A celebração da ignorância

Todos nós conhecemos alguém que não perde uma chance de desfilar sua ignorância, confirmar seu analfabetismo, cristalizar sua estupidez. Gente com QI de ameba caolha e que só não diz besteira quando se cala – porque mesmo quando dorme, sonha burrice.

Entendo que nem todo mundo é obrigado a estudar, decorar a tabuada, conjugar verbos, saber o que é um hexágono ou um elétron. Especialmente onde o acesso à educação é um privilégio, em vez de um direito – e isso é uma tragédia per se.

6a00e554b11a2e883301157037bf7e970c-320wi Mas há quem opte por não estudar, goste de sua própria idiotice e prefira chafurdar na tosquice da sua mediocridade. Gostam do nós vai, adoram um menas e, se pudessem, se casariam com o pobrema. Alguns até se orgulham disso e, desavergonhados, exibem vistosas evidências de sua incontrolável cretinice.

Não veria mal algum nisso, caso não fossem atitudes rotineiras de um Presidente da República. Há diversas coisas que já foram louváveis em Lula – digo foram porque seus atos presentes destroem seu passado e ele ainda fica devendo – e valorizaram o fato de ter chegado ao Planalto.

Mas como Chefe de Estado, Lula não pode fazer apologia da burrice, como se ela fosse um dom, não uma limitação.

Como lembrou Augusto Nunes no ótimo A celebração da ignorância é um insulto aos pobres que estudam, Lula transformou sua célebre frase “Eu cheguei à Presidência mesmo sem ter um curso superior” em slogan de sua campanha pelo emburrecimento do país. Para Nunes, “(…) a frase que nasceu como pedido de desculpas, tornou-se desafio, foi promovida a motivo de orgulho e acabou virando refrão do hino à ignorância.”

Sem dúvida que a postura do presidente é um desrespeito com todos aqueles que se sacrificam e empreendem colossais esforços para estudar, aprender e desviar-se do destino que lhes é designado antes de nascer. Sem precisar tornar-se sindicalista, nem petista, muito menos ser amigo do Sarney ou de alguma neta dele.

Mas minha única discordância com o Augusto Nunes advém do fato de eu também me sentir insultado sem ser pobre. A inversão de valores de Lula, cultuando a ignorância, é um insulto a qualquer pessoa que estude, seja ela pobre ou rica. É um insulto ao país.

Num momento em que precisamos de pessoas inteligentes, criativas e bem preparadas para promover as mudanças e os avanços de que o país precisa, nosso presidente mostra, mais uma vez, que a burrice compensa. Que o seu jeito malandro, preguiçoso e iletrado o levaram à Presidência. Que quanto mais burro você for, mais longe poderá chegar.

Em vez de alertar que é uma exceção à regra, Lula posa de exemplo – o pior possível.
6a00e554b11a2e88330148c6b99628970c-200wiNesta semana comecei a ler o promissor Unscientific America: how scientific illiteracy threatens our future (Basic Books, 2009) onde Chris Mooney e Sheril Kirshenbaum alertam para as consequências da opção pela ignorância feita pelos americanos. Notem: habitantes de um país avançado, de Primeiríssimo Mundo.

Os EUA construíram a bomba atômica, foram à Lua, criaram a Internet, decodificaram o genoma e contam, ainda, com a maior verba destinada à pesquisa científica no mundo (US$ 100 bilhões). Ainda assim, numa situação paradoxal, são motivo intergaláctico de piada por causa da ignorância e alienação do seu povo.

A maioria das mais urgentes questões de hoje em dia têm fundamentos ou consequências científicos, mas um povo incapaz de entendê-las não poderá fazer as escolhas adequadas. Poluição, gripe suína aviária, alimentos transgênicos, pré-sal.

“Se a administração Bush conseguiu ser tão anti-ciência, certamente deve haver algo em nossa sociedade que torne tal comportamento politicamente viável ou vantajoso – e fácil de se safar.” Trocando “Bush” por “Lula” no texto, ele cai como uma corroída luva verde e amarela. Esse algo em nossa sociedade que torna tal comportamento viável é o galopante emburrecimento da população.

