Disque-emprego

Esbarra em algumas Assembléias Estaduais país afora uma medida que pretende pôr um fim aos abusos cometidos pelo telemarketing. Recentemente aprovada em São Paulo, a lei apelidada de “Não Importune” impede que o cliente cadastrado receba ligações de empresas que querem lhe empurrar alguma coisa de que ele não precisava até então. Em três meses, já foram cadastradas 480 mil linhas telefônicas do Estado. Nada mais é do que o anti-spam telefônico.

Um televendedor em ação
Um televendedor em ação

Segundo recente pesquisa do Instutito Brasileiro de Relações com os Clientes (IBRC), 78% dos entrevistados desejam não mais receber os inoportunos telefonemas oferecendo assinaturas de periódicos, pacotes de telefonia, cartões de crédito e toda a sorte de quinquilharias e bugingangas.

Convém lembrar, antes de mais nada, que a culpa da insatisfação quase generalizada é das próprias empresas de telemarketing que, anos a fio, saturaram o mercado com profissionais despreparados e insistentes campanhas sem pé nem cabeça.

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Como vários outros setores – e seguindo uma lógica bem brasileira – estas companhias trataram de extrair o máximo de lucros de um setor em expansão, no menor intervalo de tempo, sem o devido preparo. Espremeram os investimentos em infra-estrutura (sistemas eficientes, bancos de dados inteligentes, adequada qualificação da mão-de-obra) para competir por preço num mercado que ficou rapidamente saturado.

O resultado disso transformou-os numa das únicas categorias à qual a lei ensaia impôr restrições ao seu trabalho. Querem limitar sua busca por clientes, por causa do modo como realizam seu trabalho. Menores de 18 anos, por exemplo, não podem comprar bebidas e cigarros porque o próprio produto é nocivo e não porque quem lhe vende (o dono do bar) é mal-educado. As drogas são proibidas pois fazem mal à saúde, não porque o traficante é grosseiro. Mas independentemente do produto que vai estar oferecendo, a empresa não pode estar ligando para a minha casa, nem pro meu celular.

Vai estar perdendo o emprego?
Vai estar perdendo o emprego?

Do outro lado está o temor de verem ameaçados 1,2 milhão de empregos diretos gerados pelas empresas do setor. Há risco de cortes de empregos? Sem dúvida que sim!

Mas convém lembrar que esses mesmos postos de trabalho não existiam antes do boom do telemarketing. Indústrias inteiras surgem e desaparecem de um dia para o outro. Novas tecnologias e modelos de negócio inovadores transformam as relações trabalhistas em todos os países.

Mas a preservação de postos de trabalho não justifica a manutenção de atividades que desagradem aos outros.

Sabidamente o tráfico de drogas e a violência movimentam a indústria da segurança empregando milhares de pessoas – mas não deixam de ser deploráveis por causa disso. Alguém pensa em fazer um movimento para a violência não acabar e evitar que essas pessoas percam seus empregos?

Do mesmo modo que houve gritaria quando endureceram a fiscalização de motoristas alcoolizados ao volante durante a Lei Seca, ou na recente proibição do fumo em locais públicos (em São Paulo), notamos algumas manifestações de descontentamento de parte da população. Algumas pessoas ficam indignadas por serem obrigadas a fazer o que é correto, ou o que manda a lei (às vezes essas duas coisas coincidem).

Por décadas o brasileiro acostumou-se a ver seus desvios de conduta ignorados ou tolerados, seja pela sociedade ou pelos agentes da lei; seja por amor ou por suborno mesmo. O resultado foi passar a considerar tais liberdades como direitos adquiridos.

E assim a caravana vai passando. Até o próximo mau hábito ter que ser abandonado, ou até a próxima lei ter que ser obedecida.

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