qual senador votou na última eleição? Já enviou um e-mail para ele hoje?

  3. Sincera e desalentadoramente, eu jamais pude ser testemunha de uma imprensa que realmente investigou e desvendou qualquer tipo de maracutaia federal, estadual ou municipal.
    Os famosos escandalos Pitta e Lalau foram mais por mérito da ex-mulher e ex-genro. Mesma coisa aconteceu com o Mensalão (“mérito” duvidoso do Roberto Jefferson). E Collor começou a cair quando o irmão dele veio a público lavar a roupa suja.
    A Ferrovia Norte Sul (só para provar que sou velho), provavelmente foi divulgada pela parte que perdera a concorrência.
    No mais, a Policia Federal até fazia algum serviço, antes de ser desmontada a mando do Daniel Dantas.
    Imprensa? Só reverbera, faz coro, barulho e depois, nem para fazer a gente se lembrar dessa roubalheira.

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