Para os jovens de hoje estudar é castigo. Textos maiores que um page down são ilegíveis. Fazer conta sem o celular é coisa de nerd. Ler é passatempo de trouxa. Que pai consegue incentivar seu filho a estudar quando este lembra-lhe que o presidente é semi-analfabeto?

Agravando mais ainda o quadro, Mooney e Kirshenbaum lembram que reverter este processo leva tempo: “Uma mudança na administração não conserta os problemas citados, que incluem a marginalização da ciência pela mídia, a constante separação entre ciência e religião e uma cultura americana que frequentemente questiona o valor do intelecto e até glorifica a estupidez.”

Nossa sociedade hoje presta pouca reverência à inteligência. Antes, achincalha-a. Prefere a burrice, orgulha-se da estupidez. Ri de suas notas baixas, não se envergonha por repetir de ano e prefere uma faculdade medíocre. Obviamente confirma seu destino com um emprego caquético e uma vida esquecível e lamentável.

É esse, infelizmente, o retrato e o destino de um país que zela por sua idiotice, protege-a e cuida de expandi-la e perpetuá-la, elege um pária, reelege um iletrado e ainda corre o risco de substituí-lo por uma doutora fake – em todos os sentidos.

6 pensamentos em “A celebração da ignorância”

  1. Quanto a questão da leitura, um caso prático.
    Eu tinha acabado de mudar, caixas por tudo quanto é canto do apartamento. A minha sócia e a filha apareceram para dar uma ajuda.
    A menina de 12 anos, aluna de um dos melhores colégos de São Paulo, abriu uma caixa cheia de livros, pegou um exemplar de “Eu, Robô”, lançou um olhar como se eu fosse um marciano, e mandou a pergunta: “Por que você comprou esse livro se existe o filme?”

  2. Olá Rodolfo,
    Concordo com todo o suco que tirei de seu post (que merece, aliás, uma versão para teenagers…). Como seu leitor assíduo, gostaria de fazer uma ponderação: ele perde força por atacar de forma desproporcional as figuras do presidente e de sua candidata. Dessa forma o artigo é suscetível a interpretações e filtros partidários, quando ele poderia ter força inclusive em meios do próprio governo. O que seria muito bom. Do ponto de vista de quem milita pela gestão do conhecimento e inteligência coletiva, isso me incomoda por erigir uma barreira desnecessária à reflexão que pode decorrer da leitura do seu pensamento.

  3. Sérgio,
    concordo contigo na medida em que a distância entre o conhecimento e a sociedade é um fenômeno apartidário e independente de ideologia.
    Minhas críticas a Lula são apenas com relação ao fato de ele fazer apologia à ignorância e achar lindo ser burro.
    Abraço, Rodolfo.

  4. é uma questão cultural.
    Aqui em Petrolina PE / Juazeiro BA, prefeituras pagam mais de R$20.000,00 por bandas de “forró” elétrico que entoam refrões de sucesso como: beber cair levantar; eu sou raparigueiro e gosto de vaquejada…, chupa, chupa, chupa que é de uva (obs. a camisinha é de uva!) para multidões, sobretudo no São João. Clara apologia ao alcoolisno enquanto a propaganda diz outra coisa, além de Milhares de crianças e pré adolescentes rebolando vulgarmente, despertando a virilidade mais cedo, sem equilibrio e base familiar para uma formação regular aceitável. Conheço vários políticos na região de linguagem truculenta, completamente desfavorecidos de leitura.
    enfim…
    eu acho que Lula tem um pedaço da lingua preso !!

  5. País diferenciado

    Ainda não havia me dado conta de como os dois assuntos mais comentados ultimamente estavam tão intimamente relacionados. De um lado, os moradores de Higienópolis rechaçaram a construção de uma estação de Metrô em seus domínios, sob a alegação de……

  6. Bem, não concordo muito com o seu texto…mas precisaria de outro texto, maior ou igual para refutar as suas idéias. Resumidamente, voce coloca toda a culpa pelos jovens não quererem estudar em cima do Lula, que ficou oito anos no poder e esquece que o Brasil teve outros 503 anos na mão de uma elite que, decididamente, não quer ver pobre estudando. A atitude dele não foi correta, mas tem parcela infima, comparada com o que se fez, ou deixou de fazer em prol da educação até hoje.

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