Enfia o chip no cu!

Em um ano de blog, essa é a segunda vez que um palavrão aparece no título. A primeira foi no simpático Fooooooda-se!, onde eu explicava por que o palavrão é convincente. Mas dessa vez é de raiva mesmo. Explico:

Faz sucesso na internet um vídeo onde um bisbilhoteiro grava da sua janela a seguinte cena noturna: uma moça (muito provavelmente bêbada) sai de um carro na frente de uma casa e começa a gritar com o Pedro – que deve morar ali – para que ele devolva-lhe o seu chip de celular.

O que se ouve nos quase cinco minutos do vídeo é uma sequência de palavrões e insultos na qual ela, a plenos pulmões, xinga não só o rapaz mas todo mundo que está por perto ou não (sua fúria também é dirigida à mãe do cinegrafista que, vez ou outra, assovia-lhe). Um retrato deprimente do papel a que se presta uma pessoa – que deve ter pai e mãe envergonhadíssimos do escatológico sucesso do seu rebento – por um chip de celular. Algo que custa, sei lá, dez Reais?

Se você chegou até aqui esperando ver o tal vídeo, lamento, mas não faço parte do grupo de pessoas que acha graça nisso. Caso a descrição acima sugira uma cena da qual você costuma rir, então vá para o Google e boa sorte, pois o seu tempo aqui acabou.

Se você acha graça nesse tipo de coisa e, ainda assim, não foi embora correndo para ver o tal vídeo, menos mal. Quero apenas lembrar-lhe que cenas assim muitas vezes têm outro fim.

A cantora Rihanna, antes e depois do chip
A cantora Rihanna, antes e depois do chip

Por exemplo, o tal Pedro poderia sair de casa e dar uma surra na mulher. Ou poderia simplesmente dar-lhe um tiro pela janela, sem nem precisar sair de casa. Ou um outro morador, incomodado com o barulho, poderia fazer um dos dois. Ou os dois. Hoje em dia, faz-se isso por muito menos. Será que um vídeo desses também seria tão engraçado assim?

O que me causa espanto, senão desânimo, é ver quanta gente está morrendo de rir com tal cena.

Estou longe de ser mais um chato da patrulha politicamente correta. Meu senso de humor admite, aliás, coisas bem esquisitas (como você pôde notar no título do post).

Entendo, também, que a maioria das situações cômicas tem algo de degradante, ou alguém que sai perdendo. E há coisas e momentos onde a melhor tradução é um palavrão, admito. Noutras, porém, nada substitui um polido “por favor”.

Esse vídeo, entretanto, cruza o tênue limite entre o cômico e o trágico. Entre o engraçado e o grotesco. E mostra que nós não reconhecemos mais esses limites, ou não damos mais nenhuma importância a eles. Ligamos mais para nosso minuto divertido, nossa gargalhada efêmera. Se alguém é humilhado ou morre por causa disso? Mero efeito colateral. Melhor sorte na próxima vez…

Mas quando uma moça gritando palavrões no meio da rua por cinco minutos por causa de um chip transforma-se na maior febre do YouTube, via Twitter? Lamento, estou fora.

ATUALIZAÇÃO (21/09/2009): Briga por causa de barulho deixa um morto e dois feridos em São Paulo.

7 pensamentos em “Enfia o chip no cu!”

  1. Cara, entendi toda essa febre e escárnio como uma espécie de vingança contra todos que já nos tiraram o sono a noite.
    Ao ser ridicularizada na web, essa mulher está pagando os pecados de todas as bÊbadas que fizeram algo semelhante.

  2. Grande Rodolfo,
    Lamentè!
    Penso que a vida moderna nos empurra para uma (completa) “imbecilização”. A vinte anos atrás essa discussão teria sido evitada, com certeza.

  3. Sobre o comentário do José Carrazzoni, sugiro a leitura do pequeno romance de Martin Page ” Quando me tornei Estúpido”. Pequeno no sentido literal, em formato de bolso com 158 deliciosas páginas!
    (sim, eu faço o gênero antropofágico..)
    Há uma jornada intensiva de imbecilização, e eu até já considero as aspas desnecessárias.
    Suas considerações sobre o desdobramento dessa cena, Rodolfo,é muito pertinente. Confesso que não vi o vídeo… mas pelo seu relato consego imaginar. Por muito menos, muita gente já recebeu uma bala.
    Estamos convivendo com pessoas que não sabemos o que têm na cabeça, geralmente chapadas ( por drogas, estimulante, fluoxetina…) frustradas e tóxicas e essa mistura costuma não ser boa.

  4. Eu também acho horrível esse gosto pelo mau gosto. Mas acho que não é culpa do gado, porque ele é o quê ele é…(gado asinino (aprendi hoje)). Infelizmente, é um círculo vicioso, menos oportunidade de acesso ao melhor, à vida, ao tesão, à natureza, ao mágico…à inteligência, à sensibilidade, consequente menos possibilidade de apreciar coisas melhores. Tudo acontece porque os psicopatas estão no poder !! E, inegavelmente, eles conseguem exercer uma liderança nas mentes… (e eu sou paranoide).
    Uma vez, numa entrevista, há muuuito tempo atrás, o secretario dos transportes declarou que ele não tinha nada a ver com o fato dos usuários dos trens subirem neles para chegarem ao trabalho na hora, pois isso era “opção deles”. Ao que o Chico Pinheiro respondeu: “Não, secretário, não é opção, é falta de opção!!”.

  5. Oi Rodolfo,
    concordo contigo em número e grau. A internet é muito imprevisível. Há um vídeo de um cara sacaneando a empregada, pedindo que ela fique repetindo “you tube”, e ela não consegue pronunciar corretamente. Eu não achei graça nenhuma, mas muita gente rolava de rir.
    Embora eu não concorde com a menina que ficou xingando, eu suponho que ela tivesse mais razões do que dez reais: não é no chip que se armazena os números de telefones e as mensagens? Se poderia perder muita coisa ali.

  6. Concordo com você Rodolfo e aproveito para levantar outra questão, que na verdade já foi colocada pelo José Carrazzoni ai em cima.
    Há 20 anos essa discussão estaria completamente fora de pauta.
    O privado, hoje, é completamente público. Ninguém pode mais beber, cair, ou fazer um escandâlo que aparece na internet.
    Claro que essa garota faltou com respeito com o Pedro, com os vizinhos e principalmente com ela mesma, mas se o Pedro que provavelmente tem alguma ligação com ela não se incomodou com o escandâlo, quem sou eu pra se incomodar? Fora uma noite de sono mal dormida essa ação não iria interferir em nada na minha vida, então pra que filmar e expor a vida de outra pessoa sem o consentimento dela.
    Fora a questão que você levantou né!? Da possível violência ao qual estamos expostos hoje.
    Aproveito também para lembrar aquele velho ditado completamente equivocado “em briga de marido e mulher niguém mete a colher”…
    Ninguém denuncia o ato de violência de um marido contra a sua esposa, ninguém se mete, principalmente por achar que a mulher só está nesse relacionamento, nesta situação porque quer, mas filmar a vida de outra pessoa e colocar na internet, denegrir a imagem de outra pessoa realmente é muito “construtivo” para a sociedade.
    É lamentável!

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