Experimentos em Psicologia – John Cade e a solução solúvel

A leitora que me perdoe, mas nesse texto que fecha a série de Experimentos em Psicologia tomarei algumas liberdades na definição do tema. Em primeiro lugar porque a área da Psicologia será estendida à Psiquiatria. Em segundo lugar, porque trata-se de uma descoberta acidental, motivada por situações fortuitas e uma incrível capacidade de observação por parte do pesquisador que, em sua busca científica, deparou-se com uma situação inesperada. Mas a partir dela, conseguiu provocar uma verdadeira revolução no tratamento dos distúrbios do humor.

John Cade
John Cade

No final da década de 1940, John Frederick Joseph Cade era um desconhecido psiquiatra australiano, trabalhando num hospital em Melbourne. Servindo como médico na Segunda Guerra Mundial, acabou caindo prisioneiro dos japoneses quando estes tomaram Singapura, ficando por mais de três anos detido em Changi. Quando retornou ao seu país natal, sua curiosidade científica permanecera intacta e ele guardava, então, um especial interesse em pacientes que sofriam de mania grave.

Cade buscava hipóteses que explicassem os irascíveis e agitados comportamentos dos internos sob seus cuidados. A partir dos sintomas mais básicos dos doentes, ele acreditava que a mania poderia estar relacionada a algum desequilíbrio nas funções da tireoide. Para ele, os episódios maníacos estariam associados ao excesso de algum metabólito produzido por essa glândula, enquanto que os períodos depressivos poderiam ser consequência da falta dessa mesma substância.

Os pacientes maníacos excretariam, então, este desconhecido elemento em quantidades maiores do que os indivíduos sadios. Para testar sua hipótese, Cade desenhou um experimento rudimentar, porém efetivo, executado numa cozinha abandonada do Bundoora Repatriation Mental Hospital, onde trabalhava: ele injetava concentrados da urina de seus pacientes em cobaias de laboratório para observar suas reações.

Na primeira tentativa de seu experimento, contudo, todas os porquinhos da índia utilizados por Cade vieram a morrer em virtude da alta toxicidade da mistura utilizada. Aqueles que receberam as amostras dos pacientes maníacos, no entanto, apresentaram as piores reações, revelando uma composição significativamente mais nociva.

Cade analisou mais a fundo as amostras destes pacientes, e percebeu que a causa do envenenamento era a ureia, mas que essa substância não era encontrada em quantidades maiores na urina dos pacientes maníacos. A resposta deveria estar, então, no ácido úrico que, acreditava, seria mais excretado pelos indivíduos doentes.

Para essa segunda parte do experimento, contudo, Cade teve muitas dificuldades em preparar os concentrados de ácido úrico, pois suas moléculas são de difícil solubilidade. Na tentativa de contornar esse problema, ele utilizou um outro sal que continha a substância desejada e era, ao mesmo tempo, de manejo muito mais simples para suas condições experimentais: o urato de lítio.

Os resultados iniciais deixaram Cade um tanto quanto confuso. Além de não ter os efeitos tóxicos da ureia, o urato de lítio provocava reações inesperadas em suas cobaias: os sempre agitados porquinhos da índia permaneciam calmos, impassíveis e completamente relaxados ao serem injetados com a mistura. Além de não responder aos estímulos, os animaizinhos quando virados de costas permaneciam serenamente deitados na mesma posição, em vez de tentarem freneticamente se desvirar como era de hábito.

6a00e554b11a2e883301157157e3c2970c-320wiMais algumas variações no laboratório e Cade conseguiu isolar a substância responsável pelo estranho comportamento de suas cobaias verificando, assim, que não era a ureia, e sim o lítio o sal responsável pela transformação no humor dos bichinhos.

Sabendo que o lítio já havia sido utilizado no século XIX em tratamentos experimentais para epilepsia, gota, câncer e diabetes, Cade testou em si próprio algumas concentrações do sal, comprovando corajosamente a segurança da sua administração em humanos. O primeiro paciente efetivamente testado, era um homem de 51 anos, internado em estado de severa excitação maníaca há pelo menos cinco anos.

Em menos de uma semana sua melhora já era perceptível e, vinte dias depois ele foi transferido para uma ala de observação. Com quatro meses de tratamento recebeu alta e voltou para casa com instruções para manter a medicação regularmente.

Por uma falha em seguir corretamente o tratamento, porém, o paciente teve uma recaída, precisando ser internado outra vez. Com sua medicação novamente regularizada, ele voltou a melhorar substancialmente, fortalecendo ainda mais a evidência da eficácia da droga. Outros nove pacientes também foram tratados com a mesma terapia, apresentando grande melhora nos sintomas, confirmando as propriedades terapêuticas do lítio.

O entusiasmo de Cade em realizar suas pesquisas, entretanto, não era o mesmo com que ele procurava divulgar suas descobertas. Em 1949, após publicar os resultados dos seus estudos numa revista local, o Medical Journal of Australia, o psiquiatra não empreendeu outros esforços para difundir o lítio entre a comunidade médica.

