Corrida nos olhos dos outros é refresco

Aterro do Flamengo
Aterro do Flamengo

Acompanho pelos jornais a polêmica criada no Rio de Janeiro, com a notícia de que uma corrida de Fórmula Indy poderia ser realizada na cidade, mais precisamente no Aterro do Flamengo. Segundo o jornal O Globo, líderes comunitários e defensores do patrimônio histórico têm dúvidas se um evento dessa magnitude seria compatível com a conservação do local.

Antes de mais nada, entendo que quase todo evento público é compatível com a conservação do local, desde que o devido planejamento seja feito e se observe algumas condições básicas. Isto posto, vamos adiante.

O Parque Brigadeiro Eduardo Gomes – nome oficial do local – é uma área de 1.200.000m2 e foi inaugurado em meados da década de 1960. Parte da Baía de Guanabara foi aterrada com entulhos trazidos do demolido morro de Santo Antônio, que existia na região do centro do Rio conhecida hoje como Castelo – até aí nenhuma preocupação ambiental. O projeto paisagístico é obra de Burle Marx, com cerca de 11.000 árvores de 190 espécies diferentes.

No entorno do parque, estão o Museu de Arte Moderna (que sedia uma variada gama de movimentadas festas), a Marina da Glória (idem), o Monumento dos Pracinhas (em homenagem aos mortos na Segunda Guerra Mundial), além de diversas quadras esportivas e parques infantis. De um lado, uma praia artificial foi construída a partir da dragagem de areia do fundo do mar e, do outro, quatro pistas expressas de cada lado compõem uma das mais importantes ligações do Centro com a Zona Sul da cidade.

Construção do Aterro, 1965
Construção do Aterro, 1965

Com a Enseada de Botafogo ao fundo, o Aterro do Flamengo compõe uma das mais belas paisagens do Rio de Janeiro, algo muito digno de nota considerando a abundância de belezas que enfeita a cidade.

A Fórmula Indy representaria, portanto, mais uma oportunidade de colocá-la no calendário esportivo mundial. Uma chance sem igual de mostrar seus encantos, numa prova que combina tecnologia, emoção e competitividade.

Corridas em circuitos de rua sempre são belos espetáculos para se acompanhar. Quem não adora ver as corridas nas apertadas ruas de Mônaco? Os luxuosos hotéis, a baía coalhada de barcos
ancorados em sua marina. Muitos fãs de Fórmula 1 conhecem em detalhes o Cassino de Monte Carlo sem jamais ter pisado no Principado.

Mas o carioca não a quer, porque tem medo que prejudique a conservação do seu patrimônio. Do seu patrimônio ou do seu sossego?

Nos últimos anos, o mesmo Aterro do Flamengo foi palco de shows dos mais variados e duvidosos estilos musicais. Recebeu em carreatas alguns ídolos esportivos, consagrados lá fora. Centenas de milhares de pessoas se espremeram ali para ver o Papa. Eventos que não trouxeram um mísero Real para a cidade.

Na iminência de uma competição de alto nível, porém, os moradores torcem o nariz. Sob o zeloso manto da proteção ambiental, disfarçam sua preguiçosa aversão a algum tipo de bagunça em seu bairro. “Ruas fechadas, alterações no trânsito? Deus me livre! Que façam essa corrida na Barra! Aí eu aprovo…”

GP de Mônaco
GP de Mônaco

O brasileiro espera que, como por mágica, um dia o Brasil acorde Mônaco. Sem que ele precise mover sequer uma palha. Que a mova o seu vizinho, mas não ele! A economia do país carece de investimentos externos e, particularmente o Rio de Janeiro, viu seus recursos se mudarem para Estados vizinhos nas ultimas décadas, num caminho só de ida.

Enquanto as empresas deixavam a cidade, a violência espantava os turistas, deixando sua rede hoteleira em petição de miséria. Quem hospeda-se no Rio hoje, paga caro por instalações antigas e pouca ou nenhuma infra-estrutura. Aí quando aparece a chance de algo motivador, a cidade desdenha. Que o façam na aprazível Ribeirão Preto, na aconchegante São Paulo ou ainda em Brasília, às margens do Lago Paranoá (nenhuma crítica a essas cidades). O Rio não precisa disso.

Que disposição, animação e motivação a cidade exibirá na Copa do Mundo de 2014? Acham que não vai dar trabalho? Que não vai ser um transtorno completo? Um caos no trânsito todo dia?

Como, então, o Rio de Janeiro ainda espera sediar uma Olimpíada?

5 pensamentos em “Corrida nos olhos dos outros é refresco”

  1. Sabe qual o planejamento? Vc tem um autódromo que já recebeu F-1 (o Jacarepaguá nomeado Nélson Piquet) nos anos 80. Daí vc reforma a um preço milionário e faz um oval pra receber a Indy no fim dos anos 90. Daí vc não emplaca nada e resolve receber o PAN/07, aquele que vc já citou aqui sobre os causos de roubalheira. Mas pra receber o PAN vc DESTRÓI parte do autódromo. Como assim?!? Aquele que vc construiu 1o pra F-1 e depois pra Indy?? E aí então vc resolve trazer novamente a Indy. Pra qual pista? Na rua! Como assim?!?!? E Jacarepaguá?!? Sei lá…
    Abrax
    p.s.: torço pra que vá pra Ribeirão, cidade que ainda quero conhecer e mais perto de SP.

  2. Pra completar, sou fãzaço de F-1… fui pra Mônaco algumas semanas antes do GP desse ano. A montagem dura 6 semanas antes e mais 3 depois. Tente fazer uma corrida de bicicleta no corredor da sua casa com uns 6 amigos, é mais ou menos essa a sensação. É o maior evento do país-cidade. Pergunte lá se alguém não quer que a F-1 aconteça todos anos…
    Abrax

  3. é…muito ruim.
    Mas bem pior foi ter perdido o autodromo de jacarepaguá pra especulação imobiliária. Ali, tinhamos o oval perfeito para a Indy e um miolo fantastico para a F1.
    Virou cartódromo e quem se deu bem foi um gangster…
    MAM

  4. Rodolfo, o melhorlugar em que já estive em toda a minha vida se chama “Autódromo de Jacarépagua”! Pude extrair tudo o que minhas motos tinham a oferecer e me sentir o próprio Valentino Rossi.
    O traçado era maravilhoso, tudo plano, super gostoso. Já rodei e outras pistas do Brasil, mas nenhuma se comparava em prazer.
    Infelizmente por aqui não se dá o devido valor aos esportes que não começam com “Fute” e não terminam com “bol”!
    Abraço!
    http://www.dinheirologia.com

  5. Esse é o Brasil … país da anedota pronta como diriam diversos.
    País que acredita na neurolinguística como ferramenta e fim únicos para se chegar ao ‘ordem e progresso’ …
    “somos um ótimo país, todos gostam de vir pra cá, tudo aqui é melhor do que em qualquer outro país do mundo, a violência está sob controle” …
    Mas botar a mão na graxa, aceitar que estamos na erda e que precisamos mudar, primeiro de atitude …. não, isso cansa ….

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