Lie to me

Como minhas leitoras bem sabem, não sou exatamente um fã de séries televisivas. Jamais assisti a um capítulo de Lost, não chorei quando Friends terminou e nunca sei em que cidades Gary Sinise ou William Petersen investigam crimes em laboratórios. Confesso que dou umas risadinhas quando sou inadvertidamente exposto a Two and a half men ou The new adventures of old Christine, mas não me pergunte os horários nem mesmo o canal.

Elenco do ainda inédito Lie to Me
Elenco do ainda inédito Lie to Me

Até hoje só acompanhei os brutos 24 Horas e The Shield, de cabo a rabo. São produções caprichadíssimas com enredos originais e bem amarrados. A essas duas soma-se agora a ainda inédita Lie to me: a mentira mostra a sua cara, estrelada pelo excepcional Tim Roth. Assim como as outras, esta é mais uma produção da Fox e tem como tema central a mentira.

Na trama, Roth é o doutor Cal Lightman, o líder de uma equipe de especialistas em detecção de mentiras que auxiliam governos, instituições ou quem mais contrate seus serviços a identificar quem estiver faltando com a verdade. Baseado em pesquisas científicas aliadas ao talento natural de cada um, o grupo desmascara criminosos disfarçados ao mesmo tempo em que ajuda inocentes falsamente acusados.

Apesar de as tramas não serem particularmente brilhantes – o que é desculpável já que tudo se resolve no próprio episódio, limitando a complexidade dos enredos – as peripécias dos polígrafos humanos compensam largamente, dando muito agilidade ao ritmo do seriado. Diálogos inesperados colocam os mentirosos na parede, espremendo o restinho de honestidade que ainda fingem carregar.

O seriado é confessadamente inspirado no trabalho do Dr. Paul Ekman, um Ph. D. em psicologia social que desenvolveu pesquisas na área do comportamento humano, estudando expressões faciais e movimentos corporais como uma forma de linguagem não-verbal. Dirigindo uma empresa nos moldes da retratada em Lie to Me, Ekman escreveu vários livros sobre o tema e foi considerado pela revista Time como uma das 100 personalidades do ano de 2009. Além disso, trabalha como consultor científico da produção, emprestando credibilidade aos seus personagens. E foi precisamente esse lado do seriado que chamou a minha atenção.

De Niro discutindo a relação com seu genro Ben Stiller
De Niro discutindo a relação com seu genro Ben Stiller

Identificar mentirosos e suas lorotas não é uma tarefa trivial. Polígrafos já foram considerados imbatíveis, mas hoje suas limitações são bem conhecidas. Seu funcionamento baseia-se em sinais corporais emitidos quando a pessoa encontra-se sob o estresse de contar uma mentira.

Da pulsação acelerada à respiração ofegante, passando pelo suor intenso, tais pistas sugerem que uma pessoa pode não estar dizendo a verdade. Mas não prova nada. Até porque ser interrogado plugado numa máquina já configura, por si só, uma situação estressante.

Nem mesmo os modernos aparelhos que medem as variações na dilatação da pupila (outro indício de que o indivíduo pode estar mentindo) são capazes de apontar um cascateiro com 100% de certeza. Estudos de neuroimagem com ressonância magnética ainda engatinham nessa área e, até então, mostraram-se pouco conclusivos, além de nada práticos.

Ainda que as atividades da equipe de Lightman pareçam caricatas às vezes, com seus integrantes fazendo diagnósticos instantâneos, é interessante notar como eles próprios questionam aquilo que dizem. Sinais de mentira podem ser uma interpretação equivocada de nervosismo ou incredulidade. Surpresa ou indignação talvez pareçam indícios de uma lorota mal-disfarçada. E nas delicadas questões em que eles se envolvem, tais confusões podem representar a diferença entre um culpado e um inocente.

Assim o Dr. Lightman navega entre criteriosas pesquisas na área do comportamento humano e sua afiada intuição, para detectar a verdade (ou a mentira) através de expressões faciais, movimentos corporais e entonação de voz. E tudo muito bem explicado e ilustrado durante os episódios. Aliás, um grande atrativo da série é mostrar figuras públicas – como Barack Obama, Bill Clinton e O. J. Simpson – como exemplos de mentirosos sendo pegos em flagrante.