Cinco anos depois, o dinamarquês Mogen Schou, professor de biologia psiquiátrica na Universidade de Aarus, realizou extensivos testes químicos e clínicos com o lítio, conduzindo o seu primeiro estudo duplo-cego e controlado com placebo. Motivado por questões muito particulares – tanto ele quanto vários outros membros da sua família sofriam de psicoses maníaco-depressivas – Schou comprovou a eficácia do lítio no tratamento da sua própria doença, não só nas crises, mas também como agente profilático. No estudo publicado na The Lancet em 1970, o sal passou a ter eficácia terapêutica comprovada com sólidas evidências científicas, valendo a Schou duas indicações ao Prêmio Nobel.

Curiosamente a droga não foi imediatamente aceita nos EUA, em virtude de óbitos ocorridos na década de 1940 em decorrência do lítio. Naquela época, utilizava-se grandes quantidades cloreto de lítio como um substituto ao cloreto de sódio (o sal de cozinha comum) em pacientes com restrição ao uso deste último, por alguma condição cardíaca. Mais tarde descobririam que o lítio é contraindicado nessas situações.

Além disso, o tratamento com o lítio é extremamente barato e, por ser um sal naturalmente encontrado na natureza, não pode ser patenteado, deixando de representar, portanto, uma oportunidade comercial atraente para os laboratórios (o que também dificultava a obtenção de financiamento para as pesquisas).

Até hoje o lítio permanece como tratamento de primeira linha para pacientes com mania grave, apesar dos recentes avanços na moderna farmacologia. O Dr. Schou fez uma palestra póstuma de reconhecimento aos trabalhos de Cade no Congresso Internacional de Psicofarmacologia em Jerusalém em 1980, ano em que o pioneiro pesquisador australiano morreu de câncer, aos 68 anos.

Modernamente, a Psicose Maníaco-Depressiva foi rebatizada de Transtorno do Humor Bipolar, ainda caracterizando os indivíduos que têm alterações importantes no seu estado de espírito, variando entre a depressão e a euforia. Quanto mais acentuados os extremos e/ou mais brusca a mudança, mais grave a doença. A nova nomenclatura aliviou o estigma de termos fortes como psicose e maníaco – o que talvez tenha contribuído para a espantosa proliferação dos diagnósticos destes pacientes.

Atualmente os médicos americanos assinam cerca de três bilhões de receitas todos os anos. Entre 10 e 15% desse total são prescrições de medicamentos psicotrópicos, cujos efeitos sedam, estimulam, alteram o humor, o raciocínio ou o comportamento das pessoas. Segundo uma pesquisa das Universidades de Colúmbia e Pensilvânia, o consumo de antidepressivos nos EUA dobrou entre 1996 e 2005, medicando cerca de 27 milhões de americanos e movimentando cerca de US$ 9,6 bilhões anualmente.

O fato de eu gostar tanto dessa história – e de outras semelhantes – é que o acaso desempenha um papel central em sua trama. Cade encontrou o que estava procurando, mas de forma completamente inesperada, acidental. Seu experimento teve um desfecho inesperado e sua enorme curiosidade científica – bem como sua intuição – guiou-lhe por desconhecidos caminhos até uma das mais importantes descobertas científicas do século passado.

Em sua humildade, Cade jamais negou a influência do acaso e da sorte em sua realização. A língua inglesa chama esses episódios de serendipity – algo como serendipidade em português. Como no caso do lítio, não basta ser surpreendido por um acontecimento inesperado; é preciso perguntar-se o porquê de a surpresa ter acontecido. Por que o nível da água sobe – e leva consigo o barquinho – quando afundamos nela?

Em vez de jogar fora suas culturas de bactérias atacadas por um fungo, Alexander Fleming escolheu investigar o que aconteceu com seu experimento e acabou revolucionando a medicina com a descoberta da penicilina. A curiosidade científica e a observação desprovida de pré-julgamentos de Cade e Fleming nos mostram como pequenos contratempos naquilo que planejamos podem levar a resultados ainda maiores do que os imaginados. Exemplos que ilustram brilhantemente o poder da sagacidade acidental.

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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.

7 pensamentos em “Experimentos em Psicologia – John Cade e a solução solúvel”

  1. Rodolfo,
    Mais um texto muito bom! Eu tenho uma experíência própria com o lítio, que realmente é barato e muito, mas muito eficaz. O único problema é se você não é “bipolar” – e chamo esse diagnóstico de “a bola da vez”, e, como prêmio você ganha – em média – trinta quilos de sobrepeso. Para uma mulher isso é uma TRAGÉDIA. Mas imagino que para quem é bipolar realmente (como saber de fato hoje quem é e quem não é doente, por vários motivos, os diagnósticos não sáo tão confiáveis)o bem estar advindo da medicação e a saída de uma situação de incapacidade seja fundamental.
    Agora um apelo: Não abandone a série Experimentos em Psicologia!!!POR FAVOR!!! Eu aprendo muito, aprendi muito, minha cabeça funciona muito com seus textos! Além disso, recomendei para um vasto contingente de pessoas!
    Grande abraço
    Luiza Helena

  2. Muito boa a série! Parabéns!
    Tenho apenas uma correção: Na verdade, o responsável pelo efeito não era o sal em si, mas apenas o íon lítio (Li+).

  3. gostei muito do seu artigo! muitas informacoes muito pertinentes, um jeito muito legal de dispor as ideias 🙂
    só senti falta das referencias bibliograficas.
    abraco!

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