O excessivamente honesto Jim Carrey, em O mentiroso
O excessivamente honesto Jim Carrey, em O mentiroso

Mas antes que você corra para a frente da TV, imaginando ter econtrado um cursinho relâmpago que vai te ajudar no pôquer com os amigos, que fique claro que sentir o cheiro da mentira à distância é, ao mesmo tempo, uma dádiva e uma maldição. E Lie to Me deixa isso bem claro.

De um lado, imagine você ter que dizer à recepcionista da sua empresa que ela tem um cabelo horrível; que seu estagiário tem uma espinha nojenta no rosto; ou que sua vizinha é a maior gostosa? Longe de ser apenas o dia de cão vivido por Jim Carey em O mentiroso, esta seria a realidade num mundo 100% sincero.

Ou, na situação oposta, pense como seria ter certeza que sua filha está mentindo quando diz que vai dormir na casa da amiga; ou perceber que sua colega de trabalho é traída pelo marido; ou que sua ex-mulher ainda te ama?

São dilemas intensos que caíram como uma luva no ator principal de Lie to Me. Nascido Timothy Simon Smith, o inglês Tim Roth é o que se pode chamar de sujeito invocado. Famoso por seus papéis malvados – como o Mr. Orange, no épico Cães de Aluguel, o Archibald de Rob Roy (que lhe valeu uma indicação ao Oscar de 1995, vencido por Kevin Spacey por Os Suspeitos), ou o Emil Blonsky do último Hulk* – Roth compensa sua pouca estatura (1,70 m) com muita atitude e uma postura bem característica.

O enigmático Tim Roth
O enigmático Tim Roth

Não por acaso, ele chegou a ser cogitado para fazer Hannibal, enquanto Anthony Hopkins relutava em reencarnar seu mais famoso personagem. Roth ainda traz no currículo experiências mais leves, como seu trabalho com Woody Allen no musical Todos dizem eu te amo ou o caricato mensageiro destrambelhado de Grande Hotel.

Completam o elenco fixo, da esquerda para a direita na foto lá de cima, os ainda desconhecidos mas nem por isso menos competentes Monica Raymund como a intuitiva Ria Torres, Brendan Hines como o ultra-sincero Eli Loker e Kelli Williams como a parceira ainda-vou-ter-um-caso-contigo doutora Gillian Foster. Fora a participação mais do que especial de Jennifer “Flashdance” Beals que, aos 45 anos, continua linda!

Dos treze episódios de Lie to Me exibidos na TV americana, de janeiro a abril deste ano, apenas quatro não ficaram com o primeiro lugar na audiência do horário.

A série que bateu Lost, Law & Order e Criminal Minds já prepara a sua segunda temporada, que terá Shawn Ryan, o criador de The Shield, como produtor. Garantia certa de episódios ainda mais fortes e carregados de dramaticidade.

E para você que já aguarda a estréia com ansiedade, deixo uma pergunta capciosa: ser o maior especialista em detectar mentiras alheias, pode tornar-lhe um mentiroso imbatível?

LEIA TAMBÉM: em Seu ladrãozinho barato! Dan Ariely mostra que a possibilidade de ser pego não interfere na disposição em mentir.

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* Ainda assim, meus papéis favoritos de Roth como vilão são Dutch Schultz no violento Homens Perigosos (Hoodlum, 1997) e o psicopata James Wayland, do subavaliado O impostor (Deceiver, 1997), onde ele passa boa parte do filme do lado de lá, amarrado num polígrafo e sendo interrogado por Michael Rooker e o falecido Chris Penn.

6 pensamentos em “Lie to me”

  1. ih! já fiquei viciado em Lie to Me!
    Realmente uma série muito bem escrita e dirigida ( e atuada)
    Me ocorreu se estamos perdendo a capacidade de fazer essas “leituras” corporais devido ao convívio virtual…
    boa questão!

  2. Por que o final de Lost foi tão bom?

    Antes do texto propriamente dito, preciso confessar que jamais assisti sequer um episódio de Lost. Só sei que tinha um gordinho barbudo e um tiozinho careca. Fora isso, não reconheço um ator, não identifico uma música e jamais entendi uma…

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